Bairro São Conrado completa 47 anos e guarda homenagem a militares mortos em tragédia aérea que marcou MS
Jardim São Conrado foi criado em 31 de julho de 1979 e leva nomes de militares mortos em tragédia ocorrida em 1974 em Ponta Porã
Avenida General Alberto Carlos Mendonça Lima, Rua General Ângelo Irulegui Cunha, dentre outras vias. Quem passa pelas ruas do Bairro São Conrado dificilmente imagina que boa parte dos nomes das vias do bairro guarda a memória de um dos maiores desastres da história militar de Mato Grosso Sul, antes da divisão do Estado. No dia dos 47 anos do bairro, celebrado nesta sexta-feira (31), a reportagem do Primeira Página resgata a história por trás das homenagens que batizam mais de dez ruas da região.

Segundo a Prefeitura de Campo Grande, o loteamento denominado Jardim São Conrado foi aprovado em 31 de julho de 1979. Por ser um loteamento particular, o empreendedor e sua equipe técnica foram responsáveis pela escolha dos nomes das ruas.
Embora o município não tenha informado quem foi o proprietário, a reportagem apurou, com apoio da comunicação do Comando Militar do Oeste (CMO), que as denominações fazem referência aos militares mortos na tragédia aérea ocorrida em 18 de setembro de 1974, em Ponta Porã.
A tragédia que entrou para a história
Na manhã daquele dia, por volta das 7h30, um avião Buffalo C-115, da Força Aérea Brasileira (FAB), tentava pousar no aeroporto de Ponta Porã quando encontrou condições meteorológicas desfavoráveis. Sem conseguir aterrissar, a aeronave, onde estava a bordo o alto escalão militar de então Mato Grosso, iniciou procedimento para seguir até Campo Grande.

De acordo com relatos divulgados pela imprensa na época, poucos segundos após a decolagem, porém, o avião perdeu altitude cerca de 500 a 700 metros após o aeroporto, caiu sobre a Rua Comandante Cardoso e explodiu. O acidente matou 19 militares do Exército e da Aeronáutica, entre eles praticamente todo o Estado-Maior da então 9ª Região Militar e da 4ª Divisão de Cavalaria.
O único sobrevivente foi o segundo-sargento da FAB Shiro Ashiughi, retirado dos destroços pela moradora Delmira Villanova antes da explosão que destruiu completamente a aeronave. O militar sofreu amputação de uma das pernas.
O impacto foi tamanho que Ponta Porã e Campo Grande decretaram luto oficial por três dias. O comércio fechou as portas e autoridades civis e militares acompanharam as homenagens às vítimas.

Uma viagem de inspeção interrompida
De acordo com os registros da época, a comitiva era liderada pelo recém-empossado comandante da 9ª Região Militar, general Alberto Carlos Mendonça Lima, que realizava sua primeira viagem de inspeção pelas unidades militares sob seu comando.
A agenda previa visitas a Aquidauana, Nioaque e Bela Vista. Após pernoitar em Nioaque, a aeronave seguiu para Bela Vista, mas as condições do tempo impediram o pouso. A alternativa foi tentar aterrissar em Ponta Porã.
Sem visibilidade suficiente, o piloto, coronel José Hélio Macedo Carvalho, comunicou à torre de controle que seguiria para Campo Grande. Instantes depois, o Buffalo caiu antes de deixar a cidade.
Os nomes eternizados nas ruas
Entre as vítimas estavam oficiais de alta patente e militares que, anos depois, dariam nome a diversas ruas do São Conrado. Entre eles estão:
- General Alberto Carlos Mendonça Lima, comandante da 9ª Região Militar do Exército Brasileiro
- Coronel José Hélio Macedo Carvalho, comandante da Base Aérea de Campo Grande e piloto da aeronave
- General Ângelo Irulegue Cunha;
- Coronel Athos Prates da Silveira;
- Coronel Walter Gustavo Oschenek Ramos e Silva;
- Coronel Ilzio Cursini Cabral;
- Major José Pinto;
- Major Juarez Lucas de Jesus;
- Capitão Francisco Holanda Moura;
- Capitão Airton Pereira Rebouças;
- Capitão Mário Pio Pereira;
- Tenente Flávio José de Carvalho;
- Terceiro-sargento Severiano Francisco da Cruz;
- Terceiro-sargento Hércules Santos de Campos;
Além deles, também morreram o copiloto, primeiro-tenente Samuel Wagner Marques de Almeida, os sargentos Rubens Sumiyki Mizusaki e Jonas Sérgio de Oliveira, além dos taifeiros Ary Bartos e Nilo Pedro Francisco Lopes.

Uma homenagem preservada por quase cinco décadas
Cinco anos após o acidente, quando o Jardim São Conrado foi implantado, os responsáveis pelo loteamento escolheram eternizar a memória daqueles militares nas placas das ruas do bairro.
Hoje, quase meio século depois, milhares de moradores circulam diariamente por vias como Alberto Carlos Mendonça Lima, Mário Pio Pereira, José Hélio Macedo Carvalho e Airton Pereira Rebouças sem saber que esses nomes pertencem a homens que perderam a vida em uma missão oficial e protagonizaram uma das maiores tragédias aéreas já registradas em Mato Grosso.
Assim, ao completar 47 anos de história, o São Conrado preserva não apenas um dos bairros mais tradicionais de Campo Grande, mas também um importante capítulo da memória militar e da história de Mato Grosso do Sul.

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