Mãe de Marias, Milene "entregou filha" e viveu 5 meses dentro de UTI
A fé das mães de UTI é inabalável e se alimenta a cada grama que prematuro ganha
O relato de Milene é de emocionar e traz alento às mães que esperam pelo dia da alta dentro de uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Nascidas de 26 semanas e consideradas prematuras extremas, Maria Cecília e Maria Flor chegaram ao mundo repentinamente, na Maternidade Cândido Mariano, em Campo Grande (MS), no dia 5 de setembro de 2022, pesando pouco mais de 600g cada uma.

O Ministério da Saúde calcula que cerca de 340 mil bebês nascem prematuros todo ano no Brasil, o que significa que a cada 10 minutos, seis prematuros equivalente a seis partos a cada dez minutos. Em Mato Grosso do Sul, dos 23.991 nascidos vivos entre janeiro e outubro de 2022, 3.356 são prematuros.
Do nascimento da primeira, Maria Cecília, a mãe não se lembra, “ficou tudo preto”, diz Milene Echeverria, assistente de 35 anos. A gêmea 1 foi a mais atingida pela infecção urinária silenciosa que acometeu a mãe sem demonstrar sintoma algum. Da segunda, Maria Flor, a imagem que vem à cabeça é dos pezinhos, os mesmos que ilustram a matéria.

Apesar de já estar internada e medicada na tentativa de “segurar” as gêmeas, as contrações seguiram, a dilatação veio e Maria Cecília estava “encaixada”. O parto foi normal, mas a mãe precisou passar por uma cirurgia para retirar a placenta. Por isso, o encontro entre mãe e filhas aconteceu somente um dia depois do nascimento.
A prematuridade não é inédita na vida de Milene, “entregar um filho para Deus” também não. Diagnosticada com endometriose e adenomiose, a assistente perdeu o primeiro bebê ainda na gestação. Como “bebê arco-íris” veio Pedro, três anos atrás, que nasceu prematuro. No entanto, era um pouco maior que as irmãs e teve alta com 30 dias de vida. A gestação das gêmeas veio de surpresa, sem que a mãe passasse por algum tratamento ou fertilização, e desde o começo teve acompanhamento de perto com especialistas.
Na manhã seguinte ao nascimento, Milene conheceu as filhas sabendo do risco que as três encaravam. “Eu sabia que elas podiam não sobreviver. Eu já tinha passado isso com o Pedro e ouvido muitas histórias. Então, eu tinha medo, mas eu confiava muito também, e começamos a pedir oração para todo mundo que a gente conhecia”, recorda.
A luta de Maria Cecília, a primeira gêmea, durou 10 dias. De 5 de setembro ao dia 15 do mesmo mês.
“Eu vi o quanto ela estava sofrendo, pedi pra Deus fazer o que fosse melhor pra ela, e não pra mim. Depois de 10 dias a gente devolveu ela para Deus. A gente fala assim porque antes de ser nossa ela já era dos céus. Eu nunca imaginei ficar grávida de gêmeos naturalmente, isso nunca passou pela minha cabeça, mas Deus sempre soube. Ele quem colocou elas na minha vida e ele que tirou. Tudo na vida tem um propósito. Não sei o nosso ainda, mas acredito que um dia a gente vai descobrir”, reflete a mãe.
Dali em diante, a luta passou a se concentrar na Maria Flor e no filho que esperava em casa pelas irmãs, Pedro. O dia a dia de Milene passou a ser maternidade – casa – casa – maternidade.
Sabe aquela máxima de que “nasce uma mãe, nasce uma culpa?” No caso de Milene, o sentimento era um dose dupla. “Eu me sentia muito culpada por tudo o que tinha acontecido com as meninas, culpada pelo Pedro, e eu sempre tive muito apoio da família, nossos amigos, a escola dele…”, recorda.

À espera
“Não via a hora de passar um mês com a Maria Flor”. A frase trazia esperança à mãe que comemorava cada grama conquistada da filha. Apesar do estado de saúde da bebezinha ser estável, era considerado grave pelos médicos. “Foi um mês bem crítico que eu queria que passasse logo, ela chegava até 75% no respirador, e sempre tinha uma coisa ou outra. Ela fez um mês e a luta continuou”, narra Milene.
Por ser prematura extrema, Maria Flor passou 70 dias intubada, mais o tempo ligada à aparelhos, até começar o desmame. Nos dias em que o medo batia à porta, a mãe segurava para que as lágrimas caíssem só quando deixasse a UTI.
“Sempre foi uma troca entre nós. Quando eu comecei a perceber que eu não podia fracassar que ela sentia também, a gente ficou muito forte juntas, fortes ao extremo. Eu olhava pra ela e ela conseguia me passar ‘mamãe, a gente vai conseguir’. Coloquei meu joelho no chão e rezei, foi um tempo muito importante de aprendizado, de lição de vida. Com a Maria Flor eu aprendi a ser mais grata, a ser mais forte, como eu não imaginava que era possível. E não era eu, era Deus me sustentando”, descreve.
Em cinco meses de internação, Maria Flor comemorou “mesversários”, festejou quando chegou a 1kg, viu a Copa do Mundo acontecer, conheceu e recebeu muitos colos, passou Natal e Ano Novo. A menina que nasceu com com 650g às 8h16 daquela segunda-feira, 5 de setembro, teve alta no último dia 3 de fevereiro.

Num misto de ansiedade, medo e felicidade, como define a própria mãe, Milene deixou a Cândido Mariano às 16h30 com Maria Flor nos braços após 150 dias de UTI, pesando 2.415kg e com 46 cm.
“Cinco meses de luta, cinco meses com uma equipe excelente. Falar deles até me emociona, porque eu não confiava só em Deus, mas na equipe de médicos, enfermagem, técnicas de enfermagem, fisioterapeutas, e todos que passaram por ali e tocaram nela. As mãos dos profissionais eram as mãos de Deus tocando a minha filha. A Maria Flor é minha filha, e também deles”.
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