Pai preso, mãe morta: os órfãos do feminicídio e a geração condenada pelo silêncio

Levantamento expõe a falha na proteção às mães e o impacto devastador nas famílias brasileiras

Numa noite de agosto, os filhos, dois meninos de pouco menos de seis anos, berravam “mamãe” pendurados na grade da casa onde, até então, moravam com os pais e a avó paterna. O desespero testemunhado pela vizinha, que os acolheu logo depois, refletia o que aqueles olhinhos de criança haviam acabado de memorizar para sempre: o atropelamento e consequente óbito da mãe, de apenas 23 anos, pelas mãos do pai.

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Órfãos do feminicídio (Imagem criada por IA)

Parece um texto já começado, não é? Mas é o trecho de um dos inúmeros inquéritos sobre feminicídios que estampam as capas dos jornais diariamente. Crianças, adolescentes, jovens, adultos, não importa a idade, estes são os filhos do feminicídio e, em muitos casos, testemunhas oculares do crime que os priva da companhia de suas mães pelo resto da vida.

De acordo com o Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025 (Lesfem/UEL), 69% das mulheres mortas tinham filhos ou dependentes, o que representa 1.653 órfãos em decorrência deste crime. Destes, 30% presenciaram as mortes. O dado está diretamente ligado aos autores: 75% dos crimes ocorreram em âmbito íntimo, companheiros ou ex-companheiros.

Nesse cenário, o lar se torna o local do crime: 38% das mulheres foram mortas na própria casa e 21% na residência do casal. Além dos órfãos que ficam, há os que nem chegaram a nascer: 101 das vítimas estavam grávidas.

Num país maciçamente cristão que prega o “vinde a mim as criancinhas”, os braços seguem cruzados e os olhos vendados pelo véu do machismo, deixando um rastro de pequenos órfãos Brasil afora.

Em Mato Grosso do Sul, a realidade é igualmente cruel:

Relatos de inquéritos e dados alarmantes revelam a face mais cruel da violência: uma geração de órfãos condenada ao trauma e ao silêncio em Mato Grosso do Sul.
Órfãos do feminicídio (Imagem gerada por IA)

Órfãos do Feminicídio em Mato Grosso do Sul

AnoCriançasAdolescentesAdultosTotal de Órfãos
202424143371
202529123374
2026*2237

*Dados até 09/03/2026.

Os números de 2026 ainda estão no começo, mas o rastro de trauma que carregam é vitalício. Para cada mãe que tomba, nasce uma infância interrompida e um futuro em suspenso.

Crianças que, em muitos casos ficam também sem o pai (autores dos crimes), são colocadas em abrigos ou em condições de vulnerabilidade em casas de parentes e conhecidos.

Enquanto o luto desses pequenos for tratado apenas como estatística de inquérito, e não como uma urgência moral da sociedade, as grades das casas continuarão sendo o único suporte para o choro de quem ficou.

O feminicídio não mata apenas uma mulher; ele condena toda uma geração ao silêncio dos órfãos.

Rede de apoio

Enquanto não se acha solução para estancar a violência contra a mulher, o poder público trabalha com políticas voltadas à família das vítimas, já que em muitos casos, as mães estão mortas e os pais, autores dos crimes, presos.

Como funciona a pensão para órfãos do feminicídio?

Desde o final de 2023, o Brasil conta com uma legislação específica para garantir o sustento básico de crianças e adolescentes que perderam a mãe para o feminicídio. Confira as regras atuais:

O Benefício (Lei Federal nº 14.717/2023)

  • Valor: 1 salário mínimo mensal pago pelo Governo Federal.
  • Público-alvo: Filhos e dependentes menores de 18 anos.
  • Critério de Renda: A renda familiar por pessoa deve ser de até 1/4 do salário mínimo.

Regras de Proteção

  • Afastamento do Agressor: O autor ou cúmplice do crime é proibido por lei de receber, administrar ou representar os menores na gestão deste benefício.
  • Agilidade: O benefício pode ser concedido de forma provisória assim que houver indícios fundados de feminicídio, sem a necessidade de esperar o trânsito em julgado (condenação final).

Como Solicitar?

  1. Onde: Diretamente no INSS (Portal Meu INSS ou pelo telefone 135).
  2. Documentos Necessários: RG/CPF dos dependentes e do guardião legal, comprovante de residência e o Boletim de Ocorrência ou denúncia do Ministério Público que aponte o crime de feminicídio.
  3. Cadastro: É indispensável que a criança/adolescente esteja inscrita e com os dados atualizados no CadÚnico.
Sele Campanha contra feminicidio

Peça socorrro

1. Emergência (Perigo Imediato)

Se a agressão está acontecendo agora ou há risco de vida:

  • Ligue 190 (Polícia Militar): A viatura é enviada imediatamente ao local.
  • Ligue 193 (Bombeiros): Caso haja ferimentos graves que necessitem de socorro médico urgente.

2. Canais de Denúncia e Orientação

Se o objetivo é denunciar, pedir orientação ou buscar medidas protetivas:

  • Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher): canal federal gratuito e anônimo. Funciona 24h e oferece orientações jurídicas e sobre a rede de proteção.
  • WhatsApp do Governo Federal: envie uma mensagem para o número (61) 9611-0100 para atendimento via chat.

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Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista E eu nem queria ser mãe, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.

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