Quando a inteligência artificial começa a prejudicar a comunicação

A tecnologia pode nos ajudar a encontrar as melhores palavras, mas não pode substituir sensibilidade, a capacidade de raciocinar e se conectar com o outro.

A inteligência artificial já entrou definitivamente na nossa rotina. Ela escreve textos, cria imagens, resume documentos, organiza informações e responde perguntas em segundos. Mas existe uma utilização que merece uma reflexão especial: usar a IA para nos ajudar a nos comunicar melhor.

A primeira vez que abordamos o tema ‘Inteligência Artificial’ aqui nesta coluna foi há mais de 3 anos, quando ainda ficávamos surpresos com as conversas em linguagem natural e em tempo real, com ferramentas como o ChatGPT.

Os avanços foram rápidos e hoje em dia podemos pedir que a IA simule uma entrevista de emprego, sugira perguntas para uma reunião, organize argumentos para uma apresentação, antecipe possíveis objeções e até indique assuntos para conversar em um primeiro encontro.

E isso é necessariamente ruim? Não. Pelo contrário. A inteligência artificial pode ser uma excelente ferramenta de preparação. O problema começa quando confundimos preparação com terceirização.

Comunicacao de Primeira IA
A Inteligência Artificial pode nos ajudar na comunicação, mas não deveria nos transformar em personagens de nós mesmos. – Imagem criada por IA

Imagine alguém se preparando para uma entrevista de emprego. A IA pode apresentar perguntas difíceis, ajudar a organizar experiências profissionais e apontar aspectos que precisam ser explicados. É uma ótima forma de treinar.

No entanto, as respostas precisam ser da pessoa. Afinal, o entrevistador não quer conhecer o ChatGPT, quer conhecer o candidato.

Esse princípio vale também para reuniões profissionais. A IA pode nos ajudar a olhar para um assunto por diferentes perspectivas, levantar argumentos favoráveis e contrários e simular perguntas que talvez apareçam durante a conversa. Isso aumenta nosso repertório e, consequentemente, nossa segurança.

Porém, alguém pode fazer uma pergunta inesperada. Um colega pode apresentar uma informação nova. Uma objeção pode mudar completamente o rumo da discussão. E é justamente nesse momento que precisamos recorrer a uma habilidade que nenhuma ferramenta deveria substituir: a capacidade de pensar, interpretar e improvisar.

Quem conhece o assunto consegue sair do roteiro. Quem apenas decorou respostas fica perdido quando a pergunta muda. Por isso, reforço que a IA pode funcionar como um treinador: ela ajuda na preparação, mas quem entra em campo para o jogo somos nós.

E isso vale também para as relações pessoais. Já existem pessoas recorrendo à inteligência artificial para se preparar até para um primeiro encontro. Pedem sugestões de assuntos, perguntas interessantes e até ideias de respostas para determinadas situações. Busque inspiração, jamais monte um personagem.

Uma boa conversa não acontece porque duas pessoas prepararam frases inteligentes. Ela flui quando existe curiosidade, escuta, troca e interesse pelo que o outro está dizendo.

A inteligência artificial é muito útil, mas ela tem limites: a IA pode nos ajudar com as palavras, só que não substitui a nossa capacidade de perceber o outro, interpretar o tom de voz, a expressão facial, o silêncio, o olhar. Essa capacidade de percepção continua sendo 100% humana.

As ferramentas de IA vieram para ficar. E não acredito que o caminho seja fugir delas. O caminho é aprender a usá-las com inteligência (com a inteligência humana!).

Portanto, use a inteligência artificial para ampliar seu repertório, não para substituir seu raciocínio.

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Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista Comunicação de primeira, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.