Na Páscoa o milagre é divino e o lúdico... sobrecarga materna

Nossos filhos não precisam de uma mãe que faça tudo perfeitamente. Precisam de uma mãe que consiga estar inteira no que escolhe e consegue fazer.

Ok, ok. Não vamos entrar na questão da religiosidade das datas. Quando pais são ligados à religião, geralmente o esforço para manter a crença, cristã neste caso, vem de ambos porque fé é assunto que rege outras coisas.

Vamos aqui conversar sobre quem mantém, no braço, a magia dos ritos na infância: as mães. E peço licença para deixar de lado a versão açucarada do papel materno em sustentar o imaginário do Coelhinho da Páscoa, do Papai Noel, da Fada do Dente e por aí vai.

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Mãe cansada tentando criar a Páscoa de magia as filhos (Foto: Imagem gerada por IA)

Falemos do quanto cabe às mulheres a manutenção das tradições. Esse trabalho invisível que deveria ser coletivo, mas que acaba quase sempre no nosso checklist mental. É a logística de esconder ovos de chocolate às onze da noite, torcendo para não pisar em um brinquedo barulhento e acordar a casa inteira; é o planejamento dos presentes, o enfeite da casa, a cenografia do encantamento.

Aliás, saindo um pouco do mundo das crianças: em quase todas as celebrações, as mulheres ficam com a engenharia das ceias e a gestão do caos, enquanto, quase de praxe, os homens sentam para beber, ver futebol ou debater política na santa paz do feriado.

O fato é que, se a mãe não assume esse posto, lá vem a culpa pesar as costas. Como é o meu caso. Embora eu me lembre de como me fazia falta esse tipo de coisa quando criança, agora, no papel de mãe, entendo completamente a minha.

Lá em casa nunca teve decoração de Natal ou pegada de talco no chão. Minha mãe trabalhava demais para dar conta do básico. Era jornada tripla e, para fechar o combo, chocando um total de zero pessoas para aquela época, um casamento sem participação masculina no braçal do dia a dia. Ela precisou priorizar o prato na mesa em vez da fantasia. Apesar de a minha situação hoje não ser exatamente a mesma, sinto uma dificuldade enorme em aplicar o lúdico por aqui. Para além do cansaço, confesso: não sou entusiasta da performance.

Mas o mundo lá fora exige. O caminho das pegadas, a fantasia impecável do Dia do Circo, a beca caipira da festa junina, o presente “surpresa”, o cabelo maluco na escola… Tudo entra na conta do cuidado materno. E, se você não for “dessas”, a culpa bate forte. Em tempos de redes sociais, é difícil competir com a blogueira mãe de cinco que ofereceu ao coelhinho uma cenoura orgânica regada com o primeiro orvalho do último dia de fevereiro de um ano bissexto. Percebam aqui a minha ironia aquariana.

A pergunta de milhões não é por que não damos conta de tudo isso, mas sim, em que momento decidiram que dar conta de tudo isso era nossa responsabilidade exclusiva?

Existe uma expectativa silenciosa de que a mãe não apenas cuide, mas encante. Que não apenas esteja presente, mas crie memórias dignas de um reels vendável aos olhos da sociedade. Só que, misturado ao corre diário, isso raramente é leve. Muitas vezes, sequer genuíno. É apenas mais uma tarefa em uma lista que já estava transbordando de coisas que inevitavelmente vão ficar pelo caminho.

Há mães que amam esse universo e há também as que não se reconhecem nele. A régua que vai medir quão boas elas são não é a mesma.

E, cá entre em nós, se o espírito das datas é o compartilhamento, tem coisa melhor do que fazer coletivamente? Prezar a união, reforçar os laços?

Bem, talvez o que a gente precise não seja sustentar todas as tradições, mas escolher quais fazem sentido dentro da nossa realidade e, principalmente, de quem somos.

Porque presença não precisa de produção.

E afeto não precisa de passo a passo.

Óbvio que é lindo ver o brilho nos olhinhos dos nossos pequenos e eles merecem cada grama de chocolate. Só que essa peteca (nossa, entreguei minha idade) não precisa estar sempre lá em cima. Há dias e dias, datas e datas, épocas em que a gente não está na vibe.

Nossos filhos não precisam de uma mãe que faça tudo perfeitamente. Precisam de uma mãe que consiga estar inteira no que escolhe e consegue fazer.

Porque, no fim, talvez o mais difícil não seja criar a magia, mas se libertar da ideia de que ela só existe de um único jeito.

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Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista E eu nem queria ser mãe, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.