Do avô ao neto: fregueses atravessam gerações no Mercado do Porto em Cuiabá
Bancas tradicionais de Cuiabá misturam produtos regionais, memória afetiva e histórias de quem fez do balcão uma vida inteira.
Domingo no Mercado do Porto, em Cuiabá, tem roteiro próprio. Tem quem chegue cedo para as compras da semana, quem atravesse os corredores atrás de um ingrediente específico e quem vai simplesmente pelo passeio, quase sempre acompanhado de uma parada para o pastel com caldo de cana. Entre uma banca e outra, aparecem sabores que ajudam a contar Mato Grosso e comerciantes que fizeram do balcão o endereço de uma vida inteira.

A história começou muito antes do Pix, das máquinas de cartão e dos grandes supermercados. Os primeiros registros da feira que deu origem ao mercado remontam a década de 1950, quando pouco mais de dez feirantes ocupavam a região central de Cuiabá.
Depois de passar por diferentes pontos da cidade, o Mercado Antônio Moisés Nadaf chegou à Avenida 8 de Abril, no antigo Campo do Bode, em 10 de fevereiro de 1995. E desde 2021, é reconhecido como patrimônio histórico, artístico e cultural imaterial de Mato Grosso.
Depois de um tempo,
não é só uma venda.
Quem viu boa parte dessa transformação de dentro da feira foi um homem que começou a trabalhar ainda criança. Hoje aposentado, o ex-feirante Sérgio Pinheiro acompanhava o pai na venda de verduras, passou pelos antigos endereços e encerrou a atividade já no atual Mercado do Porto. Da Cuiabá daquele tempo, guarda principalmente as madrugadas.
“Vinham mais de 50, 60 charreteiros. Compravam mandioca, banana, tomate, enchiam a charrete e saíam vendendo pelos bairros. Naquela época tinha pouco mercado. Tinha cliente que acompanhava a gente. Mudava a feira e eles iam atrás”, pontuou Sérgio.
Décadas depois, o cenário é outro, mas essa relação ainda aparece nos corredores. No Cerealista do Porto, mais de 200 tipos de grãos e farinhas ocupam sacos e recipientes, muitos identificados por plaquinhas escritas à mão. É o tipo de lugar em que o cliente entra atrás do feijão e já aproveita para levar arroz, farinha para a farofa de banana do almoço e algum outro ingrediente que encontra pelo caminho.
Peguei R$ 150 mil emprestados para montar meu box. Foram muitas noites sem dormir.

Na Banca do Amaral, quem chama atenção são as raízes, os alhos e os temperos. Baiano, o comerciante chegou a Cuiabá a convite de um amigo, gostou da cidade e acabou ficando. Há 13 anos, mantém ali o próprio negócio. “Vim para cá para trabalhar, gostei da cidade e montei meu negócio. Cuiabá me deu essa oportunidade”, disse.
O mercado também se tornou uma parada para quem quer conhecer, provar ou levar referências de Mato Grosso. A concentração de produtos regionais, culinária e costumes locais transformou o espaço em um dos pontos de visita de quem passa por Cuiabá.

No Empório Espaço Rural, comandado por Nilza, isso aparece nas prateleiras. Licores, artesanato, chaveiros e kits para presente dividem espaço com produtos regionais.
Funcionário do empório, Gabriel conta que dois pedidos se repetem entre os visitantes: o canjinjin, o licor de pequi e o famoso esquenta xereca. “Muita gente vem procurando justamente esses produtos porque quer provar uma coisa daqui ou levar uma lembrança de Mato Grosso”, contou.

Uma dessas visitantes é Rosa Alencar. Moradora de São Paulo, ela tem família em Cuiabá e inclui o Mercado do Porto no roteiro sempre que retorna à cidade. Na mala, costuma reservar espaço para o canjinjin, bebida que ela associa a Mato Grosso e gosta de apresentar aos amigos por causa da fama de afrodisíaca. “Eu gosto de servir quando recebo visitas em casa. É uma bebida daqui, diferente, e o pessoal fica curioso para experimentar. Faz muito sucesso”, disse.
Se algumas lembranças viajam em garrafas, outras aparecem em pedaços de doce. Feirante desde a década de 1980, Verônica Targino tem nos doces regionais a identidade da banca. Rapadura de cana, furrundu, goiabada, doce de caju, laranja e figo estão entre os produtos que remetem a receitas conhecidas de muitas famílias cuiabanas.

A rapadura é um desses sabores que ultrapassam a compra. Para muita gente, lembra a cozinha dos avós, o doce guardado no armário ou o pedaço servido depois do almoço. O furrundu carrega essa mesma memória, com uma receita tradicional feita à base de mamão e rapadura.
Nos queijos artesanais, a referência é Dilma Baía, feirante há quase 11 anos. Com o tempo, ela percebeu que conhecer o freguês passou a ser tão importante quanto conhecer o produto. “Tem cliente que chega e a gente já sabe o que ele leva. Você conhece o gosto da pessoa, conversa e cria um vínculo. Depois de um tempo, não é só uma venda”.
Eu conheci os pais,
depois vieram os filhos
e hoje alguns chegam com os netos.
Essa relação atravessou gerações na banca de Isidoro de Almeida, que trabalha com ervas, condimentos e especiarias. Depois de décadas no comércio, ele já reconhece filhos e netos de antigos fregueses. “Eu conheci os pais, depois vieram os filhos e hoje alguns chegam com os netos. Tem cliente que volta depois de muito tempo e a gente até se emociona”.
A memória do mercado também pertence a quem está do outro lado do balcão. Aos 72 anos, o aposentado Luiz Antônio Borges frequenta o lugar há décadas e já sabe onde gosta de parar. Compra em bancas conhecidas, conversa com os comerciantes e mantém um hábito construído ao longo dos anos. “Você vem tantas vezes que acaba conhecendo as pessoas. Sabe onde gosta de comprar, conversa, encontra gente conhecida. A feira vai entrando na rotina da gente.”
Já Jailson Antônio da Silva, o Amarelo, fez das pimentas a própria assinatura. Feirante desde 1984, passou por verduras e cereais antes de se especializar. Hoje trabalha com quase 20 variedades e conta que já vendeu cerca de 350 quilos em três dias.
E há tradições que atravessam os corredores sem precisar de indicação. Para muitos frequentadores, especialmente aos domingos, a visita só fica completa com o pastel e o caldo de cana do Japonês , combinação que há anos faz parte do passeio pelo Mercado do Porto.
Estrutura ainda preocupa
Nem todas as lembranças, porém, são leves. Quase três décadas depois de chegar à Avenida 8 de Abril, o mercado passou por uma grande revitalização. A primeira etapa da nova estrutura foi entregue em julho de 2023 e a segunda teve entrega oficial em dezembro de 2024. Durante a transição, comerciantes precisaram continuar trabalhando em espaços provisórios.
Para Verônica, foi o período mais difícil da vida como feirante. Ela relata perda de clientes e diz que precisou assumir uma dívida para conseguir estruturar novamente a banca. “Peguei R$ 150 mil emprestados para montar meu box. Agora que terminei de pagar. Foram muitas noites sem dormir.”

O comerciante de frutas e verduras Carlos Gonçalves, o Carlinhos, também guarda a memória daquele período. Ele passou cerca de um ano e nove meses trabalhando sob lona. “No calor era muito quente e, quando chovia, também era difícil. Quando a gente voltou para um espaço fixo, foi um alívio.”
Algumas reclamações permanecem no cotidiano. Dilma cita o calor, episódios de falta de água e a necessidade de mais áreas cobertas no estacionamento. “Ficou mais organizado, mas quem trabalha aqui o dia inteiro percebe o que ainda falta. O calor pesa e a questão da água também atrapalha.”
A distribuição das bancas também divide opiniões. Amaral diz que alguns clientes têm dificuldade para encontrar determinados pontos depois da reorganização dos corredores. Amarelo percebe o mesmo. “Tem gente que chega perguntando onde fica uma banca. Para quem trabalha aqui é fácil, mas para quem vem pouco alguns corredores confundem.”

Fora da estrutura, existe outro desafio: disputar o consumidor com supermercados e atacarejos, que concentram produtos e compram em maior escala. Verônica percebe principalmente a redução dos clientes mais jovens. “A gente pequeno não tem como competir com os grandes.”
É nessa diferença que o atendimento, a especialização e a memória ganham peso. O freguês sabe quem entende de pimenta, onde encontrar a mandioca, qual banca guarda aquele doce da infância ou quem já conhece o queijo que ele leva sem precisar perguntar.
Depois de décadas vendo o mercado mudar, Verônica encontrou uma definição própria para quem permanece. “Feirante tem casco de jabuti. A gente passa por muita coisa, mas continua.”
Talvez seja essa a singularidade que melhor explique o Mercado do Porto. Os produtos ajudam a apresentar Mato Grosso a quem chega de fora, mas são as pessoas que fazem cada sabor ganhar endereço e história.
A cidade cresceu, o jeito de comprar mudou e as opções se multiplicaram. No Mercadão, ainda há quem volte sabendo não apenas o que quer levar, mas de quem quer comprar.
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