O dia em que o racismo jogou futebol na minha sala

Da agressividade da futebolada de bairro à fala que me paralisou no tapete de casa: por que precisamos parar de normalizar o preconceito na infância.

Era um dia qualquer da semana. Naquela rua, cenário típico de bairro, dava para ouvir a gritaria majoritariamente masculina. Não de homens, de meninos. Uma meia dúzia deles. Um pouco mais. Entre 8 e 12, 13 anos, jogavam bola euforicamente. Animação esta talvez engajada pela Copa do Mundo que ainda rolava.

Menino jogando futebol na sala
Menino jogando futebol na sala de casa (Imagem criada por IA)

Férias, longe das telas, gurizada elétrica. Deveria ser um cenário 100% bom, mas o que se ouvia, entre um palavrão e outro, era o reflexo do que o esporte másculo faz questão de ressaltar: “larga de ser mulherzinha” e “vem aqui, seu veado”.

Rolou um “você chuta como mulher”, mas este vou até desconsiderar porque definitivamente o menino não chutava como uma mulher. Quisera ele chegar aos pés da Marta, jogadora eleita seis vezes a melhor do mundo.

O que mais me chamou a atenção não foi o fato de praticamente crianças estarem falando coisas tão pesadas, mas a normalização disso. Embora estivessem sozinhos, volta e meia perambulava um adulto por ali e em momento algum houve repreensão daquelas falas.

Acho que a maioria segue o “isso é coisa de garoto”.

E são justamente essas “coisas de garoto” que pavimentam o caminho de meninos que vão se tornar homens que acham normal ser machista, homofóbico, preconceituoso.

Também acredito que muitos pais e responsáveis não sabem como se comportam os filhos quando estão longe. É natural da idade se soltar quando se está em grupo. Mais ainda querer pertencer a ele, nem que para isso seja preciso reproduzir o que a maioria diz, em campo ou fora dele.

Digo isso porque também fui atingida. Claro, sou uma mulher, mas não me refiro agora às palavras que geralmente são ditas no esporte para rebaixar mulheres.

Bola na rua de terra
Bola na terra (Foto: reprodução/Isabely melo)

Algo aconteceu debaixo do meu teto.

Meu filho, que sequer completou cinco anos, reproduziu algo que muito provavelmente ouviu longe de mim ou do pai.

Estávamos no sofá da sala assistindo a alguma partida da Copa. Ele brincava sozinho no chão. Com uma bola nos pés, simulava jogo. Conversava com um adversário imaginário quando solta a frase “vaza daqui, seu preto”.

Na hora gelei. Imediatamente pedi para ele repetir o que tinha dito. Não me alterei, porque queria ter certeza do que havia ouvido. Ele titubeou. Percebeu que algo não estava certo. Depois de alguma insistência, repetiu. E era aquilo mesmo. Procurei não perder a calma. Perguntei o que aquilo significava para ele.

“Não sei, mamãe”.

Caetano estava sério. O pai e eu começamos a explicar a gravidade do que ele havia dito. Foi a primeira vez que passamos por algo parecido com nossos filhos. Falamos que, muito mais do que uma ofensa, racismo no nosso país é crime.

Tentamos de forma mais didática explicar que não devíamos pensar daquela maneira, não pelo risco de ser preso, mas, antes de tudo, porque se trata de uma imbecilidade. Ignorância. Vergonha.

Não nos alteramos. Não mudamos o tom. Mas Caetano nos abraçou e chorou, se desculpando. Eu sei que ele é só um menininho que daqui a dois meses completa seus cinco anos. Só que senti ali, mais uma vez, o desafio enorme que é e será criar um cara que seja consciente.

O mundo em que nossos meninos estão inseridos ainda é esse. Precisam provar desde pequenos que “são homens” e para isso reproduzem comportamentos inadequados que por muito tempo foram vistos como viris.

Isso fica ainda mais claro quando a discrepância ressoa nas meninas. Pense bem: como reagiria a sociedade diante de uma rua cheia de meninas, sozinhas, gritando palavrões e aquelas frases que citei acima?

Praticamente impensável, né? Daí também nasce o conceito de que mulher precisa se resguardar enquanto homens podem ser expansivos ao mais puro estilo “prenda sua ovelha porque meu lobo está solto”.

Kylian Mbappé, jogador da França pela Copa do Mundo 2026
Mbappé na Copa do Mundo 2026. (Foto: Fifa)

Outro fator que joga luz sobre o assunto é a própria Copa. De acordo com dados do Serviço de Proteção das Redes Sociais da Fifa, houve registro de mais de 89 mil postagens ofensivas somente na fase de grupos, um aumento expressivo em relação às edições anteriores.

E o abuso com motivações raciais representou 11% de todas elas.

O cenário não é diferente dentro e fora de campo na Copa do Mundo. Vimos desde a aplicação da chamada ‘Lei Vini Jr.’,criada justamente para impedir que jogadores cubram a boca para proferir ofensas ocultas, até episódios lamentáveis de racismo extracampo, como os ataques dirigidos ao atacante francês Mbappé após a eliminação paraguaia nas oitavas de final.

O racismo estrutural segue se infiltrando no esporte em todas as suas esferas

A olhos nus, no calor do momento, este tipo de comportamento vindo de crianças e adolescentes pode parecer “inofensivo” para uma sociedade estruturada em cima de todos os tipos de preconceitos que, claro, não atingem homens brancos e heteronormativos.

Mas a longo prazo, essa realidade é a manutenção de tudo que a gente luta contra diariamente.

Embora a missão seja difícil, cabe a nós, pais, mães e responsáveis, dar outro rumo à geração dos nossos filhos, já que, a exemplo do que vemos no noticiário todos os dias, definitivamente o modelo atual não deu certo.

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Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista E eu nem queria ser mãe, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.