A história da fundação de Campo Grande é rodeada de lendas que ajudam a construir a identidade do município, que nesta quarta-feira (26), celebra 127 anos de existência. Uma delas faz parte do cemitério Santo Antônio, o mais antigo da cidade, fundado em 1872.
Quem conta melhor a história sobre o local é o professor de história Fernando Vendrame, um dos responsáveis pelo passeio guiado realizado algumas vezes no cemitério. A ideia é mostrar aos visitantes as memórias enterradas na região, formadas pela chegada dos imigrantes, evolução da arquitetura e transformações da sociedade ao longo de mais de um século.
O terreno onde funciona o cemitério atualmente foi doado por Amando de Oliveira. Pouco tempo depois da doação, ele acabou assassinado em uma emboscada e foi sepultado no local, em 1914. O episódio fez surgir a versão, repetida por décadas, de que ele teria sido a primeira pessoa enterrada ali.
“Onde tem o túmulo do Amando de Oliveira, que é esse obelisco em tom meio amarelado, ele foi o cara que doou a área para a construção, doou um pedaço da sua fazenda, das suas terras, para construir o cemitério. E, ironicamente, dizem que foi o primeiro a ser sepultado aqui, porque ele era um coronel também. As disputas políticas que tinham ali, daquelas questões que resolviam tudo na base da lei do 44, ele foi assassinado e foi o primeiro a ser sepultado aqui. Em 1925 fizeram essa placa em homenagem a ele, para homenageá-lo, e depois, agora mais recentemente, no ano passado, durante o projeto, fizeram uma outra placa reproduzindo mais ou menos o que tinha em uma outra placa anterior que estava aqui, que era em bronze”, destacou o professor.
Túmulo de Amando de Oliveira, doador do terreno (Foto: Antonio Bispo)
A história também pode ser outra
Embora os registros oficiais de sepultamentos só existam a partir da década de 1930, um túmulo localizado no cemitério indica uma data anterior da de Amando: 13 de agosto de 1913. Na lápide aparecem os nomes de José Alves de Mendonça e Germano.
O episódio é narrado por Ulisses Serra no livro Camalotes e Guavirais. Segundo a obra, os dois morreram durante um tiroteio ocorrido em uma apresentação de circo que passou por Campo Grande no início do século passado.
Para Fernando, ainda não é possível afirmar quem foi, de fato, o primeiro sepultado no Santo Antônio.
“A gente não tem elementos suficientes para responder essa pergunta. Eles podem ter sido enterrados primeiro no antigo cemitério e, depois, trasladados para cá. Ou podem ter sido sepultados diretamente aqui. Como Amando de Oliveira foi o doador da área e morreu pouco tempo depois, acabou ficando no imaginário popular essa ideia de que ele teria sido o primeiro”, disse.
Antes da inauguração do Santo Antônio, os sepultamentos eram realizados em outros dois locais da cidade: inicialmente, na esquina das ruas 15 de Novembro e 13 de Maio; mais tarde, na região onde atualmente funciona a Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems).
Independentemente de quem tenha ocupado o primeiro jazigo, o Santo Antônio acompanhou praticamente toda a trajetória de Campo Grande. Conforme a cidade crescia, o cemitério também se transformava em um espaço de memória, preservando sobrenomes, monumentos e acontecimentos que marcaram diferentes épocas.
“Rua” central do cemitério Santo Antônio, onde estão enterradas personalidades da cidade (Foto: Antonio Bispo)
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