Entre o ombro quentinho de mãe e a solidão da menina do abrigo
Relatos de crianças que crescem em abrigos e sonham com o trivial da maternidade
“Carinho, muito amor e eu também vou dar muito amor pra eles. Também que eles me protejam, que eles me deem muito carinho e eu dar carinho pra eles de volta. Eu queria que eles tivessem brincando comigo, eu, minha mãe e meu pai me levando pra escola. E eu perto deles, sentada no colo da minha mãe, com a cabeça deitada no ombro dela” – assista abaixo.
O relato poderia ser apenas a voz doce de uma criança em seu mundo de bonecas, mas é tão real quanto dilacerante. Eu o ouvi pela primeira vez durante exibição de uma matéria do Bom Dia MS – veja na íntegra ao fim deste texto, mas, aviso, prepare o lencinho!
Eu, já na redação, cumprindo expediente, não consegui sufocar as lágrimas que insistiram em brotar em pleno local de trabalho.
Ouvir a ausência de algo tão simples como o ombro de uma mãe me quebrou em mil pedaços. Cacos estes que tento juntar até agora, momento em que escrevo este texto e as vistas tornam a embaçar…
Uma menina tão pequena que, embora tenha o carinho das cuidadoras no abrigo, está, na prática, sozinha neste enorme mundo.
Ao vê-la ali, descrevendo uma cena tão comum em milhares de casas, repetida diariamente, foi impossível não ver a Maria Cecília, minha filha mais velha.
Mesmo sem enxergar o rosto daquela garotinha, já que estava de costas para preservar sua imagem, como determina a lei, a conexão foi imediata.

Talvez porque, dia desses, ao fazer uma tarefa escolar que tinha como foco elencar o que mais gostava na mamãe, a Maria Cecília citou o meu “ombrinho”. É o nosso ritual de todo santo dia: colocar ela e o Caetano, meu caçula, um em cada ombro, e balançar as pernas até que peguem no sono.
De fato, é um momento gostoso. É quando o caos do dia se aquieta e dá lugar ao cheirinho daquelas cabecinhas que já deixaram as características de bebê.
É também a hora da culpa materna, em que a gente se arrepende de toda falta de paciência que tomou as horas do dia. E, na última semana, tem sido o momento em que penso na garotinha do abrigo, ruminando o depoimento curto e doloroso de alguém que não tem o trivial da maternidade, em todos os sentidos.
Como pode uma criança nunca ter tido esse ombrinho?
Vejam bem, ela queria apenas ser levada à escola ao lado do pai e da mãe. Talvez a gente fique tão preso no próprio mundo que não se dê conta de que neste momento existem milhares de crianças e adolescente que queriam “apenas” um afago daqueles bem carinhosos.
O caso, claro, não é isolado.
De acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), milhares de crianças e adolescentes estão aptos à adoção no Brasil. O panorama do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento mostra um contraste doloroso: enquanto há cerca de 5 mil crianças disponíveis, o número de pretendentes habilitados passa de 35 mil.
A conta não fecha devido ao perfil exigido pela maioria dos adotantes. O retrato da realidade nos abrigos mostra que:
- O perfil nos abrigos: a maioria das crianças e adolescentes disponíveis é negra ou parda, tem mais de 7 anos e possui irmãos também acolhidos.
- A preferência dos adotantes: a grande maioria dos pretendentes na fila busca crianças brancas e de até 3 anos.
Embora a adoção de adolescentes venha registrando pequenos avanços, o principal entrave para que essas histórias tenham um final feliz não é a falta de pessoas interessadas, mas a restrição e a exigência de um perfil idealizado que ignora quem está crescendo nos abrigos.
Avó é mãe com açúcar!
É o caso de outro pequeno, não tão pequeno assim, que também ilustra a matéria da TV. Mas, no caso dele, o desejo vai além do núcleo tradicional de pai e mãe: ele sonha em ter uma avó para poder cuidar.
“Eu lavo meu prato, eu limpo a cozinha, eu ‘tiro prova 10’ e eu quero ter uma avó. Fazer um remédio, um chazinho e um biscoito”.
A criança que se esforça para mostrar que é “boazinha”, que tira nota dez e limpa a cozinha, tenta, na sua inocência, provar que merece o amor de uma família. Que mundo é este que um ser tão frágil precisa comprovar que faz jus ao básico na formação do ser humano: estrutura familiar.
Verdade daquelas difíceis de digerir.
Enquanto a gente se questiona sobre essas mazelas e tenta pensar em uma forma de deixar o mundo melhor, fico aqui torcendo para que esses pequenos, em breve, tornem seus sonhos realidade. Que encontrem um lar para chamar de seu e um ombrinho que os acalente com o amor que merecem, para sempre!
Prepare o lencinho!
Assista abaixo a reportagem completa sobre adoção tardia:
Ajuda
Claro que adotar não é como ir ao shopping comprar uma blusa. Se trata de decisão complexa, que exige atender a critérios impostos pela Justiça, além de ser algo que deve vir não só do coração, mas do planejamento geral, afinal é a chegada de um filho!
Quem ainda está amadurecendo a ideia, ou mesmo não pretende adotar, porém quer fazer algo em prol dessas crianças, podem aderir ao Projeto Padrinho.
Saiba a diferente entre a iniciativa e a adoção e veja como participar aqui.
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