Freiras trocam o convento por feira para vender terços e construir nova casa
Pergunta feita durante a reportagem abriu espaço para conhecer o trabalho das religiosas para construir um convento
“Mas freira pode sair à noite?” A pergunta, feita em tom de brincadeira por uma mulher que passava pela feira do bairro Rita Vieira, arrancou uma resposta direta da irmã Maria Madalena: “Pode”.
A cena aconteceu durante a reportagem em Campo Grande, e revelou um lado pouco conhecido da rotina das religiosas, que deixam o convento para vender terços, imagens e outros artigos religiosos e, com o dinheiro arrecadado, ajudar na construção da própria casa religiosa.

Irmã Maria Madalena é da congregação do Sagrado Coração de Jesus e de Maria e se apresenta também como “escrava de Maria, Rainha da Paz”. Ao lado de outras religiosas, ela participa de uma associação civil sem fins lucrativos que mantém o trabalho de produção e venda dos artigos religiosos.
A rotina inclui uma atividade que chama atenção de quem passa pelas feiras: são as próprias religiosas que confeccionam os terços e pintam as imagens colocadas à venda.
“Esse aqui é um terço de Nossa Senhora”, explica a irmã, enquanto apresenta uma das peças produzidas por elas.
Cada venda ajuda a manter um objetivo maior, e o dinheiro arrecadado é destinado à construção do convento, projeto que as religiosas vêm tentando viabilizar há anos.
Trabalho fora do convento
A presença das irmãs nas feiras não é recente. Segundo Maria Madalena, o grupo participa da Feira da Rita Vieira há cerca de três anos, além de também estar presente na Feira da Bolívia.
Na Feira da Bolívia, a participação ocorre todo segundo domingo do mês. Já na Rita Vieira, as religiosas estão presentes semanalmente, às quintas-feiras, e a ideia surgiu justamente como uma alternativa para arrecadar recursos.
“Ah, vai na feira lá Rita e começa a vender as coisas porque vocês vão conseguir recursos para ajudar a construir o convento”, conta a irmã, lembrando de como o grupo começou a participar do espaço.
Ao longo do tempo, a atividade acabou se tornando parte da rotina das religiosas e também uma forma de aproximar o trabalho delas da comunidade. Além das feiras, o grupo mantém uma loja no próprio convento e também uma loja virtual, onde os artigos religiosos podem ser encontrados.
Terços, imagens e fé
Entre os produtos estão terços confeccionados pelas próprias religiosas e imagens que recebem pintura e acabamento feitos por elas. Mais do que uma atividade comercial, a produção tem um propósito definido: levantar recursos para a construção do convento e, ao mesmo tempo, divulgar a devoção religiosa.
“Tudo isso daqui que a gente faz é para ajudar na construção do nosso convento”, explica Maria Madalena.

Para quem passa pela feira, a cena pode parecer inusitada. As religiosas conversam com os visitantes, apresentam os produtos e explicam o significado de cada peça.
Foi justamente em meio a essa rotina que surgiu a pergunta que chamou atenção durante a reportagem: afinal, freira pode sair à noite? A resposta da irmã foi simples e bem-humorada: pode.
A brincadeira acabou revelando algo que vai além da curiosidade. As religiosas também circulam pela cidade, trabalham, participam de feiras e mantêm contato direto com a comunidade enquanto buscam recursos para realizar o projeto do convento.
Uma rotina diferente do imaginário
A imagem de freiras costuma estar associada ao silêncio, à vida dentro do convento e às atividades religiosas. Mas a rotina de Maria Madalena mostra uma realidade que também envolve trabalho, produção artesanal, vendas e contato diário com pessoas fora da comunidade religiosa, e é justamente esse contato que permite que o projeto avance.
Cada terço vendido e cada imagem pintada representa uma pequena parte do esforço para transformar o sonho da construção do convento em realidade.
Enquanto respondia às perguntas na feira, Maria Madalena aproveitava para fazer um convite aos visitantes: conhecer o trabalho, ajudar na iniciativa e levar para casa uma peça produzida pelas próprias religiosas.
No fim, a pergunta sobre se freira pode sair à noite acabou servindo para mostrar que, por trás do hábito religioso, existe uma rotina de trabalho e uma história de dedicação que pouca gente conhece.