Longe da família por meses, artistas cruzam o Brasil para manter viva a tradição gaúcha

Histórias de infância, saudade e dedicação unem integrantes do grupo Herdeiros Farroupilha, que transformaram a cultura gaúcha em missão de vida

Enquanto o público aplaude cada apresentação, poucos imaginam o que acontece quando as luzes do palco se apagam. Para os integrantes do grupo Herdeiros Farroupilha, a rotina é marcada por quilômetros de estrada, despedidas frequentes e a saudade de quem ficou em casa. É o preço que eles aceitam pagar para manter viva uma tradição passada de geração em geração.

Grupo Herdeiros Farroupilha durante apresentação em Campo Grande. (Vídeo: Augusto Castro)

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Tradição gaúcha

Na Fenasul, realizada em Campo Grande, os artistas trouxeram muito mais do que danças típicas e música gaúcha. Cada apresentação carrega histórias de infância, de famílias inteiras dedicadas ao tradicionalismo e de um amor que atravessa décadas.

A bailarina Micheli Alves, de 48 anos, praticamente nasceu dentro desse universo. Filha de um gaiteiro que acompanhava grupos de dança pelo Rio Grande do Sul, ela começou a frequentar ensaios ainda bebê e entrou para um grupo aos cinco anos de idade, quando substituiu uma dançarina que havia faltado, e desde então, não saiu mais dos palcos.

Micheli Alves junto ao pai, tetra-campeão de gaita, no Rio Grande do Sul. (Foto: Arquivo Pessoal)
Micheli Alves junto ao pai, tetra-campeão de gaita, no Rio Grande do Sul. (Foto: Arquivo Pessoal)

Ao longo de 35 anos de carreira profissional, participou de alguns dos principais grupos folclóricos do Rio Grande do Sul e percorreu o Brasil levando a cultura gaúcha. Mas nem sempre foi possível conciliar a paixão com a vida pessoal.

Quando a filha nasceu, Micheli decidiu interromper as viagens por cerca de sete anos para acompanhar o crescimento da menina, e apenas em 2024 voltou à estrada. Hoje, aos 17 anos, a filha entende a escolha da mãe, mas a saudade continua fazendo parte da rotina.

“Chegamos a ficar três, quatro meses fora. A saudade bate muito. Ainda bem que hoje existe chamada de vídeo. A gente conversa várias vezes por dia e isso ajuda a diminuir a distância”, conta.

Mesmo longe de casa, ela diz que o carinho recebido em cada cidade faz tudo valer a pena: “O nosso maior pagamento é a amizade e o carinho das pessoas. Isso compensa a ausência da família”.

Na estrada

Quem também encontrou na tradição um propósito de vida foi o músico César Machado, de 39 anos. Natural de Bagé e morador de Porto Alegre, ele entrou no grupo Herdeiros Farroupilha em 2019. Embora acompanhasse o universo tradicionalista desde criança, foi somente quando surgiu a oportunidade de integrar o grupo como músico que decidiu seguir esse caminho.

Desde então, a estrada virou parte da rotina, e César diz que ama o que faz: “Viajar, tocar e viver isso é uma coisa que a gente ama. A gente se sente completo”.

Marco Aurélio Santos, 56 anos, é filho do coreógrafo Alfeu Rodrigues dos Santos, um dos nomes mais respeitados do folclore gaúcho. Começou a sapatear aos 10 anos, ao lado do pai. Hoje é dançarino, sapateador e bolador do grupo.

Edjane Silva dedica a vida ao tradicionalismo desde os cinco anos de idade. (Foto: Augusto Castro)
Edjane Silva dedica a vida ao tradicionalismo desde os cinco anos de idade. (Foto: Augusto Castro)

Desde criança

Entre os integrantes está Edjane Silva, que dedica a vida ao tradicionalismo desde os cinco anos de idade. Filho de um ex-patrão de Centro de Tradições Gaúchas (CTG) em Porto Alegre, ele conta que se apaixonou pela dança ao assistir apresentações de chula ainda na infância. A estreia veio cedo, durante uma domingueira do centro de tradições, e, desde então, nunca mais deixou os palcos.

Trabalhando profissionalmente há mais de três décadas, construiu carreira em churrascarias, eventos e espetáculos no Brasil e na Europa, onde viveu por 17 anos e formou família. Hoje, mesmo convivendo com a distância dos filhos que permanecem na Espanha, segue viajando pelo país para preservar a cultura gaúcha: “A saudade existe, mas a gente aprende a conviver. O que nos move é o amor pelo que fazemos”, resume.

Edjane Silva, Marco Aurélio Santos, Micheli Alves e César Machado. (Foto: Augusto Castro)
Edjane Silva, Marco Aurélio Santos, Micheli Alves e César Machado. (Foto: Augusto Castro)

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