O eterno 7 a 1 da mãe brasileira
A sociedade diz que só seremos felizes sendo mães, mas nos cobra que honremos todos os outros compromissos como se não tivéssemos filhos
Semana passada, a jornalista Sabina Simonato se envolveu em uma polêmica ao opinar sobre as escolas que liberam mais cedo ou não têm aula quando o Brasil entra em campo. Ela foi detonada.
“Escola não é depósito de criança”, bradavam os internautas. Tanto que a apresentadora do Bom Dia SP precisou se explicar antes do término daquela mesma edição. E eu, advogada do diabo que sou quando o assunto é maternidade, obviamente venho por meio desta defender a colega de profissão.

Gente, óbvio que escola não é depósito de criança. Mas há de se convir que existe, no imaginário popular, a imagem da mãe que deixa os filhos na escola para “se livrar” da responsabilidade de cuidar deles. Não duvido que realmente haja essa parcela, pequena, de mães. Porém, contudo, no entanto, vamos olhar o coletivo? Sair da bolha?
O Brasil tem cerca de 11 milhões de mães solo, segundo dados consolidados da PNAD Contínua do IBGE, compilados pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, FGV IBRE. Elas chefiam 15% dos lares brasileiros, sendo que, dessas, 60% são mulheres negras. A maior parte dos filhos está na faixa entre 0 e 6 anos.
Dito isto, voltamos ao fio da meada, ou seja, o jogo do Brasil.
Basicamente, somente servidores públicos são liberados para ver a Seleção em campo. Quem é CLT pode, no máximo, assistir ao jogo dentro da empresa. Em um país deficitário quando o assunto é políticas públicas voltadas ao materno, a escola, infelizmente, faz as vezes da rede de apoio.
Veja bem, em momento algum aqui estou dizendo que cabe estritamente à escola criar ou educar quem quer que seja.
Neste sentido, o que fazer com a criança se eu tenho que bater ponto no trabalho em plena segunda-feira?
Ah, Jéssica, se vira, quem mandou colocar filho no mundo?
Bem, não estou falando aqui da Jéssica que, felizmente, teve rede de apoio para buscar as crianças mais cedo na escola naquele dia de Brasil x Japão. Eu me livrei do impasse eterno do “e o que eu faço com meus filhos?”. Minha irmã, que é professora diga-se de passagem, quebrou esse galhão para mim (e para o meu marido, claro, afinal os filhos são tão dele quanto meus). Aliás, sempre uma mulher para rede de apoio, né? Mas isso é tema para outra prosa.
Retomando!
E as milhares de mães que não tiveram a mesma sorte?
O episódio envolvendo a Copa do Mundo é só um fiapo da problemática. Na verdade, o dilema enfrentado pelas mulheres mães é gigante neste sentido.

A sociedade diz que só seremos felizes sendo mães, mas nos cobra que honremos todos os outros compromissos como se não tivéssemos filhos.
A escalada de trabalho, seja ela CLT ou PJ, não condiz com o calendário escolar e esbarra na ausência de soluções coletivas. Esbarra também no discurso de esticar a família o “quanto Deus quiser”. Inclusive, se o cenário de qualidade de vida para mães não esticar também, quem vai pagar o pato são as próprias crianças.
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A questão está sempre presente. Emendas de feriados, os meses de férias, os plantões de fim de semana. Até no entretenimento isso ocorre.
Não é novidade, por exemplo, que ações de serviços, que englobam desde corte de cabelo até consulta médica de graça, ofereçam “espaço kids” para que mulheres possam participar. Caso contrário, é impossível sair de casa por não ter o que fazer com os filhos.
A aldeia está vazia porque avós, tias, vizinhas, todas nós formamos uma corrente solitária de mulheres que precisam trabalhar fora, dentro e cuidar dos próprios. Sim, gente, a corrente inclui nossas professoras guerreiras, que também são mães e precisam criar os próprios filhos, não os alheios.
A pauta aqui é sobre um ecossistema.
É a lei que permite aos responsáveis apenas um dia de atestado dentre os 365 do ano para cuidar do filho doente. É a lei que oferta apenas quatro meses de licença-maternidade, obrigando a mulher a fazer malabarismo para emendar as férias e, mesmo assim, se ver obrigada a voltar ao trabalho antes mesmo de o bebê sair da exclusividade do aleitamento materno, já que a Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza seis meses de amamentação exclusiva antes da introdução alimentar, outro desafio que precisamos conciliar com o turbilhão de emoções e adaptações que é a volta ao trabalho.
Não faz o menor sentido. A conta nunca fecha.
Para além da ausência do básico de políticas públicas para mães, haja vista que sequer há número suficiente de creches para todas as crianças, existe ainda a cobrança majoritariamente em cima das mulheres.
Os pais, quando não foram comprar um cigarro e se escafederam de casa para sempre, passam imunes a este problema. Dificilmente um homem vai faltar ao serviço por não ter aula e não ter o que fazer com a criança. Aliás, mesmo os ditos pais presentes, a logística de “dar um jeito” nunca fica com eles. São as mães que correm atrás de ajuda e, de quebra, mesmo depois de resolverem, ainda carregam aquela pontinha de culpa por estarem ausentes, mesmo que essa ausência seja para trabalhar e dar sustento aos pequenos (e muitas vezes grandes).
Enfim, caras leitoras, a lista é infinita e o buraco imensamente mais embaixo. Não se trata da frase feita “escola não é depósito de crianças”, e sim de um sistema que é uma máquina de moer mães, abastecida pelo pensamento infame de que quem pariu mantenha e o embale.
Para pensar:
- 12,19 milhões de mulheres chefiavam lares monoparentais no Brasil no fim de 2025, um avanço de 28% em relação a 2012, segundo levantamento do FGV IBRE.
- 86,5% das famílias formadas por apenas um dos pais e filhos são lideradas por mulheres. O país registra apenas 1,7 milhão de pais solo, segundo dados analisados pelo Ipea.
- 61,5% delas são negras. Mulheres pretas e pardas compõem a grande maioria das mães solo do país, de acordo com o Ipea.
- 72,4% vivem totalmente sozinhas com os seus filhos, operando de forma rotineira sem o suporte de nenhuma rede de apoio familiar residente no domicílio, conforme o FGV IBRE.
- 54,3% possuem baixa escolaridade, tendo completado no máximo o ensino fundamental, segundo a PNAD Contínua avaliada pela Fundação Getulio Vargas.
- Até 41% menos de renda. Mães sem cônjuge registram rendimentos consideravelmente menores do que a média de casais com filhos, devido à alta taxa de informalidade e jornadas parciais, aponta o FGV IBRE.
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