Toda reclamação é um teste de comunicação

Mais do que resolver problemas, organizações e clientes precisam saber como se comunicar quando a insatisfação aparece.

Era para ser apenas mais uma reclamação de consumidor. Mas um detalhe transformou a situação em um bom exemplo de comunicação.

O cliente entrou em um supermercado já com o celular gravando. Levava nas mãos uma peça de carne comprada no estabelecimento e reclamava que o produto apresentava mau cheiro. O almoço havia atrasado, ele estava frustrado e fazia questão de registrar toda a conversa.

Do outro lado do balcão, porém, não houve discussão. A atendente conferiu a nota fiscal, reconheceu o problema e ofereceu duas alternativas: troca imediata ou reembolso. Em nenhum momento tentou minimizar a reclamação, transferir a culpa ou responder no mesmo tom do cliente. Manteve a cordialidade do início ao fim.

O vídeo chamou atenção justamente por isso. Ficou evidente que aquela equipe havia sido preparada para lidar com situações de conflito. O problema foi resolvido rapidamente e, mais importante do que isso, a imagem da empresa saiu preservada.

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Quando surgem conflitos, o que determina o desfecho é a forma como empresas e consumidores escolhem se comunicar. – Imagem criada por IA

Esse episódio nos lembra que erros acontecem em qualquer lugar: lojas, bancos, aeroportos, hotéis ou no serviço público. Nenhuma empresa ou instituição está livre de vender um produto com defeito, atrasar uma entrega ou prestar um serviço abaixo do esperado. O que realmente faz a diferença é a forma como ela reage quando algo dá errado.

Hoje, qualquer cliente pode usar o celular como uma filmadora. Uma reclamação feita diante de um balcão pode alcançar milhares de pessoas em poucos minutos. Por isso, a comunicação deixou de ser apenas uma habilidade desejável para se tornar uma estratégia de proteção da reputação.

Quando um cliente chega irritado, três atitudes costumam fazer toda a diferença.

A primeira é ouvir antes de responder. Quem reclama quer, antes de tudo, ser ouvido. Interromper, justificar ou tentar convencer imediatamente de que ele está errado costuma aumentar ainda mais a tensão.

A segunda é demonstrar que compreendeu o problema. Isso não significa admitir culpa antes da apuração dos fatos, mas reconhecer o transtorno vivido pelo consumidor. Frases simples como “Entendo o seu aborrecimento” ou “Vamos resolver essa situação” ajudam a reduzir a carga emocional da conversa.

A terceira é apresentar uma solução objetiva. O cliente procura uma resposta, não um debate. Quanto mais claro for o caminho para resolver a questão, maiores são as chances de encerrar o conflito de forma positiva. Isso pode ser por meio da troca do produto, do reembolso ou de uma outra solução viável.

Mas o alerta não vale apenas para quem vende um produto ou presta um serviço. Há algum tempo escrevi, aqui na coluna, que o cliente também pode perder a razão quando erra na comunicação Continuo pensando da mesma forma.

É verdade que algumas situações tiram a paciência de qualquer pessoa. Atendimento digital que não resolve, longos períodos de espera, a necessidade de repetir o problema para vários atendentes ou encontrar profissionais despreparados são experiências frustrantes e, infelizmente, ainda muito comuns.

Nada disso, porém, justifica ofensas, humilhações ou agressões verbais contra quem está realizando o atendimento. Muitas vezes, o funcionário que está na linha de frente sequer foi responsável pelo erro que originou a reclamação e, ainda assim, acaba sendo o alvo da irritação.

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A comunicação deve ser sempre respeitosa dos lados da conversa. – Imagem criada por IA

Além do aspecto ético, existem consequências legais. Trabalhadores vítimas de ofensas podem buscar proteção jurídica, e, no caso de servidores públicos em exercício da função, determinadas condutas podem até configurar crime, conforme prevê a legislação.

Reclamar é um direito, exigir qualidade também, desde que tudo seja feito com respeito.

A comunicação não impede que erros aconteçam. No entanto, pode evitar que um erro se transforme em uma crise. E isso vale também para quem está do outro lado do balcão.

Um consumidor pode defender seus direitos com firmeza, sem abrir mão da educação. Respeito e boa comunicação precisam estar dos dois lados da conversa.

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Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista Comunicação de primeira, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.