O curioso túmulo de Campo Grande que atraía peregrinações por causa de uma 'água milagrosa'

Jazigo em formato de capela virou ponto de peregrinação por mina aos pés de santa

Quem caminha pelos corredores do Cemitério Santo Antônio, em Campo Grande, pode passar despercebido por um dos jazigos mais curiosos e simbólicos da história da cidade. Construído com pedras naturais da região e em formato de capela, o túmulo já foi destino de peregrinações por causa de uma característica que alimentava a fé de muitas famílias, a água que escorria aos pés da santa e era considerada milagrosa por visitantes.

Embora o fenômeno não fosse natural, o monumento tornou-se um importante ponto de devoção popular durante anos e hoje faz parte do projeto “Cemitérios como Patrimônios Culturais”, que busca preservar a memória e o patrimônio histórico existente nos cemitérios da capital.

Segundo o administrador do Cemitério Santo Antônio, geógrafo e coordenador do projeto, Lilsson Souza, a arquitetura do jazigo o diferencia dos demais existentes no local.

“O túmulo utiliza materiais naturais presentes na nossa região, como arenito e quartzo. Além disso, foi construído no formato de capela, com um oratório onde fica a imagem sacra”, explica.

A água que atraía fiéis

Tumulo tinha mina de água e atraía religiosos
Tumulo tinha mina de água e atraía religiosos (Foto: Antonio Bispo)

O elemento que mais despertava a curiosidade dos visitantes era a água que escorria aos pés da imagem religiosa, formando um pequeno riacho.

No entanto, segundo Lilsson, a água não brotava naturalmente. O efeito era produzido por um sistema instalado pela própria família responsável pelo túmulo, composto por uma caixa d’água e um pequeno motor que mantinha a circulação.

Mesmo assim, a estrutura passou a atrair pessoas movidas pela fé.

“Durante um período, muitas famílias vinham até aqui para fazer orações e coletavam um pouco da água para levar para casa. Existem relatos de pessoas que acreditavam ter sido curadas de doenças após visitar esse túmulo”, conta.

Com o passar dos anos e a ausência de familiares responsáveis pela manutenção, o sistema deixou de funcionar e o monumento passou a sofrer com a ação do tempo.

Além da importância religiosa, o jazigo também possui valor arquitetônico e histórico.

Durante as pesquisas desenvolvidas pelo projeto, a equipe descobriu que o responsável pela construção foi o mesmo profissional que executou os tradicionais mosaicos em pedras portuguesas das calçadas das avenidas Afonso Pena e Mato Grosso.

“Nós conseguimos localizar um dos filhos do construtor, que contou essa história. É interessante perceber que o mesmo profissional que ajudou a construir parte da identidade visual da cidade também deixou sua marca dentro do cemitério. Isso reforça a relação entre a história urbana e o patrimônio cemiterial”, afirma Lilsson.

Apesar da riqueza arquitetônica da obra, os pesquisadores não encontraram registros que indiquem que o casal sepultado no local ocupava posição de destaque na sociedade da época.

Projeto quer restaurar túmulos históricos

A preservação desse e de outros monumentos faz parte das ações do projeto Cemitérios como Patrimônios Culturais, desenvolvido para identificar, documentar e recuperar jazigos de relevância histórica.

A iniciativa busca estabelecer parcerias com universidades e instituições especializadas para viabilizar as restaurações.

“Quando um patrimônio como esse se perde, não conseguimos reproduzi-lo. Os materiais, as técnicas construtivas e até o conhecimento utilizado na época já não existem da mesma forma. Por isso, preservar é também preservar a história de Campo Grande”, destaca o coordenador.

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