Dia Nacional do Patrimônio Histórico: por que tantos casarões do Centro de Cuiabá estão abandonados?
Imóveis de espólio, esvaziamento do comércio e mudanças na dinâmica da cidade estão entre os fatores que ajudam a explicar o abandono na região.
Casarões fechados, imóveis deteriorados e estabelecimentos comerciais vazios fazem parte da paisagem do Centro Histórico de Cuiabá. Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a região reúne cerca de 400 edificações na área protegida e enfrenta um problema que se arrasta ao longo dos anos: o abandono de parte desse patrimônio.
Entre as razões estão o esvaziamento da região central, provocado por mudanças na dinâmica da cidade e do comércio, e a situação de imóveis que pertencem a espólios, com vários herdeiros, o que pode dificultar a manutenção, recuperação e destinação das construções.

A discussão sobre a preservação desse patrimônio ganha destaque nesta segunda-feira (17), quando é celebrado o Dia Nacional do Patrimônio Histórico e Cultural, data dedicada à valorização e à proteção da memória, da cultura e dos bens históricos brasileiros.
Segundo a superintendente do Iphan em Mato Grosso, Ana Joaquina da Cruz, o cenário não é exclusivo da capital mato-grossense e se repete em centros históricos de outras cidades.
“O centro histórico de Cuiabá vive uma realidade que é muito semelhante de muitos centros históricos. Hoje em dia você tem toda uma outra dinâmica das cidades, uma outra dinâmica do comércio. Então, os centros históricos tendem a esse esvaziamento”, explica.
Em Cuiabá, segundo ela, a situação envolvendo imóveis de espólio é um dos fatores que contribuem para o problema.
“No caso de Cuiabá a gente tem muitos imóveis abandonados. A grande maioria desses imóveis são imóveis que são de espólio, ou seja, são imóveis que têm muitos herdeiros. Então, isso faz com que muitos desses imóveis acabem abandonados”, afirma.
Cerca de 400 imóveis na área tombada

O Centro Histórico reúne construções remanescentes dos séculos XVIII, XIX e XX e mantém parte do traçado urbano do período colonial. Segundo o Iphan, a área tombada possui 13,1 hectares e abrange cerca de 400 edificações.
É nessa região que estão algumas das ruas mais antigas de Cuiabá. A ocupação remonta ao período da descoberta do ouro, no início do século XVIII, e as construções preservam diferentes materiais, técnicas e estilos arquitetônicos que ajudam a contar a formação da capital.
Para o professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Suelme Fernandes, o fato de parte desse patrimônio ter resistido às transformações pelas quais Cuiabá passou nas últimas décadas já demonstra a importância da preservação.
“O patrimônio ter resistido, ter sobrevivido aos inúmeros ataques que ele tem sofrido ao longo dessa marca de progresso que invadiu Cuiabá da década de 70 pra cá. Eu não acho que é uma data de se comemorar, mas de se pensar que a gente tem muita coisa ainda a se preservar e que há muito o que fazer ainda para que as gerações futuras possam ter oportunidade de conhecer os nossos monumentos”, afirma.
Comércio também perdeu movimento
O Centro Histórico não concentra apenas construções que ajudam a contar a história de Cuiabá. Durante décadas, a região também teve no comércio uma de suas principais características.
Nos últimos anos, porém, comerciantes relatam redução na circulação de pessoas e saída de estabelecimentos da região. Para quem permanece no Centro, a segurança também aparece entre as preocupações.
O presidente da Associação Comercial de Cuiabá (ACCuiabá), Jonas Alves, defende que a recuperação da região passe também pelo atendimento às pessoas em situação de rua.
“Nós temos um problema que é a questão das pessoas em situação de rua. Enquanto nós não acolhermos essas pessoas […] de alguma maneira, nós temos que corrigir isso, acolher essas pessoas, tratar dessas pessoas, cuidar dessas pessoas”, afirma.
Moradores e pessoas que ainda frequentam a região também relatam a percepção de abandono.
Prefeitura tenta recuperar imóveis
Uma das iniciativas para tentar mudar esse cenário é o projeto Cidade Histórica, da Prefeitura de Cuiabá, voltado à recuperação de imóveis da região.
Segundo o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano, José Afonso Portocarrero, imóveis em situação de abandono passam por vistoria e podem entrar em procedimento de arrecadação. Após a notificação, o proprietário tem um período de três anos para tomar providências.
“Se o proprietário não se mover, não se interessar, ele tem um período de três anos, desde que começa esse processo, quando ele é notificado, para tentar entender que não quer de novo o imóvel. Caso ele queira lá no final dos três anos voltar a ser proprietário, ele vai ter que devolver para a Prefeitura tudo aquilo que foi gasto em escoramento, em trabalhos, em coberturas que foram feitas”, explica.
O Iphan também desenvolve ações de conservação na região. Desde 2023, o instituto já repassou mais de R$ 6,2 milhões à UFMT por meio do programa Conviver para a recuperação de imóveis no Centro Histórico. Em 2026, uma das casas históricas restauradas foi entregue após intervenções realizadas no Largo do Rosário. Assista abaixo a reportagem que foi ao ar na TV Centro América:
Para Ana Joaquina da Cruz, recuperar a região depende de uma atuação conjunta e de longo prazo. “Não existe uma solução milagrosa. É um trabalho de integração que precisa ser feito a longo prazo para que o Centro Histórico volte a ser um centro histórico novamente habitado, novamente com vida”, afirma.
Para Suelme Fernandes, preservar essas construções também significa permitir que os moradores reconheçam a importância histórica de espaços que fazem parte do cotidiano da própria cidade.
“É muito incrível saber que um fragmento desta cidade faz parte da história mundial. E que você tenha ela à sua disposição e às vezes você viaja para outros países para querer conhecer algo que você tem na sua própria casa”, conclui.
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