“Um dia ela já cuidou de mim”: Mãe e filha enfrentam doença grave juntas e dividem rotina na internet
Luane assumiu os cuidados da mãe e passou a compartilhar a rotina de Ivanete com epilepsia nas redes sociais
Aos 57 anos, Dona Ivanete Oliveira convive há mais de três décadas com epilepsia do lobo temporal de difícil controle, condição que, segundo a sua filha Luane Oliveira, também trouxe declínio cognitivo e alterações psiquiátricas relacionadas ao humor e à percepção.
Há quatro anos, depois de uma longa internação que agravou o quadro, Luane assumiu os cuidados da mãe. Desde então, a vida das duas campo-grandenses passou a ser organizada em torno de uma doença que não permite muitos planos.
Ivanete teve as primeiras crises de epilepsia antes mesmo da filha nascer. Ao longo dos anos, a doença passou a interferir em atividades cotidianas e na autonomia da mãe. Hoje, segundo Luane, as crises acontecem quase todos os dias.
“Nossa rotina é bem difícil porque nunca sabemos quando uma crise pode acontecer”, relata a filha.

Redes sociais deram visibilidade à história
Foi assim que Luane criou um perfil para a mãe nas redes sociais, que já alcançou mais de 16 mil seguidores.
No começo, o plano era registrar momentos felizes da família, mas Luane percebeu que a rede social poderia ajudar a história da mãe com a epilepsia a alcançar mais pessoas.

A rede social passou a ser abrir caminhos para que Ivanete tivesse acesso a mais qualidade de vida e pudesse realizar alguns sonhos, além de ajudar nas despesas relacionadas ao tratamento.
A exposição da rotina também aproximou a família de pessoas que vivem situações parecidas. Segundo a filha, são frequentes as mensagens de carinho, relatos e dicas enviadas por seguidores.
A própria Ivanete passou a gostar dos registros e mesmo com as limitações causadas pela doença, ela gosta de ser filmada.

Para Luane, a maior importância está em transformar a visibilidade em possibilidades para a mãe.
“Eu quero que ela consiga ter o restinho da vida dela assim, mais tranquila e feliz possível e confortável, e que não falte dinheiro para o tratamento, dinheiro para as coisas em casa”, afirma.
Filha virou cuidadora da mãe
A decisão de assumir os cuidados de Ivanete não veio acompanhada de grandes planos. Para Luane, cuidar da mãe foi uma consequência do vínculo entre as duas.
“Eu decidi me tornar a cuidadora porque sou filha, e o meu maior desejo é ver minha mãe bem, feliz”, afirma.
A rotina exige bastante força, Luane precisa lidar com a instabilidade do quadro, as dificuldades para sair de casa com a mãe e as situações em que pessoas que não conhecem a doença acabam julgando comportamentos de Ivanete.
“O que posso oferecer hoje é o meu amor e cuidado e força para enfrentar os desafios que a doença nos traz diariamente”, finaliza Luane.
Ao mesmo tempo, ela precisa trabalhar e manter a própria família. As duas vivem com a filha de Luane, de 11 anos, formando uma família de três mulheres.
“Hoje eu trabalho, mas até quando irei conseguir sair para trabalhar?”, questiona.
Mesmo com o atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a família ainda tem despesas relacionadas ao tratamento e às necessidades básicas da casa. Para Luane, essa é uma das partes mais difíceis de administrar.
“Temos dias bem difíceis que, se não for Deus e a fé, nos abalamos também”, conta.
Doença mudou rotina mas família se adaptou
Segundo a Liga Brasileira de Epilepsia (LBE), com a doença uma parte do cérebro emite sinais incorretos durante um período do tempo. Os sinais podem ficar restritos a esse local ou se espalhar.
As crises variam, em algumas a pessoa parece “desligada” por alguns instantes e pode retomar o que estava fazendo em seguida. Já em outras situações, a pessoa pode ter distorções de percepção ou movimentos descontrolados de uma parte do corpo além de outros sintomas, de acordo com a LEB.

Apesar da rotina de conviver com a doença, nem todos os dias são difíceis. Luane conta que ver a mãe feliz, animada e bem é o que dá força para seguir.
“Ver minha mãe feliz, animada, não nos faltando nada, me dá força para continuar, vestir a camisa e correr atrás do melhor para ela”, conta.
A família também tenta levar a rotina com humor, mesmo diante das dificuldades. “Eu procuro sempre levar a vida com humor, porque a energia muda”, explica.

A fé também ocupa um lugar importante na forma como elas enfrentam os desafios. A filha conta que quer que a história da mãe deixe uma mensagem para quem acompanha as duas.
“Apesar de tudo, não podemos perder a fé, nunca. Deus sempre abre portas, envia pessoas. De um jeito ou de outro, temos motivo para sorrir, ser gratos e continuar. Eu quero que minha mãe vença, eu quero que minha mãe seja feliz”, afirma.
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