Jaqueline Naujorks

E quando a vítima poderia ser sua mãe?

Você se compadece ou pergunta "o que a anjinha fez?"

Rosana Candia Ohara era uma senhora de 62 anos, molhando suas plantinhas numa tarde qualquer. Ela comercializava as plantas, cuidava delas com esmero. Foi casada por muitos anos com um homem difícil, teve seus filhos, e cansada das pequenas violências que nos ensinam a aceitar, se separou do marido há alguns anos.

Esse homem tem nome e nós não vamos deixar que ele seja esquecido: Antônio Lima Ohara, de 73 anos. Sim, 73 anos.

Quando se separaram, dona Rosana ficou com pena do ex-marido que estava velho e sozinho, e mesmo em outra casa, cuidava dele como podia. Ele tinha muito ciúme dela, relataram os vizinhos. No final do ano ela viajou para visitar a filha, e esse homem teve um ataque de raiva dizendo que ela estava com outro, ao que ela respondia “Que outro? Eu não vou para lugar nenhum”.

Ameaçada com uma faca, a mulher teria sido agredida e obrigada a entrar no veículo do suspeito, em Comodoro.
Segundo feminicídio de MS vitimou uma mulher de 62 anos. – Foto: Ilustrativa

Te parece familiar um homem criar teorias malucas na sua cabeça sobre traição se colocando na posição de vítima? Pois é. Você acaba de descobrir que isso não tem idade. O que você está prestes a ler, é um dos relatos mais absurdos que já precisei escrever.

Esse idoso, um idoso que você daria o lugar no ônibus, na fila do mercado, um idoso para o qual você puxaria uma cadeira em um lugar qualquer, que seria impedido de subir uma escada, simplesmente pegou um pedaço de madeira e acertou o rosto de Rosana, enquanto ela molhava suas plantas.

A partir daí, o que se seguiu foi uma cena de filme de terror. Enquanto golpeava o rosto da mulher com quem dividiu a vida, Antônio sorria. Sim, sorria.

Seu estômago já está embrulhado? Bem, a crueldade não acabou.

Os vizinhos tentaram impedir, mas ele ameaçou matar os vizinhos também. Era um homem enfurecido com um pedaço de madeira na mão, matando a pauladas a mulher que lhe dedicou a vida, e sorrindo.

Ao final dessa barbárie, ele subiu na sua bicicleta e foi para a casa de um irmão. Quando a polícia chegou, ele ameaçou os policiais. Por fim, debochou dizendo que só iria com eles depois que tomasse seu chá de camomila. Parece mentira, eu sei. Mas é a famosa ficção da realidade.

E aí eu te pergunto:
Quando a vítima de feminicídio tem idade para ser a sua mãe, você se compadece o suficiente para se indignar, ou também vai perguntar “o que a anjinha fez”?

Sei que você pode questionar a sanidade mental desse idoso, ou mesmo um princípio de, sei lá, mal de Alzheimer, que deixa as pessoas violentas, mas não é o caso. Esse é mais um exemplo de um homem ruim, que nunca foi bom para sua esposa, e trata a mulher como se fosse uma coisa qualquer. Uma coisa sua, que ele pode aniquilar quando bem desejar.

Os filhos e netos não puderam beijar a mãe na despedida porque o caixão estava fechado. O rosto de Rosana foi desfigurado pelo homem a quem ela dedicou boa parte da vida. O homem de quem ela cuidava, com seu coração bom, por pena de deixa-lo à própria sorte.

Antônio Ohara é a pura representação do machismo. Um homem que mata a pauladas no rosto a mulher que não lhe quer mais, a mulher que cansou da sua violência e foi embora. Mata uma mulher indefesa, que estava molhando suas plantinhas numa tarde qualquer. Não é porque um homem envelhece, que ele deixa de ser ruim.

Esse é o segundo feminicído em MS esse ano, e ainda nem chegamos ao final de janeiro. Se uma vítima que poderia ser sua mãe não te deixa indignado o bastante para cobrar uma ação efetiva do poder público, o que mais precisa acontecer? Quantos filhos chorando à beira de um caixão fechado serão necessários para uma caminhada qualquer não ser uma pauta mais importante? Mais discutida? Com mais mobilização do povo e do poder público?

Perdão, dona Rosana. Nós não deixaremos que seu nome seja esquecido, nem que a sua morte seja tratada como um número qualquer. Começamos mais um ano enterrando mulheres amadas, arrancadas da família por um homem que se sente dono. Dono o suficiente para sorrir, ao encarar sua própria crueldade.

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