Mulher trans e professora, Ravena fez da sala de aula seu espaço na sociedade

A representatividade que Ravena Luz buscava durante sua trajetória como mulher trans, hoje parte dela!

Para Ravena Luz, professora varzea-grandense, ser mulher tem seus desafios sociais, particulares, diários. Transexual, ela encarou o preconceito e a limitação imposta diversas vezes ao longo do caminho. Mas hoje as lutas de sua trajetória podem ser contadas com alívio e, neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, ela relembra momento em que deixou a cidade onde vivia para conseguir se formar na faculdade e ter um emprego, sem precisar esconder quem sempre foi.

Ravena Luz, de 29 anos, contou ao Primeira Página sobre os desafios de sua trajetória como mulher transexual.

Um lugar na sociedade

“Ser mulher já é um desafio, mas ser ‘trans’ na nossa sociedade é um desafio dobrado!” disse Ravena em entrevista ao Primeira Página.

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Ravena veio de Goiânia para tentar cursar uma faculdade em Várzea Grande. (Foto: Arquivo Pessoal).

Se esforçar mais que as outras pessoas, ter que provar constantemente que é capaz ou merecedora de receber um cargo profissional, uma conquista, um lugar na sociedade, ou até mesmo um nome.

A luta das mulheres transexuais tem vários adversários, como explica a professora de 29 anos.

Após ter lidado com o preconceito e a falta de oportunidades em Goiânia – cidade onde morava, Ravena estava à beira de uma depressão e, em 2016, viu na faculdade de Letras, em Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá, uma luz naquele caminho.

“Eu cheguei a passar muitos currículos, eu cheguei a ver meu currículo dentro de um envelope descartado em uma lixeira… assim que entreguei na loja eu saí e voltei pra pegar mais uma informação e vi meu currículo jogado na lixeira. Foi muito desgastante e doloroso pra mim. Existem poucos espaços de trabalho paras as pessoas trans”, contou.

Hoje, professora de inglês, Luz teve que deixar a cidade onde morava por falta de oportunidades profissionais. (Foto: Arquivo Pessoal).
Hoje, professora de inglês, Luz teve que deixar a cidade onde morava por falta de oportunidades profissionais. (Foto: Arquivo Pessoal).

Porém, a luta não acabava ali. É que no fundo ela ainda sabia da necessidade de ter que se esforçar o dobro para provar que era capaz de realizar o sonho de lecionar, pois até estar cursando o ensino superior era um privilégio para ela, integrante da comunidade de transexuais no Brasil.

Uma pesquisa da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior), realizada em 2018, mostrou que apenas 0,1% de todas as matrículas no ensino superior público eram de pessoas trans.

Ravena Luz fala sobre sua conquista profissional sendo mulher trans. (Vídeo: Primeira Página).

Nesse trajeto de uma luta feminina, Ravena teve o apoio de outra mulher: Lenice Luz, a mãe. Segundo ela, foi a figura materna que não deixou que ela se abalasse ainda mais e perdesse as forças para continuar.

“Ela falou ‘não vou deixar você ficar assim, quero que faça alguma coisa, vai fazer um curso’. Mas eu já tinha sido frustrada no curso de design de moda que era o sonho da minha vida, pensei que não iria conseguir fazer outro também por causa do preconceito”, contou Ravena.

Foi então que Lenice foi até a faculdade em Várzea Grande e fez a inscrição da filha. Era um ato de coragem, vindo de dentro da família, que daria esperança para a filha enfrentar o mundo lá fora.

Ravena Luz, de 29 anos, é professora de inglês em Cuiabá. (Foto: Arquivo Pessoal).
Ravena Luz, de 29 anos, é professora de inglês em Cuiabá. (Foto: Arquivo Pessoal).

Hoje, já formada, Luz é professora de língua inglesa para turmas do ensino fundamental em uma escola da Capital, uma conquista que, para ela, foi difícil e merece reconhecimento. O lado bom nessa história, como ela conta, foi a sorte do apoio familiar, que fez crescer nela a força para ocupar seu espaço na sociedade: a sala de aula.

“A primeira vez que eu fui vista como ser humano, fora da família, foi na faculdade. Me reencontrei, me coloquei de volta no caminho! Foi a melhor fase da minha vida e de lá para cá foi outra realidade, como se eu tivesse vivido duas vidas”, desabafou.

Representatividade

Imagine ser considerada doente mental por se sentir feminina? Essa é a realidade encarada por muitas mulheres transexuais. A OMS (Organização Mundial da Saúde) deixou de considerar, há cinco anos, a transexualidade como um transtorno mental.

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Há cinco anos, a transexualidade deixou de ser considerada um transtorno mental pela OMS. (Foto: Arquivo Pessoal).

Na época em que iniciou sua transição de gênero, Ravena tinha poucos ou quase nenhum espelho para se enxergar, para entender que a mudança que tanto precisava era possível e que possuía meios para ser feita.

Em uma sociedade que ainda mata pessoas trans, ela passou pela transição sozinha, construindo sua identidade feminina diante de um laudo imposto socialmente: o de pessoa transtornada.

A professora cuiabana fala sobre a importância de referências ao longo da transição de gênero. (Vídeo: Primeira Página).

A representatividade que Luz buscava antes, hoje parte dela! Durante a fase de estágio da faculdade, ela percebeu que atuar como professora era mais do que a realização de um sonho, era um caminho para mudar a realidade.

Ravena encontrou na sala de aula seu espaço na sociedade. (Foto: Arquivo Pessoal).
Ravena encontrou na sala de aula seu espaço na sociedade. (Foto: Arquivo Pessoal).

“Uma boa educação forma bons cidadãos, a gente consegue moldar a sociedade com educação. E os valores sociais são tão regrados, é quase impossível falar sobre outras possibilidades na nossa vida. Se eu tivesse tido uma professora trans eu teria evitado algumas dificuldades que eu enfrentei”, disse.

Ravena criou sua história e, assim como as primeiras mulheres revolucionárias que abriram espaço para as que podem ter voz hoje, ela respondeu à sociedade preconceituosa e machista fazendo diferente e melhor!

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