Ter filhos não é para qualquer um e a Internet prova isso todos os dias

Vídeos nas redes sociais vão de gracinha a assuntos sérios

Este texto começaria apenas citando um vídeo que viralizou nos últimos dias nas redes sociais, no qual uma menina pequena, de aparentemente 3 ou 4 anos, tem a cabeça enfiada em um bolo de aniversário ao cantarem parabéns para ela, junto com a família. Quem faz a “brincadeirinha” são os pais.

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(Foto: Reprodução)

O que parecia ser inofensivo acabou viralizando e provando que, sim, nem todo mundo nasceu para ter filho. A menina fica visivelmente irritada no vídeo e, sem que a cabeça dela seja impulsionada novamente pelos responsáveis, ela mesma continua enfiando a cara no bolo, como uma forma de protesto — alerta de spoiler para quem ainda não assistiu: é de doer o coração!

Por fim, com o rosto cheio de glacê, ela olha para a mãe, faz um sinal de repreensão e sai de cena enfurecida. A genitora, sentada em uma cadeira, ri junto com o pai, que está em pé assistindo a tudo e ajudou a empurrar a cabeça da menina.

(Vídeo: Reprodução/Redes Sociais)

Até aí, embora seja uma situação horrível e que revire o estômago só de olhar, a cena pode ser encarada como uma brincadeira de mau gosto.

Mas outro vídeo, dessa vez no YouTube, com mais de uma hora de duração, também viralizou nos últimos dias e pavimenta, de forma mais grave, a ideia de que procriar é bem diferente de criar um ser humano.

Pois bem! Eu particularmente conhecia pouco sobre o Felca e tinha ouvido falar muito rasamente sobre a tal dupla Hytálo e Camilinha, todos criadores de conteúdo.

Adendo: não sei muito bem quem são essas pessoas, não por seguir a linha intelectual que critica pessoas que conhecem os influenciadores de cabo a rabo. Confesso que eu sou um pouco alheia a isso, um pouco perdida, talvez tiazona no alto dos meus 37 anos. Às vezes eu leio as matérias e não sei quem são as pessoas, mas por pura falta de tempo. Uma rotina atribulada de mãe e uma memória falha. Longe de mim fazer a linha do “vá ler um livro”. Cada um sabe de si.

Voltando ao assunto, Hytálo, Kamilinha, Bel para Meninas e outros nomes vieram à tona depois de um vídeo de quase uma hora que o Felca produziu, com base em uma minuciosa investigação que ele mesmo fez a respeito da adultização de crianças e da isca que isso se torna para os pedófilos de plantão nas redes sociais.

Felca colocou o dedo na ferida e expôs como a rede de pedofilia funciona a céu aberto, como ele mesmo diz, no Instagram, por exemplo. Eu acabei de ver o vídeo, hoje é sábado, 9 de agosto, estou de folga, e não paro de pensar em como esse homem se tornou uma referência materna neste momento.

Bem, o vídeo é esse que está aqui acima (acumulando 31,7 milhões de visualizações e 222,2 mil comentários), mas eu queria ir para um outro lado, falando dos pais que expõem as crianças na internet em troca de monetização. Inclusive, acabo de ver a mãe da Kamilinha saindo em defesa do suposto algoz da filha, dizendo que está ao lado dele.

Muita gente criticando, muita gente defendendo, mas o fato é que nem todo mundo nasceu para ter filhos. A gente precisa partir do pressuposto de que pessoas ruins também têm filhos, também reproduzem.

Pessoas desprovidas de sentimentos, desprovidas de responsabilidade afetiva e de qualquer responsabilidade no sentido literal da palavra. Interesseiros, golpistas, exploradores.

No vídeo do Felca, ele expõe casos de influencers mirins que são explorados com a consciência e a assinatura dos pais, e que as contas e os vídeos servem de ponto de encontro para pedófilos, com códigos usados por eles — por esses criminosos — nos comentários, com o aval dos pais, que inclusive vão a outros vídeos de outras crianças, onde estão esses pedófilos, para chamar a atenção deles para a conta dos próprios filhos.

Isso porque a rede social não leva em consideração a responsabilidade sobre o menor. A internet monetiza a partir de visualização e engajamento, ponto final. Na teoria, quem deveria se responsabilizar pelas crianças são aqueles que as colocaram no mundo, mas não é bem assim que acontece.

Então, sim, pais também exploram os filhos. Vide os casos que a gente tem de pais, padrastos, avôs, tios, que exploram sexualmente, estupram, abusam de quem deveriam cuidar.

Por que não fariam isso na rede social? A gente precisa, de uma vez por todas, tirar o véu religioso da maternidade, da paternidade, tirar a venda de que todo mundo nasceu para reproduzir, de que é instintivo e natural.

Tirar, de uma vez por todas, esse romantismo, porque enquanto isso acontece, enquanto isso não cai, as crianças são as vítimas. Está na hora de quebrar esse tabu. Está na hora de colocar o assunto à mesa e proteger quem não tem culpa das irresponsabilidades dos adultos.

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Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista E eu nem queria ser mãe, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.

Comentários (1)

  • Brígida Silva

    Realmente é de mal gosto,bolo foi feito para comemorar,para ser delicioso,para comer,se alegrar e não para atrapalhar um dia muito feliz,acho desrespeitoso fazer isso com quem quer que seja,viva a vida nesse dia tão importante,e não a atitude desnecessárias