Sobre derrubar a porta e virar a "herona" dos filhos

É ali, no meio do caos cotidiano, que moram as memórias que eles vão levar.

“Mãe, você é uma super-herona!”. A frase veio dessas que chegam despretensiosas, quase como quem não quer nada, mas ficam. E ecoam.

super herona
(Imagem criada por IA)

Caetaninho tinha pouco mais de dois anos quando se trancou no banheiro de casa. Era fim de dezembro, estávamos nos arrumando para um churrasco de amigos, uma despedida de 2023. Na correria típica desses momentos, não percebemos quando ele entrou sozinho e girou a chave.

O silêncio durou segundos. Logo veio o chororô alto, aflito, desesperado.

Tentei orientá-lo do lado de fora: “vira a chave, filho, gira a chave”.

Mas, do outro lado, só havia choro balciado e um “mamamamae” cada vez mais angustiado. Não havia espaço para muita racionalidade ali. Foi instinto.

Comecei a bater na porta com o ombro.

O batente, já velho, cedeu sem exigir força heroica, embora, naquele momento, aos olhos dos pequenos, tenha parecido um feito digno de cinema. A porta abriu. O choro cessou. E eu só fiz o que qualquer mãe faria: juntei os cacos, peguei ele no colo e segui o dia.

Fomos para a festa. A história virou mais uma daquelas aventuras maternas contadas entre risadas na roda de amigos (talvez uma daquelas que seja meio que anticoncepcional aos ouvidos de quem ainda não os têm).

O batente da porta ficou lá, estragado por meses e, confesso, até hoje não está exatamente como deveria.

Mas o tempo passou e, como tantas outras coisas na maternidade, esse episódio foi sendo soterrado pela rotina, pelo cansaço, pela quantidade infinita de pequenos incêndios que a gente apaga todos os dias.

Até que, numa noite dessas, antes de dormir, Maria Cecília, minha mais velha, soltou:

“Mamãe, você lembra quando foi nossa super-herona?”

Demorei um segundo para entender. Perguntei: “como assim?”. E ela, com a naturalidade de quem revive uma cena épica, contou a história do banheiro. Disse que eu derrubei a porta como a Mulher-Maravilha.

Maria ainda não sabe que o correto seria “super-heroína”, não “herona”. Mas, também sem saber, acertou em cheio no que realmente importa.

Porque, aos olhos deles, enquanto ainda não foram atravessados pelas camadas mais duras da vida adulta, nós somos isso: quem salva o dia.

E não nos grandes gestos, mas justamente nos pequenos. Nos improvisos. Nos sustos. Nos prejuízos inesperados de uma porta quebrada em pleno 23 de dezembro.

É ali, no meio do caos cotidiano, que moram as memórias que eles vão levar.

Assim como nós levamos as nossas.

Porque, quando éramos crianças, também não fazíamos ideia do que significava equilibrar contas, responsabilidades, cansaço. Ainda assim, víamos nossos pais como os mais incríveis do mundo, na inocência de quem não tem dimensão de que ser mãe/pai é estar muitas vezes perdido em preocupações.

Só agora, na pele dos responsáveis da casa é que sabemos do quão difícil é cumprir esse papel que, mais que heroico, beira o sobre-humano.

E, mesmo hoje, sem o romantismo que eu mesma insisto em questionar… quem disse que eles não eram?

Nossos eternos super-heronos.

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Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista E eu nem queria ser mãe, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.