Jaqueline Naujorks

Shakira, Miley Cyrus e a resposta ao escrutínio público da traição

Sempre fiquei intrigada com essa regra social de que a mulher traída e trocada por outra deveria pegar sua dor e enfiar debaixo da cama, chorando calada no quarto e guardando um silêncio polido como se fosse luto. Falar sobre o assunto era proibido, não para se proteger dos abutres de fofoca, mas para não […]

Sempre fiquei intrigada com essa regra social de que a mulher traída e trocada por outra deveria pegar sua dor e enfiar debaixo da cama, chorando calada no quarto e guardando um silêncio polido como se fosse luto. Falar sobre o assunto era proibido, não para se proteger dos abutres de fofoca, mas para não constranger o homem no seu lindo recomeço com a namorada nova.

Jaqueline Naujorks
Jaqueline Naujorks (Reprodução)

Duvido que você não tenha um caso desses entre familiares e conhecidos. Tem, né?
Tem, porque a construção social nos diz que isso é perfeitamente aceitável. No máximo vai gerar algum desconforto que as pessoas em volta vão engolir com farinha porque afinal, vida que segue. Escancarar esse assunto é o puro suco da psicologia reversa em cima da vítima: assumir que foi traída é sinal de desonra para a mulher, não para o traidor. Ou era.

Confesso que estou absolutamente obcecada por “Flowers” da Miley Cyrus e especialmente, “Shakira-BZRP Music Sessios #53”. Não só pelas canções que são sensacionais – e olha que não sou exatamente uma consumidora de música pop, meus tempos de Estoy Aqui já se foram. Lembro que na época da separação da Miley ela foi chamada de promíscua para baixo, porque se relacionou com um monte de gente em seguida – e quem saiu de coitado foi o ex-marido, Liam, que a traiu com pelo menos 14 mulheres, reza a lenda. Eis que a gata lança uma música no dia do aniversário do cara, com clipe gravado na casa onde as traições aconteceram, basicamente dizendo que vai cumprir todas as promessas que ele fez e pode se amar muito melhor que ele. Uma voadora no peito com o som de um estalar de dedos.

O hit lançado por Shakira foi um ato muito mais de visão de mercado do que propriamente de coragem, ela sabia muito bem o que estava fazendo, não foi delicada na indireta e não poupou ninguém. A mulher simplesmente pegou a expectativa do mundo de que ela segurasse a onda da recente traição em silêncio, jogou a lama toda no ventilador e fez um hit mundial em dois dias. Mas o que aprendemos com isso?

As mulheres estão exaustas do silêncio que torna a vida dos outros mais confortável. A dor escancarada incomoda, especialmente os que intimamente concordam que faz sentido trocar sua esposa por outra quando enjoa dela, que não tem nada de mais trair, expor sua companheira ao ridículo, e que a postura digna da mulher traída é ficar de boca fechada até que as pessoas esqueçam a fofoca. Não é não. O silêncio só é confortável para o traidor.

 Essas mulheres usaram a velha alquimia da inteligência e transformaram uma tonelada de dor em uma tonelada de ouro. Shakira especialmente, porque traz consigo o estigma do etarismo: já que foi pintada como uma mulher que envelheceu e foi descartada, já que o mundo a estava julgando, por que não dar a versão dela dos fatos e carregar consigo uma legião de mulheres que esperavam uma voz para cantar a mesma coisa? 

Piqué até tentou debochar e se beneficiar do trabalho da ex (cê jura?), mas não colou. Ganhou patrocínio das marcas citadas, mas a opinião pública simplesmente não está do lado dele nessa. O momento é dela. O momento é da Miley. Não é hora de rebater. É hora de se fechar em um silêncio resignado, ficar de boca fechada e esperar a fofoca esfriar. Irônico, não?

Encerro a coluna desta semana pensando em como eu gostaria de ver cada mana que já sentiu o peso do escrutínio público sobre a própria dor: tomando um drink chiquérrimo na sua varanda, lindíssima, rindo de uma bela invertida que deu, sentindo o prazer de desbancar um herói impostor e botando a coroa na própria cabeça.

As mulheres já não choram, as mulheres faturam.

Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista Não Sou Obrigada, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.