Jaqueline Naujorks

"Síndrome da Filha Mais Velha": precisamos falar sobre isso

Fiquei assustada com a quantidade de mulheres em sofrimento por esse estigma.

Vou começar esse texto com uma verdade desconfortável:

Você não tem o direito de transformar sua filha mais velha na gerente da sua casa. Nem sua única filha mulher. Ela não tem obrigação de cuidar dos irmãos, nem se responsabilizar pela cozinha, nem virar governanta, muito menos de fazer o papel de mediadora entre os pais ou psicóloga deles.

Postei um vídeo falando sobre isso no tiktok e fiquei assustada pela quantidade de mulheres completamente adoecidas por um passado de obrigações que eram dos pais, comentando publicamente suas dores. A vontade de se sentir acolhida acima da culpa é tão grande, que aquele espaço público virou um enorme confessionário.

É um assunto tão profundo que tem até nome: “Síndrome da Filha Mais Velha”. Geralmente acontece quando uma desafortunada nasce de pais imaturos, despreparados para as obrigações de ter um filho, que dirá vários – e é exatamente isso o que fazem. Botam outros filhos no mundo e passam a delegar obrigações para essa filha, a fim de aliviar a jornada deles de alguma forma. Isso era muito comum, e o resultado é esse que temos hoje – uma infinidade de mulheres exaustas, deprimidas, com doenças psicossomáticas pelo puro cansaço de uma vida inteira servindo os outros.

Além da divisão de obrigações dentro de um lar ficar totalmente desproporcional, além das brigas com os irmãos, além do sentimento de revolta que vai ficar lá no inconsciente da sua filha, existem outros alertas sobre esse comportamento. O primeiro é o mais óbvio, e ao mesmo tempo mais doloroso:

Sua filha não vai querer ter a própria família porque estará exausta de cuidar da sua. Pode existir injustiça maior?

coluna Jaque filha mais velha

A gente fala muito pouco sobre isso porque todo assunto que envolve pai e mãe, vem envolto em uma névoa de culpa, e uma certa santificação desses pais sem qualquer questionamento. Tá errado. A gente precisa reconhecer o que aconteceu no passado, justamente para parar de carregar essa mala de pedras pela vida afora.

Sua filha não tem a obrigação de educar os irmãos. Ela não é mensageira para levar recados ao seu ex, nem espiã para observar a vida amorosa da mãe e contar ao pai. Sua filha não “amadureceu cedo”, ela foi obrigada a fazer isso porque entendeu que os pais não eram maduros o bastante para cuidar de tudo e de todos.

Não estou falando de dividir tarefas domésticas ou eventualmente ficar com os irmãos. Falo da obrigação dos pais que não estão dando conta de cuidar de todos os filhos e delegam essa operação na mão da mais velha por ser “mais madura”, jogando nas costas dela o peso de “dar o exemplo”.

Precisamos parar de colocar meninas nessas funções, porque criamos uma geração de mulheres exaustas, que vão precisar viver essa adolescência tardia depois dos 30. Não raro, assim que têm a oportunidade, essas filhas vão embora para qualquer lugar que seja distante o suficiente das obrigações que todo mundo se acostumou que fossem delas. E nunca foram.

Fiquei assustada com a quantidade de relatos de mulheres nesse vídeo no tiktok. Foram mais de 5.300, e a esmagadora maioria eram histórias de mágoa e puro cansaço, geralmente encerradas pela frase “e é por isso que eu não quero ter filhos, não aguento mais ser mãe”. Imagine quantas mulheres que não tiveram o direito de escolher, viveram existências funcionais, sobrecarregadas e infelizes?

Bem, quero oferecer um outro lado dessa moeda:

Não preciso dizer que, pela propriedade da fala, eu fui essa filha mais velha. Não porque minha mãe tenha me dado essa incumbência, mas porque quando ficamos só nós, percebi que ela não estava dando conta sozinha de 3 filhas e me coloquei no lugar de ajudar, simplesmente para diminuir o clima de sofrimento da casa. Funcionou.

Mas tudo tem seu lado bom. Hoje, com todo mundo fazendo terapia, a gente entende que fizemos o que era possível na realidade que a gente tinha. Não se pode exigir mais do nosso Eu do passado, basta que a gente tente acertar o passo no presente. A parte boa é que eu e minhas irmãs somos melhores amigas, companheiras na alegria e especialmente, na dor. A gente aprendeu a contar uma com a outra para tudo, naquela intimidade que só o perrengue permite.

A verdade é que o mundo está mudando muito rápido e essa geração não vai mais aceitar os costumes descabidos que normalizamos quando era comum um casal ter 5, 10, 12 filhos e não cuidar efetivamente de nenhum, delegando aos mais velhos essa obrigação. Não cola mais. Vejo pais mais responsáveis com o psicológico de seus filhos, e especialmente, de suas filhas. Isso me enche o coração de esperança de ver no futuro mulheres menos adoecidas pelo peso de serem funcionais para os outros, negligenciando a si mesmas.

Vem aí uma leva maravilhosa de mulheres que se posicionam, se priorizam e principalmente, não se sentem culpadas por dizer a palavra mais libertadora da língua portuguesa: “NÃO”.

Leia mais

  1. Café com quem?

  2. Os 5 segredos das mulheres poderosas

Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista Não Sou Obrigada, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.

Comentários (1)

  • Otaviano Gomes

    Boa Jaqueline!
    Ótimo texto .
    Sou filho homem de uma mãe que foi pai e mãe de 4 filhos
    Embora eu fosse o do meio, assumi a responsabilidade de filho mais velho para ajudar nossa mãe.
    Seu texto levou me a refletir!
    Obrigado

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