Jaqueline Naujorks

Quem é Felca e o que ele fez por você?

O nome do momento é esse, e se você não sabe, precisa saber quem ele é

Uma figura muito conhecida nas redes sociais furou a bolha e causou um rebuliço tão grande que deve marcar uma verdadeira revolução digital no Brasil. O nome dele é “Felca”. Na verdade, Felipe Bressanim, um cara de 27 anos que tem 5 milhões de inscritos no Youtube, 6 milhões de seguidores no tiktok e 15 milhões no instagram – ou seja, é um canhão de audiência.

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Felipe Bressanim, conhecido como “Felca”, 27, pesquisou conteúdos que exploram sexualmente crianças e adolescentes em um processo chamado “adultização”. (Foto: Reprodução)

Felca fez o que todo influencer com tamanho alcance deveria fazer: usar seu poder de repercussão para influenciar a sociedade em pautas necessárias. Durante um ano, ele levantou dados sobre vídeos de exploração de crianças e adolescentes, um processo chamado de “adultização”. Esse vídeo de mais de 49 minutos já tem mais de 33 milhões de visualizações no youtube, um verdadeiro fenômeno.

O vídeo de Felca denunciava um perfil em especial, de um homem chamado Hytalo Santos. Ele simplesmente levava menores para sua casa dizendo que estaria “adotando” essas crianças, e mostrava a rotina delas e suas interações em cenas carregadas de conteúdo sexual.

Não há como mensurar quanto dinheiro esse homem ganhou com monetização, porque os vídeos tinham um alcance absurdo. Fora as rifas e outras atividades escusas que ele desenrolava, sem qualquer fiscalização, sem jamais ser impedido.

Em redes sociais como o tiktok, esses vídeos são muito difíceis de derrubar porque não denotam conteúdo sexual a ponto de um robô entender isso, e ao mesmo tempo, erotizam cenas dessas crianças que parecem corriqueiras, mas não são.

Os comentários são o puro suco do chorume que corre por baixo dos fakes criados em sua maioria por homens, que pasme, estão ao seu redor.

Há 2 meses surgiu no tiktok o perfil de uma mulher que colocava seu bebê de poucos meses, usando fraldas, em cenas como essa em cima de um cavalinho de borracha. Enquanto segurava a criança, ela cantava músicas que descreviam cenas de sexo. Quando vi o perfil, meu estômago revirou na hora. Esses vídeos tinham centenas de milhares de visualizações, com incontáveis compartilhamentos e comentários de homens pedindo para que ela mostrasse o bebezinho nu. Eu e outras influenciadoras denunciamos, e a plataforma respondeu que “esse perfil não viola as diretrizes”.

A mulher foi às redes sociais dizer que precisava do dinheiro da monetização e obviamente foi protegida pelas pessoas que consumiam aqueles vídeos. Esse público influencia o algoritmo e favorece uma gigantesca rede de pedofilia. Essa foi a pedreira que Felca decidiu enfrentar quando produziu seu pequeno documentário.

Sabe o que esse garoto fez por você e pelos seus filhos?

Os líderes partidários da Câmara dos Deputados decidiram instalar no próximo dia 20 de agosto uma comissão geral para discutir a sexualização de crianças e adolescentes nas redes sociais. Essa comissão deve ouvir especialistas e discutir projetos de proteção a menores em ambientes online. Esse é o maior avanço efetivo que tivemos nessa pauta, uma necessidade urgentíssima que cresce à medida que o alcance das redes aumenta e descortina novos perigos, diante de um legislativo que anda a pé para acompanhar um jato.

Para as criadoras de conteúdo como eu, que há muito batemos nessa tecla, chega um novo aliado na causa. Quando mulheres falam sobre algo que envolve a moral dos homens, como o consumo de vídeos de sexualização infantil, elas são combatidas. Quando um homem fala sobre, outro homem para e ouve. E nós sabemos que é assim que funciona. O discurso de Felca não foi considerado “mimimi de feminista”.

O que importa é que ele conseguiu botar essa pauta em Brasilia. Mesmo que seja uma cortina de fumaça, se sairmos dali com um documento, um projeto, uma normativa qualquer, será um passo na direção de um bem maior: a regularização da internet, um assunto gigantesco, que vai mexer com muita gente poderosa, e que é o eldorado de quem sonha com um ambiente virtual mais seguro para todos. Obrigada, Felca. É bonito ver que os bons não silenciam.

Leia mais

  1. Moção de aplausos: vereador aproveita vídeo viral de Felca para autopromoção

  2. Adultização: quando a infância é negociada em nome do engajamento

  3. Denúncia de Felca impulsiona projetos contra adultização infantil em Cuiabá e no Congresso

Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista Não Sou Obrigada, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.

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