Fora da Copa do Mundo, mas não do coração: Brasil vira pintura em túmulo no cemitério Santo Antônio
Homenagem recente a torcedor apaixonado quebra a solenidade do cemitério mais antigo de Campo Grande e ilustra o afeto familiar
Quem caminha pelo Cemitério Santo Antônio, o mais antigo de Campo Grande, pode se surpreender ao dar de cara com um jazigo que foge completamente aos padrões. Pintado recentemente em tons de verde e amarelo, o túmulo quebra a paleta do ambiente por um motivo bem especial: a Copa do Mundo e o amor pelo futebol.
A pintura é uma homenagem a um torcedor fanático enterrado ali, um carinho da família mesmo após a morte de quem sempre amou acompanhar os jogos da Copa do Mundo, que neste ano, termina neste domingo (18).
Quem conta a história é Lilsson Souza, administrador do cemitério Santo Antônio, geógrafo e coordenador do projeto Cemitérios como Patrimônios Culturais.
Segundo ele, neste ano, a esperança do hexacampeonato para o Brasil levou o verde e amarelo para o cemitério. Mesmo com a Seleção eliminada nas oitavas de final da competição, o cuidado e o amor no simples ato de colorir o jazigo foram o que realmente chamaram a atenção. A sepultura — cujo primeiro registro de sepultamento data de 1958 e o último de 1996 — é o símbolo perfeito de um fenômeno que especialistas chamam de “patrimônio vivo”.
Mesmo três décadas após o último sepultamento no local, a família do torcedor faz questão de retornar, cuidar e atualizar as cores do espaço.

“Quando a gente fala de resistência, resiliência e da durabilidade do cemitério, a gente vê que ela acontece justamente pela tradição das famílias em cuidar de seus entes. As famílias vêm, visitam, tem a questão dos trabalhadores, a própria geração de renda, porque eles têm as cuidadoras de túmulo. Ou seja, é um espaço que ainda gera renda, tem a questão social, tem a questão de fomentar o comércio do entorno, porque, querendo ou não, as pessoas reformam, compram os materiais aqui nas casas de construção que a gente tem perto […] Então, tem esse olhar de entender a importância quando a gente fala de preservar, porque não é só preservar o material, preservar uma comunidade que vivencia aquilo”.
Lilsson Souza
De acordo com o professor de história Fernando Vendrame, esse movimento ganhou força desde o ano passado, quando o cemitério passou a abrir as portas para visitas guiadas temáticas. Esses encontros aproximaram a comunidade do espaço físico. “Convidamos as famílias a participar e começamos a observar o retorno delas”.
Por outro lado, o Santo Antônio também convive com o desafio de jazigos que parecem esquecidos, fruto, na maioria das vezes, do tempo.
“Muitos túmulos antigos ficam assim porque a família já não existe mais, não deixou descendentes, netos, e a história se perdeu. Em outros casos, há a mobilidade: as famílias mudam de cidade ou estado, solicitam a exumação e o translado dos despojos para onde estão morando hoje, e o túmulo antigo fica vazio”.
Lilsson Souza
Mas no jazigo verde e amarelo, o cuidado é também sinônimo de amor.
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Comentários (1)
Local bem apropriado para homenagear nossa atual seleção!