Recomeçar faz parte da vida e melhora a saúde mental
Quem já recomeçou várias vezes garante que o movimento natural da vida pode resultar em muita felicidade
Quantos recomeços cabem em um ano? Na vida de Weila de Castro Escobar, há vários. Da quase mudança para Portugal até o retorno para casa, em Campo Grande, foram dias e noites de resiliência, que nem sempre ela conseguiu alcançar. “Recomeçar não é fácil, nenhuma das vezes. Mas eu sempre tentava me reinventar, me redescobrir”, afirma a sul-mato-grossense, de 28 anos.

A vida, segundo ela, tem sido uma loucura desde 2018, quando seu noivado foi desfeito e ela decidiu mudar de cidade para se reaproximar do pai. “Desde então, eu morei em três estados diferentes, 5 cidades diferentes e 9 casas diferentes”, conta.
Na época, ela que é formada em direito, ficou meses desempregada até conseguir se encaixar em um escritório de advocacia de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Lá, permaneceu até 2020, quando desejo de seguir a área de tecnologia falou mais alto e acabou abrindo caminhos para outros projetos.
“Fiz um processo seletivo de mestrado em Portugal, como o trabalho é em home office, a ideia era ficar lá até o mestrado finalizar e depois me mudar para Nova York, onde está a sede da empresa”. Porém, em 2021, ela descobriu a endometriose e viu a vida virar de ponta cabeça. “A endometriose estava em estágio 5, espalhada pelos meus órgãos. Eu precisava da minha mãe e seguir um tratamento, por isso decidi voltar para Campo Grande para fazer as cirurgias”, relembra.
O que era para ser algo simples, virou um pesadelo. A empresa assinou a carta de demissão e Weila se viu operada e desempregada. Tudo isso, aliado a problemas financeiros fizeram ela ter crises depressivas e de ansiedade. “Pra mim, tudo isso era uma regressão”, acredita.

No fim das contas, o tempo passou, Weila conseguiu se reerguer e foi aprovada para o mestrado de direitos humanos da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), um sonho antigo e que pode ser realizado perto de casa e da família. “Os erros, as quedas e as dificuldades, me ensinaram a ser ainda mais perseverante e resiliente, parece clichê, mas é real”, frisa.
Retroceder para avançar
Sentimento semelhante que José Eduardo teve quando precisou sair da faculdade de medicina para trabalhar como assistente administrativo. “Nesse 2021/22 e agora entrando em 2023, devido à fatores diversos: falecimento do meu avô (que era considerado como pai), adoecimento da minha avó, fatores financeiros devido à pandemia e o meu próprio, acabei saindo do último ano de uma faculdade medicina para ser assistente administrativo em uma empresa de análise compensatória”, conta.
Mesmo assim, ele tenta ver o lado bom de tudo. “Não me arrependo das escolhas que fiz! Diz aquele velho ditado que a ocasião faz o ladrão, nesse caso, a necessidade como um todo, acabou com que eu descesse um degrau, digamos assim para poder galgar outros. Provavelmente, em 2023, volto para minha faculdade e concluo e, por consequência, conseguirei dar seguimento ao meu sonho de criança que foi sempre ajudar ao próximo! Seja como médico ou assistente administrativo”, pontua.
Recomeço por amor
Enquanto, muitas vezes recomeçar pode ser após as dificuldades, tem gente que faz o caminho inverso. Thiago Andrade, 37 anos, trocou Campo Grande por Macaé, no Rio de Janeiro, para dar “um gás na vida”. “Minha irmã e meu cunhado moram em Macaé há uns 9 anos, até então eu nunca tinha vindo visitar eles. Ano passado eu vim, passei o Natal e Ano Novo, e eu amei a cidade, não só a cidade, mas o local, porque é o próximo do Rio de Janeiro, faço muito curso da minha área, minha especialização foi lá, tenho ideia de fazer o doutorado na UFRJ”, conta.

Thiago, que trabalha como preparador físico, ficou pensando o ano inteiro na mudança, até que uma hora decidiu. “Não adianta, se não for agora, nunca vai ser o momento perfeito. Eu estava ganhando bem em Campo Grande, estava muito estável, só que eu preciso dessa sacudida. Foi uma questão de qualidade de vida, de não me acomodar”, frisa.
No dia 4 de dezembro, ele desembarcou na cidade, com a cara e a coragem. “[a mudança] foi maravilhosa, deu medo como tudo que é novo né, mas pra mim esse recomeço deu um super gás para tentar algo novo, de um jeito diferente”, pontua.
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Recomeço é todo dia
Gabriela Molento, que atua como psicóloga de Orientação Analítica Junguiana, explica que a vida é feita de ciclos e recomeços.
“É preciso compreender a lógica da vida à partir da nossa própria natureza. Naturalmente, todos nós nascemos e morremos, nos adaptamos aos ciclos das estações do ano, ao início e final da semana e do dia. Por exemplo, durante a manhã estamos vivendo o início do dia (como se fosse um “renascimento” ao acordar) e à noite o final (como se fosse uma “morte” ao dormir). Há muitas passagens mitológicas a respeito do dia e da noite, do sol e da lua como representações dos ciclos e de começos e finais. Os mitos são uma forma de interpretação que nos ajuda a elaborar esses aspectos mais profundos da vida”, acredita.
Mas, em geral, segundo Gabriela, não vivemos esses começos e finais de forma consciente, o que pode causar um adoecimento psicológico. “Mas é preciso parar e refletir, sentir nosso estado interior, internalizar de forma consciente e reflexiva os finais e os recomeços das nossas práticas e vivências diárias para assim adquirirmos sabedoria e a condição de mudar e transformar o que é necessário nas nossas vidas. Permitir esse movimento de vida-morte e vida nessa dimensão simbólica do dia a dia é um modo de morrer para o velho e nascer para o novo em nós mesmos todos os dias”, frisa.
Isso é essencial para seguir em frente. “Uma das causas do adoecimento psicológico está na não fluidez dos nossos ciclos emocionais, os quais atingem escolhas e decisões importantes. Como por exemplo a necessidade de terminar um relacionamento que não esta saudável, procurar um novo emprego, ou simplesmente mudar a nossa perspectiva sobre a vida, as relações, o trabalho. Deixar a velha forma de compreender a vida dando lugar a uma nova consciência”, pontua.
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