Laço de amor é tão forte que prima emprestou útero para gerar bebê

Com uma doença autoimune, Isabela foi aconselhada a não ter gestações, mas a prima dela, Mariellen, não pensou duas vezes em emprestar seu útero para ela e até celebrar o casamento dos noivos

A médica Isabela Anjos, 31 anos, e o empresário Luiz Felipe Mezzalina, 30 anos, estão juntos há uma década e decidiram selar a união com uma festa de casamento, no último fim de semana em Campo Grande.

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Isabela, Mariellen e Mateus na barriga da prima (Foto: Casa Fotografias)

Repleta de emoção, a cerimônia teve um detalhe especial: os noivos vivem a felicidade da espera do primeiro filho, no quinto mês de gestação. Só que o bebê, que vai se chamar Mateus, entrou no altar na barriga da madrinha de casamento Mariellen. A funcionária pública, de 36 anos, decidiu doar seu útero para que a prima pudesse realizar o sonho da maternidade.

Para entender essa história de amor e altruísmo é preciso resgatar alguns capítulos, nem sempre felizes, nas memórias da família Anjos. Em 2019, a irmã de Isabela, Taís Mara, morreu aos 31 anos após complicações da colangite biliar primária.

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Isabela e Luiz Felipe casaram no último fim de semana (Foto: Casa Fotografias)

Essa doença autoimune hepática se caracteriza pela inflamação e destruição progressiva dos ductos biliares e pode evoluir para cirrose. No ano seguinte, o pai delas, seo Adelcio, de 57 anos, não resistiu à mesma patologia. Ambos fizeram o transplante de fígado.

Em meio ao luto de perder quem tanto amava, Isabela descobriu que também tem a colangite biliar. Uma gravidez pode despertar a fase aguda da doença, tão fatal em sua família.

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Os quatro juntinhos no casamento (Foto: Casa Fotografias)

A decisão

Quando recebeu essa notícia, o casal, que sempre quis ter filhos, precisou mudar os planos.

“Meu sonho sempre foi ser pai, eu sou apaixonado por criança, mas eu amo tanto a minha esposa que eu não quero arriscar. E eu pensei comigo, tem tantas outras opções de ser pai, não necessariamente precisa ser pai de sangue. A gente pode adotar”, relembra Luiz Felipe.

O casal, então, começou a fazer o curso para realizar a adoção e ao mesmo tempo pesquisar outras formas de ter um filho, entre elas o útero de substituição ou barriga solidária. Foi quando em um jantar em família ele comentou sobre essa possibilidade com a prima Mariellen.

“A conversa estendeu e foram a outros assuntos e quando terminou eu falei, por que eu não poderia gerar esse filho para vocês? Aí ele arregalou o olho assim, assustado, né? Eu não tive problema nas minhas gestações e a parte mais difícil vai ficar com vocês”, brincou Mariellen.

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Mariellen e a prima Taís (Foto: Arquivo pessoal)

Foram dias, até que a decisão fosse tomada em definitivo. Primeiro, Mariellen conversou com marido, o engenheiro Diego Della Senta, 36 anos, com quem tem dois filhos, de 11 e 5 anos. Juntos eles analisaram os riscos, como a idade, as questões religiosas e todas as dificuldades para o organismo que uma gestação implica.

“Pensei muito na questão da idade, próximo dos 40, né? Eu sou católica também, a Igreja, ela não aceita esse tipo de procedimento. Mas eu falei, eu não estou cometendo crime nenhum, eu estou doando a minha vida para uma pessoa que é a minha vida, sempre foi minha vida, e tem toda a história por trás da Taís também”, explica Mariellen, muito emocionada.

Isabela precisou de um tempo para aceitar a doação da prima.

“Sempre foi um sonho meu e do Felipe , a gente falava que ia ter quatro filhos e tudo mais. Mas eu, como a mãe do Mateus, era a pessoa que olhava e falava, não Mari, não. Porque é uma gravidez. É um risco, você tem sua família linda, vamos estudar melhor, vamos ver as possibilidades, ver como funciona. E aí as coisas foram acontecendo. Nunca existiu um pedido, sempre foi, literalmente, amor e doação”.

Isabela Anjos, médica

Útero de substituição

No Brasil, o útero de substituição segue algumas determinações elaboradas pelo Conselho Federal de Medicina. A mãe que faz a doação precisa ter um parentesco de até quarto grau com um dos genitores. Mãe, irmã, avó, tia, sobrinha ou uma prima, como a Mariellen. É um ato altruísta e de amor.

“Eu acho que é o maior gesto, né, de amor que a gente pode conhecer, porque é muito afeto, é muito hormônio, muita emoção envolvida numa gestação. Mas eu falo, que essa criança vai ser privilegiada, porque existe uma sintonia entre os quatro tão grande que a gente fica até impressionado”, diz o médico ginecologista Rui Malta, que fez todo o processo de útero de substituição para Isabela e Luiz Felipe.

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A família toda (Foto: Casa Fotografias)

Segundo ele, foram seguidos todos os trâmites legais e também psicológicos para os dois casais.
A barriga solidária não é tão comum, mas pode ajudar mulheres que por alguma condição não podem ter uma gestação.

“Pacientes, por exemplo, que tiveram que retirar o útero por algum motivo. Às vezes o tratamento de um câncer, ou com uma anomalia uterina e nesses casos a correção cirúrgica é algo muito difícil”, explicou o médico.

Isabela compartilhou todo o processo para a gestação do filho em suas redes sociais. O embrião, implantado em Mariellen, foi formado em laboratório com óvulo e espermatozoide dos pais.

“A Isabela recebeu alguns medicamentos que estimularam os ovários a produzir óvulos, a gente captou esses óvulos. No mesmo dia que foi feita essa captação, fizemos a junção do espermatozoide, e aí formaram os embriões. A próxima etapa foi o preparo do útero da Mariellen. A gente foi monitorizando pra poder fazer a transferência do embrião, que nesse caso foi único”, detalha Malta.

O parto de Mateus está previsto para maio. Enquanto isso, a família vive essa gravidez tão especial. Mariellen, diz que apesar da intimidade de carregar o bebê no ventre, em momento algum ela se confunde no sentimento.

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Adelcio, Isabela, Taís, que faleceu em decorrência da doença, e a mãe das duas Maria Nilva (Foto: Arquivo Pessoal)

“Quando o bebê chuta é automático, eu digo: calma tia, calma prima. Nossa Mateus, eu vou falar para os seus pais que você tá muito arteiro hoje!.

Apesar da curiosidade das pessoas em relação à gestação, Isabela, Mariellen, Luiz Felipe e Diego sabem que no futuro, o jeito como Mateus chegou ao mundo vai ser mais uma história de amor nas lembranças da família Anjos.

“Eu quero que o Mateus saiba que ele veio da prima doida. Eu tenho certeza que eles vão comentar o tempo todo. E ele vai falar: oh, a prima que me carregou no forninho dela”. Isabela confirma.

“Em relação ao futuro muitas pessoas me perguntam: o Mateus não vai ter muito vínculo com a Mari.? Eu sempre respondo: amor nunca é demais.”

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Comentários (2)

  • Wictor Teixeira

    Que história linda *-*

  • Wictor Teixeira

    Que história linda *–*