Jaqueline Naujorks

Por que ele te agrediu? Porque ele quis! Simples assim!

Encarar isso é o primeiro passo para combater a dependência emocional, razão pela qual boa parte das mulheres retira a queixa contra o agressor

Encarar isso é o primeiro passo para combater a dependência emocional, razão pela qual boa parte das mulheres retira a queixa contra o agressor

A violência contra a mulher é uma pauta emblemática, delicada e espinhosa. Depois de relatar, na coluna, a história da Dulce, vítima de agressões do marido enquanto tratava um câncer agressivo, recebi inúmeras mensagens de mulheres relatando situações semelhantes.

Uma delas, particularmente, me chamou a atenção. Vamos chamar essa mulher de Vânia.

Vânia me contou que do primeiro xingamento ao primeiro tapa, ele precisou de apenas um porre. Bebeu até de manhã em pleno dia útil, chegou em casa, encontrou ela na cozinha. Preocupada e obviamente indignada, a mulher disse que ele poderia perder o emprego novamente, e o marido deu um soco no olho dela.

A reação da maior parte das mulheres nessa situação, é justamente não ter reação alguma. Elas ficam completamente estupefatas diante do limite do impensável que acaba de ser ultrapassado. O cara simplesmente foi dormir, bêbado, às 8h de uma quarta-feira. Vânia, com o olho já roxo, foi para a delegacia da mulher prestar queixa.

Ao fim do dia, com o porre já curado, o marido de Vânia começou a desfiar o rosário do perdão, dizendo que estava fora de si, que não se lembrava de ter batido nela e que a amava do fundo do coração. Chorou, disse que ela devia pensar nas crianças, se ajoelhou aos pés dela e soluçava sem parar, jurando que jamais voltaria a acontecer. Ela, que estava louca para acreditar que o soco foi apenas um erro num momento de cabeça quente, perdoou e retirou a queixa.

A segunda agressão aconteceu exatamente 14 dias depois. A terceira, no mês seguinte. Ao cabo de 4 meses, Vânia estava morando de favor na casa de um parente, com os 2 filhos pequenos, porque ele pegou uma faca e a perseguiu até a rua ameaçando matá-la na frente dos vizinhos.

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Como um homem que hoje é amado por você, seu protetor, amanhã será a criatura capaz de te machucar? De te dar um soco, ameaçar você, tentar te matar? Aí você se pergunta – “Por que ele fez isso comigo?” – A resposta é simples: porque ele quis.

Entender que esse homem quis te agredir é o primeiro passo para se livrar do que conhecemos como dependência emocional. Quando você enxerga que o ser amado é capaz de te ferir, a figura romântica do príncipe encantado desbota e você o enxerga como realmente é. No fundo, a gente deseja que a pessoa amada ocupe esse lugar, de super-herói, e quando o filtro do amor é retirado, enxergar com olhos de realidade pode ser muito doloroso. Doloroso a ponto de sublimar seu senso de realidade.

Em todas as histórias sobre violência doméstica que já contei, em todas as entrevistas que já fiz, há algo que une todas as vítimas: o choque de perceber que a pessoa digna do seu amor ontem, hoje é seu agressor. A transição de protetor para algoz, tira nossa esperança de acalento, rebate nas referências de pai, desestrutura completamente nossa fé no amor romântico e mina a confiança em um futuro relacionamento feliz. No fundo, você sente que toda pessoa em quem confiar, será capaz de te machucar.

Para essa sensação, não há remédio senão o tempo. Para parar de perdoar, choque de realidade. Quando você enxerga que seu companheiro de vida te machucou porque quis, seu entendimento de responsabilidade muda: não foi o demônio, não foi o inimigo, não foi o álcool, a droga, o estresse. Foi ele, mesmo. Humano, com todo o pacote de egoísmo e crueldade que os humanos têm, e passam a vida tentando evitar ou mascarar.

Encarar a realidade é terrível, nos custa muito caro, mas pode literalmente salvar sua vida. Depois, reconstruir sua fé no amor é o elixir da sobrevivência. Reencontrar a mulher que você sempre foi, se fortalecer, estender a mão para aquela que ainda está no fundo do poço. Você vai sobreviver, confie em mim. Só não te prometo o “felizes para sempre” porque isso, realmente, não depende de você. Tome seu chá de realidade e confie no processo, porque ilusão nunca ajudou ninguém a passar por esse mundo cão.

Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista Não Sou Obrigada, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.