Visita guiada revela que cemitério centenário é guardião de memórias e histórias da cidade
Passeio percorre túmulos, monumentos e personagens que transformaram o Cemitério Santo Antônio em um retrato da formação da Capital
Quem olha o movimento intenso da Avenida Calógeras ou da Eduardo Elias Zahran dificilmente imagina que, logo ao lado, existe um dos lugares que melhor preservam a memória de Campo Grande. Mais do que um espaço destinado às despedidas, o Cemitério Santo Antônio guarda pistas sobre a formação da cidade, a chegada de imigrantes, a evolução da arquitetura e as transformações da sociedade ao longo de mais de um século.
Fundado em 1872, quando Campo Grande ainda dava seus primeiros passos, o cemitério reúne túmulos de pioneiros, políticos, artistas, comerciantes e famílias que ajudaram a construir a identidade da Capital. Agora, um passeio guiado convida moradores a enxergar esse patrimônio histórico por um novo olhar.
Com duração aproximada de duas horas, a visita começa ainda na entrada do cemitério, na Avenida Consolação. Antes mesmo de percorrer os corredores, os participantes observam uma planta do terreno que revela a disposição dos lotes. À primeira vista, a ocupação parece aleatória. Mas, quando analisada historicamente, é revelado aspectos importantes sobre a organização da sociedade campograndense.
Segundo o professor de História Fernando Vendrame, um dos responsáveis pelo roteiro, a distribuição dos jazigos reproduz, de certa forma, a própria configuração urbana da cidade.
“A gente consegue identificar algumas quadras que eram destinadas às crianças, conhecidas como Campo dos Inocentes. Também percebemos áreas ocupadas por famílias com maior poder aquisitivo, tanto pelo tamanho dos lotes quanto pelo padrão construtivo. Assim como acontece na cidade, aqui existem regiões mais centrais e valorizadas e outras mais periféricas”.
Ao caminhar pelo espaço, o visitante percebe que o cemitério vai muito além da função funerária. A arquitetura dos túmulos, os materiais utilizados, os símbolos religiosos e até a arborização ajudam a compreender diferentes momentos da história de Campo Grande. Para quem pesquisa o local, o Santo Antônio funciona como um verdadeiro documento a céu aberto.
“Tradicionalmente contamos a história de Campo Grande pela Esplanada Ferroviária, mostrando a importância da chegada do trem. Mas o cemitério também permite contar essa história. Aqui conseguimos entender como a cidade foi ocupada, como diferentes grupos sociais se organizaram, qual foi a contribuição dos imigrantes e até perceber estilos arquitetônicos que aparecem tanto nos túmulos quanto em prédios históricos da Capital”.

O cemitério como um retrato da cidade
Essa comparação entre cidade e cemitério acompanha todo o percurso da visita. Logo nos primeiros metros, uma ampla alameda cercada por pinheiros chama a atenção. É justamente ali que estão sepultadas algumas das famílias mais tradicionais de Campo Grande, além de nomes conhecidos, como a atriz Glauce Rocha. Os próprios guias costumam brincar que aquele trecho corresponde à “Avenida Afonso Pena” do cemitério, uma referência à principal via da Capital.
A analogia não é apenas curiosa. Ela ajuda a explicar como a ocupação do espaço reproduziu diferenças sociais existentes fora dos muros do cemitério.
“Aqui percebemos elementos de urbanização e paisagismo que tornam essa região a mais nobre do cemitério. Existe arborização, sombra, monumentos maiores e túmulos mais elaborados. Em outras áreas, as construções são muito mais simples. É possível que isso tenha acontecido naturalmente, conforme as famílias mais abastadas foram adquirindo os terrenos mais valorizados”.
Essa lógica também aparece na própria arquitetura. Enquanto alguns jazigos apresentam esculturas, capelas e revestimentos em mármore importado, outros possuem apenas uma pequena cruz ou uma identificação simples.
As diferenças revelam não apenas condições econômicas distintas, mas também mudanças na forma como cada época encarava a morte, a memória e a preservação do legado familiar.
Outro aspecto que surpreende os visitantes é descobrir que, no início do século XX, cemitérios não eram frequentados apenas em momentos de luto. Além dos sepultamentos, esses espaços funcionavam como áreas de convivência. Famílias caminhavam pelas alamedas, encontravam conhecidos e passavam parte do dia no local, especialmente em datas religiosas.
“O Santo Antônio foi planejado para ter esse aspecto de parque, com avenidas largas, bancos e áreas arborizadas. As pessoas vinham visitar seus familiares, mas também socializavam. Havia vendedores de pipoca, de algodão doce e um ambiente de convivência muito diferente do que temos hoje”.
Essa mudança na relação com os cemitérios ajuda a explicar por que o Santo Antônio é considerado, atualmente, muito mais do que um local de sepultamentos. Para pesquisadores, ele representa um patrimônio histórico capaz de revelar aspectos da cultura, da arquitetura e da formação social de Campo Grande.
O início de tudo
Antes de se tornar um dos principais patrimônios históricos de Campo Grande, o Cemitério Santo Antônio nasceu cercado por uma história que até hoje desperta dúvidas entre pesquisadores.
O terreno onde funciona atualmente foi doado por Amando de Oliveira. Pouco tempo depois da doação, ele acabou assassinado em uma emboscada e foi sepultado no local, em 1914. O episódio fez surgir a versão, repetida por décadas, de que ele teria sido a primeira pessoa enterrada ali. No entanto, a história pode não ser exatamente essa.
Embora os registros oficiais de sepultamentos só existam a partir da década de 1930, um túmulo localizado no cemitério indica uma data anterior: 13 de agosto de 1913. Na lápide aparecem os nomes de José Alves de Mendonça e Germano.
O episódio é narrado por Ulisses Serra no livro Camalotes e Guavirais. Segundo a obra, os dois morreram durante um tiroteio ocorrido em uma apresentação de circo que passou por Campo Grande no início do século passado.
Para Fernando, ainda não é possível afirmar quem foi, de fato, o primeiro sepultado no Santo Antônio.
“A gente não tem elementos suficientes para responder essa pergunta. Eles podem ter sido enterrados primeiro no antigo cemitério e, depois, trasladados para cá. Ou podem ter sido sepultados diretamente aqui. Como Amando de Oliveira foi o doador da área e morreu pouco tempo depois, acabou ficando no imaginário popular essa ideia de que ele teria sido o primeiro”.
Antes da inauguração do Santo Antônio, os sepultamentos aconteciam em outros dois locais da cidade: inicialmente, na esquina das ruas 15 de Novembro e 13 de Maio; mais tarde, na região onde atualmente funciona a Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems).
Independentemente de quem tenha ocupado o primeiro jazigo, o Santo Antônio acompanhou praticamente toda a trajetória de Campo Grande. Conforme a cidade crescia, o cemitério também se transformava em um espaço de memória, preservando sobrenomes, monumentos e acontecimentos que marcaram diferentes épocas.

Arte, arquitetura e símbolos eternizados em pedra
Ao percorrer as alamedas do Santo Antônio, é impossível não perceber que muitos túmulos se assemelham a pequenas obras de arte.
Entre capelas, esculturas e monumentos erguidos em mármore, granito e outras pedras nobres, o visitante encontra um acervo que revela não apenas o poder econômico das famílias, mas também a forma como elas buscavam eternizar seus entes queridos.
Um dos exemplos mais conhecidos é o túmulo de José Antônio Pereira, considerado fundador de Campo Grande.
Segundo Lilsson Souza, administrador do cemitério e coordenador do projeto Cemitérios como Patrimônio Cultural, o monumento possui características semelhantes ao do obelisco localizado no centro da cidade.
“O obelisco possui uma simbologia muito específica na arte funerária. Quando o topo aparece cerrado, representa uma vida promissora que foi interrompida. É um elemento muito utilizado em monumentos dedicados a pessoas de grande importância”.
Os detalhes presentes nas esculturas também contam histórias. Anjos, colunas, cruzes, flores e outros elementos da chamada arte tumular carregam significados ligados à fé, à esperança, à saudade e à eternidade. Cada monumento foi pensado para transmitir uma mensagem sobre a pessoa homenageada.
Com o crescimento econômico de Campo Grande, especialmente nas primeiras décadas do século XX, famílias mais abastadas passaram a investir em túmulos monumentais, transformando o cemitério em uma verdadeira galeria de arquitetura funerária.
Entre os artistas responsáveis por esse patrimônio está o escultor italiano Lelio Coluccini, que deixou sua marca no cemitério. Conhecido internacionalmente, Coluccini transitava entre o neoclassicismo e as tendências modernistas, produzindo obras que ultrapassaram os limites dos cemitérios.
“Ele realizou exposições em vários lugares do mundo. Uma das primeiras mostras realizadas no Copacabana Palace foi dele. Naquela época, tudo era feito manualmente. Não existiam máquinas para cortar a pedra. Era um trabalho totalmente artesanal, que exigia técnica e talento”.
O luxo também estava presente nos materiais utilizados. Durante muitos anos, o mármore de Carrara, importado da Itália, foi símbolo de prestígio entre as famílias mais ricas. As pedras chegavam ao Brasil por centros especializados, principalmente Campinas e Ribeirão Preto, antes de seguirem para diferentes cidades.

Mas a realidade começou a mudar após a Segunda Guerra Mundial. Com o aumento dos custos de importação, materiais como granito, granilite, azulejos e cerâmicas passaram a substituir o mármore em boa parte dos túmulos. Segundo Lilsson, essa mudança acabou democratizando a arte funerária.
“Famílias que antes não tinham condições de construir monumentos elaborados passaram a utilizar materiais mais acessíveis, mantendo a preocupação com a beleza e a preservação da memória”.
Mais do que demonstrar poder aquisitivo, essas construções revelam uma época em que a morte também era expressa por meio da arte. Cada detalhe, seja da escolha da pedra ao desenho das esculturas, refletia valores, crenças e a posição social de quem permanecia vivo.
A herança dos imigrantes
Os monumentos espalhados pelo Cemitério Santo Antônio também ajudam a compreender outro capítulo importante da história de Campo Grande: a chegada dos imigrantes.
Assim como aconteceu nas ruas da cidade, diferentes povos deixaram marcas no cemitério por meio da arquitetura, da simbologia religiosa e das tradições preservadas pelas famílias ao longo das gerações.
Construído a partir da história de brasileiros e estrangeiros que ajudaram a formar a Capital, o Santo Antônio reúne, em um mesmo espaço, diferentes culturas, crenças e costumes.
Entre elas, destaca-se a influência da comunidade oriental, considerada uma das mais importantes na formação econômica e social de Campo Grande. Com uma das maiores populações de descendentes de japoneses do país, a cidade também guarda essa herança entre os corredores do cemitério.
Muitos integrantes da comunidade estão sepultados no local, onde familiares preservam até hoje características tradicionais nos jazigos e nas lápides. As inscrições, formas arquitetônicas e elementos simbólicos contrastam com os túmulos construídos por outras comunidades no mesmo período, revelando a diversidade cultural que moldou a identidade campograndense.
Para os pesquisadores, caminhar pelo Santo Antônio é também percorrer a história da imigração em Mato Grosso do Sul.
Cada sobrenome, monumento ou detalhe arquitetônico ajuda a compreender como diferentes povos participaram da construção da cidade e preservaram suas tradições mesmo após mais de um século.
Quando os cemitérios deixaram de ser lugares de encontro
A forma como a sociedade se relaciona com os cemitérios também mudou profundamente ao longo do tempo. Se hoje esses espaços costumam ser associados apenas ao luto, no início do século XX a realidade era bastante diferente.
Além das visitas aos familiares, era comum que as pessoas utilizassem os cemitérios como locais de convivência. As alamedas serviam para caminhadas, encontros e conversas entre amigos e parentes, principalmente em datas religiosas. Com o passar das décadas, porém, essa relação foi desaparecendo.
Segundo o professor de história, o avanço da medicina e a mudança na forma como a sociedade passou a lidar com a morte contribuíram para afastar os cemitérios do cotidiano das pessoas.

“Até poucas décadas atrás, as pessoas adoeciam em casa, morriam em casa e eram veladas ali mesmo antes do sepultamento. Com o avanço da medicina, esse processo passou para os hospitais. A morte deixou de fazer parte do cotidiano das famílias e isso também mudou nossa relação com os cemitérios”.
A transformação também ficou evidente na arquitetura. Enquanto os cemitérios históricos eram planejados como parques, com avenidas largas, esculturas, jardins e monumentos, os espaços construídos nas últimas décadas passaram a privilegiar a simplicidade.
Os grandes mausoléus deram lugar a gramados extensos e placas padronizadas, refletindo uma sociedade que passou a valorizar projetos mais discretos e funcionais.

Para a mestranda em Antropologia Social pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Janaína Perozzi, essa mudança não diminui a importância dos cemitérios históricos. Pelo contrário.
Ela afirma que espaços como o Santo Antônio continuam sendo fundamentais para compreender a identidade coletiva da cidade.
“Os cemitérios possuem um enorme potencial interdisciplinar. São espaços de interesse público, capazes de discutir patrimônio, memória, arquitetura, antropologia, história e pertencimento. Eles ajudam a entender quem somos enquanto comunidade”.
Mais do que guardar pessoas, o Santo Antônio preserva marcas de diferentes períodos da história de Campo Grande. Cada túmulo, cada escultura e cada alameda ajudam a reconstruir a trajetória de uma cidade que cresceu ao redor de seus pioneiros e de seus imigrantes.
O cemitério como fonte de renda
Cada vez mais rara, a profissão de zeladora de túmulos ainda resiste no Cemitério Santo Antônio graças às famílias tradicionais, que mantêm o costume de conservar os jazigos em bom estado ao longo das décadas.
Uma dessas profissionais é Cirlene Vieira dos Santos. Ela aprendeu o ofício com as tias e os avós e transformou a atividade na principal fonte de renda da família. Agora, porém, percebe que essa história pode terminar em sua geração, já que os filhos seguiram outras profissões.
“Meu filho tem a profissão dele, minha filha também. Então acho que essa história termina comigo. A gente foi criado aqui desde criança. Trabalhei fora durante um tempo, mas quando saí passei a acompanhar minha mãe no trabalho”, contou.
A convivência diária com o cemitério também permitiu que ela acompanhasse uma mudança silenciosa: as visitas aos túmulos se tornaram cada vez menos frequentes.
“Você vê que não tem mais tanta identificação. As famílias vinham, ficavam horas e horas aqui, esperando os outros amigos, paravam, conversavam, sentavam. É uma coisa que agora deixou de existir. Eu acho que é muito pela tradição talvez da sociedade que está começando a se movimentar. Eu cuido de várias famílias desde o tempo do meu avô. Tem jazigo, túmulo que tem mais de 50 anos que está na minha família como o zelador”, disse.
Um patrimônio que continua contando histórias
Mais do que preservar túmulos centenários, o Cemitério Santo Antônio mantém viva parte da memória de Campo Grande.
Entre alamedas arborizadas, esculturas esculpidas à mão e sobrenomes que marcaram a formação da Capital, o espaço revela aspectos da imigração, da arquitetura, da religiosidade e da organização social que ajudaram a construir a cidade ao longo de mais de um século.

É justamente essa leitura que o projeto Cemitérios como Patrimônio Cultural pretende despertar nos visitantes. Ao longo da caminhada, o passeio convida o público a enxergar o local para além do silêncio e das despedidas. Cada túmulo, monumento ou detalhe arquitetônico passa a ser interpretado como um documento histórico capaz de explicar diferentes períodos da cidade.
“Quando a gente conhece a história de um lugar, também aprende a valorizá-lo e preservá-lo”, resume Fernando.
Mais do que um espaço de sepultamentos, o Santo Antônio permanece como um patrimônio coletivo, onde a memória da cidade continua escrita em pedra.
Serviço
As visitas guiadas são realizadas em datas marcadas. Entre os meses de agosto e outubro, está previsto um tour mensal.
As inscrições são gratuitas e serão abertas dias antes de cada edição por meio do perfil oficial do projeto Cemitérios como Patrimônio Cultural no Instagram. Clique aqui para ter acesso.
Durante o percurso, os participantes conhecem a história do cemitério, curiosidades sobre personagens importantes de Campo Grande, aspectos da arquitetura tumular, símbolos presentes nos monumentos e a influência de diferentes grupos sociais e imigrantes na formação da Capital.
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