Mau humor e pessimismo podem ser sintomas de algo maior; entenda a distimia
A vida costuma ser mais difícil para alguns e não estamos falando de dinheiro, mas de saúde mental. Não é consenso na comunidade psiquiátrica como surge a distimia, um processo crônico depressivo que rouba a vida de jovens em silêncio.
Imagine viver em um estado de constante descontentamento, seja com o ambiente ou com as pessoas. O que mais percebe são os defeitos do outro ou, pior, sente que não é querido ou que é deixado de lado.
A vida costuma ser mais difícil para alguns, e não estamos falando de dinheiro, mas de saúde mental. Não é consenso na comunidade psiquiátrica que a distimia pode ser um diagnóstico isolado. O que se sabe é que se trata de um processo crônico depressivo que, silenciosamente, rouba a vida de jovens.

Diferentemente da depressão, que tem sintomas mais nítidos, como a tristeza ou a falta de desejo até de tomar banho, o distímico tem uma vida mais funcional. Ele trabalha, estuda, namora, porém os problemas de relacionamento são constantes. O quadro é caracterizado, basicamente, por cansaço, fadiga, baixa autoestima, indecisão, pessimismo exagerado, falta de empatia, com pouco ou quase nenhum desejo de agradar o outro, impaciência e comportamentos característicos de “uma pessoa difícil”.
Dentro do escopo, percebe-se que mulheres são mais afetadas. Os sintomas aparecem antes dos 25 anos e se misturam com a TPM (Tensão Pré-Menstrual). Sem tratamento, pode evoluir.
A distimia, ou Transtorno Depressivo Persistente, se confunde com a própria personalidade. Muitas vezes, a pessoa é vista como cricri, ranzinza ou sistemática. Não tem cura e fatores hereditários estão entre as possíveis causas. Mesmo assim, é possível viver melhor, sorrir e passar a ver o mundo com outros olhos.
Sintomas de algo maior
Considerado uma autoridade em psiquiatria forense no Brasil, Guido Palomba tem mais de 15 mil laudos e pareceres emitidos, como o perfil psicológico de Francisco de Assis Pereira, serial killer que ficou nacionalmente conhecido como o Maníaco do Parque, e análise de personalidades criminais, como Elize Matsunaga e Suzane Von Richtoffen.

Apesar de ter experiência na análise de mentes criminosas, Dr. Guido falou ao Primeira Página sobre os danos causados pela distimia que, para ele, não pode ter um diagnóstico isolado, mas sim ser sintoma de algo maior e que precisa ser investigado.
“Distimia não é diagnóstico, é uma manifestação, um sintoma. Se ela não estiver em um conjunto com outras manifestações, por si só, não é uma doença. A distimia existe em várias patologias, assim como a febre, a tosse, que pode ser tuberculose ou um simples resfriado. É um sintoma que pode se manifestar em várias pessoas com disfunções psiquiátricas, como neuróticos, psicóticos etc’”.
Para ele, todos temos transtornos do humor. Não é pelo fato de ficar três dias mal-humorado ou ficar mais tempo deprimido, que já é fechado um diagnóstico. Ele só deve ser dado quando esse tipo de comportamento não tem uma causa aparente. Aí, sim, é uma doença.
Estar sem dinheiro, com muitas dívidas, ou ter brigado com alguém que se ama e estar triste ou irritado por isso, não torna alguém distímico, conforme Palomba.
“O doente mental verdadeiro não se acha doente e tem um nome pra isso: anosognosia. Ele desconhece o próprio mal. Não podemos misturar a distimia com doenças mentais de quadros clínicos característicos”.
Assista o vídeo abaixo:
O mau humor que não passa
Autor da coluna Saúde Mental no Primeira Página, o médico Marcos Estêvão é especialista em psiquiatria e psiquiatria forense pela Associação Brasileira de Psiquiatria e Associação Médica Brasileira. Escritor, autor de sete livros, participa de mais de 10 coletâneas literárias em Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Salvador.
Para ele, a distimia é um tipo de depressão, mais longa e menos severa. A pessoa começa a se perceber mais amarga e mais irritada, que vê as coisas sempre pelo lado negativo. O sentimento de valorização da vida é menor.
No vídeo abaixo, o psiquiatra elenca os sintomas:
“O distímico tende a se isolar, não querer participar de festas, momentos bons ou, se vai, vê apenas o lado negativo dos momentos, por exemplo, fazendo críticas. É aquela pessoa considerada antipática, acha que a comida está ruim ou as músicas e até as pessoas. É uma constante sensação de negativismo”.
Esse transtorno não tem cura, tem controle, que depende de um acompanhamento integrado com terapia e psiquiatria. O tratamento pode melhorar muito os sintomas, como o desenvolvimento da empatia. “(…) porque pra ela é muito difícil se colocar no lugar do outro. O lugar dela é muito ruim e, por isso, não consegue sofrer pelo outro, porque já sofre por si própria. Mas é possível levar uma vida normal, ou perto disso”, completa o psiquiatra.
Não quero ir
Maria (nome fictício) sentiu que havia algo errado com ela ainda na adolescência. Por volta dos 13 anos, sentia-se o patinho feio da escola, em casa era tida como sistemática e tímida, e sua autoestima era baixa. A vida social sempre foi alvo de questionamentos, tristezas e angustias. Preferia não se enturmar de verdade e adotar uma perspectiva que ela intitulava como um “jeito realista de ver a vida”, mas na verdade fazia parte do seu pessimismo exagerado.
Só depois de alguns anos, após o olhar atento e cuidadoso de uma professora, os pais foram alertados que aquele comportamento destoava do que se esperava para ela naquela idade. Os pais que já vinham presenciando muitos episódios de raiva e irritabilidade decidiram buscar ajuda.
Após o diagnostico confirmado, medicada e com terapia em curso, a mãe de Maria afirma: “Muitas vezes não queremos ver o que está bem embaixo dos nossos olhos. Os choros destemperados dela, as constantes irritações foram classificadas por nos como fases da adolescência, coisa normal sabe”.
De acordo com a psicóloga Cristiana Bezerra, assim como Maria, muitos pacientes receberam o diagnóstico de distimia após décadas convivendo com os sintomas.

“O recomendado é procurar atendimento com psicólogos e psiquiatras, que avaliarão o caso e poderão determinar a linha terapêutica correta, que pode ser feita com medicamentos ou somente psicoterapia a depender do estágio e gravidade do quadro. A evolução do transtorno precisa ser observada de forma contínua, podendo durar meses ou anos”, disse Cristiana.
O que explica o comportamento
Os psiquiatras Guido Palomba e Marcos Estêvão concordam: hereditariedade é o ponto chave. Traumas de infância podem influenciar na severidade do quadro. No entanto, conforme eles, quase todos os transtornos mentais têm alto grau de hereditariedade.
“É difícil falar em depressão e não ter algum caso na família, assim como outros transtornos como: bipolaridade, ansiedade ou esquizofrenia”, atestam os profissionais.
“Sem tratamento, há um grande risco de abuso de álcool e drogas. O pensamento de morte existe também, de pensar que não há motivos para viver, que não pediu para nascer. O distímico ‘namora’ a morte, mas não costuma ter pensamentos suicidas como na depressão”.
Caso apresente os sintomas abaixo, sem que tenha alguma razão aparente, procure ajuda médica:
- irritabilidade
- mau humor
- difícil relacionamento
- dá respostas hostis
- falta de paciência
- baixa tolerância às frustrações
- isolamento frequente
- auto depreciação
- negativismo
O importante é ter um acompanhamento de saúde mental para que a pessoa que sofre de distimia consiga melhorar sua qualidade de vida e suas relações interpessoais.
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