“Onde come um, comem dois” e a violência segue sepultando crianças

Crianças são frágeis, vulneráveis, alvo fácil porque não podem se defender e a crescente de casos que as têm como vítima é nítida

Ditos populares como “onde come um, comem dois” perpetuam a ideia de que para criar um filho, basta apenas dar um jeito. A superficialidade com a qual o tema é tratado induz quem está de fora a pensar que tudo bem se uma criança brotar na vida, mas precisamos urgentemente jogar luz sob a responsabilidade gigante que é procriar, justamente para evitar que violência e consequente assassinato de crianças ocorram com tanta frequência quanto a que temos visto.

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(Foto Flávia Gava/Unsplash)

Não, gente, não estou normalizando a morte dos pequenos, nem minimizando a culpabilidade do crime horrível que é. Mas, venhamos e convenhamos, o ciclo violento que existe em inúmeros lares vem também do nascimento de crianças sem a menor noção do que é ter um filho. Isso porque criança demanda, é dependente, ocupa 100% do nosso tempo, chora (o tempo todo) e isso não é sinônimo de birra.

Sem capacidade de regulação que a gente tem, o mecanismo de comunicação de sentimentos é o choro e isso a longo prazo pode ser tirar o adulto responsável do sério. Acolher não é fácil.

Aplicar educação positiva então… é desafio diário e se você é favor do tapinha, preciso nem dizer que não deve mesmo criar um filho, né? Vide o caso da menina Sophia que começou com uns tapinhas do padrasto para “educá-la” e acabou numa mesa de necrotério.

Me desculpem a crueza das palavras, mas elas precisam ser ditas para retratar o caos que vivemos. Crianças são frágeis, vulneráveis, alvo fácil porque não podem se defender e a crescente de casos que as têm como vítima é nítida. Esta semana vimos mais um com o pequeno de dois anos que está entre a vida e a morte na Santa Casa de Campo Grande.

Para além disso, a ausência de políticas públicas, reforçada pelo coro religioso de que “filho é bênção”, faz com que lares, principalmente os mais periféricos, onde a tendência à violência é maior devido a vulnerabilidade econômica e estrutural, sejam o cenário perfeito para tragédia.

Um ciclo sem fim. Meses atrás vimos uma criança de dois anos abandonada em casa com panela no fogo porque a mãe, dependente química, foi para o bar e quase causou tragédia. Dias depois outro bebê de pouco mais de 10 meses foi encontrado no meio da madrugada na rua porque os pais, também dependentes químicos, o deixaram lá. É demanda de saúde pública, gente.

De acordo com dados divulgados pela Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) em 2022, mas que retratam compilado feito entre 2016 e 2020, foram 35 mil mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes no Brasil no referido período , número que reflete média de 7 mil mortes por ano ao longo quatro anos estudados.

As informações têm como base os boletins de ocorrência registrados em todos os estados brasileiros. Então, seguimos assim, cada dia uma nova notícia com o velho enredo.

Tá escancarado que investir em educação sexual, em projetos que visem conscientização sobre o que de fato é ter um filho e políticas públicas desburocratizando o caminho aos métodos contraceptivos de fácil acesso é preciso, urgentemente. Caso contrário, continuaremos sepultando nossos pequenos, sem chance de volta.

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