Patrimônio vivo: 294 imóveis históricos são catalogados em Campo Grande
Imóveis protegidos por lei reforçam a preservação da memória e da identidade cultural da capital sul-mato-grossense
Casas e prédios que resistiram ao tempo: assim se constrói a memória de uma cidade. Em Campo Grande, 294 imóveis de relevância histórico-cultural agora estão reunidos em um catálogo. Protegidos por lei, eles não podem ser demolidos nem modificados sem aval do poder público, e ajudam a contar quem fomos, para entender quem somos.

Todos eles fazem parte da chamada Zeic (Zona Especial de Interesse Cultural), área definida pelo Plano Diretor da cidade para preservar construções que marcam a identidade urbana da capital.
Embora não sejam tombados, esses imóveis não podem ser demolidos ou alterados sem autorização do poder público. Agora, todos estão catalogados oficialmente, em uma iniciativa que busca valorizar a memória urbana da capital sul-mato-grossense.
Cada zona é delimitada pelo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental de Campo Grande e reúne imóveis com importância histórica, cultural e arquitetônica. Os prédios não são tombados, mas são legalmente protegidos. Isso significa que qualquer intervenção, desde uma reforma até uma demolição, precisa ser aprovada previamente.
“Esses imóveis são reconhecidos pelo plano diretor de campo grande como detentores de relevância histórico cultural, ou seja, eles são protegidos pela legislação e pela constituição federal. Esses imóveis fazem parte da história cultural de Campo Grande.”
Luz Marina Borges Maciel, promotora de Justiça

Entre os imóveis catalogados estão construções emblemáticas, como a Paróquia São Francisco de Assis, na Rua 14 de Julho. Com estilo neocolonial, vitrais vindos de São Paulo e projeto do arquiteto frei Valfrid Stähle, a igreja é um dos cartões-postais da cidade.

Mas há também exemplos de descuido. Prédios antigos localizados nas ruas Treze de Maio e 14 de Julho enfrentam problemas como pichações, sujeira, mato alto e abandono. Essas condições não só comprometem a paisagem urbana como representam risco ao patrimônio histórico.
O descumprimento das regras pode resultar em responsabilizações administrativas, penais e civis. De acordo com o Ministério Público, danificar, demolir ou alterar imóveis protegidos sem autorização é considerado crime. Além disso, os proprietários podem ser obrigados a reparar os danos e indenizar a sociedade pelo prejuízo cultural.
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Nem todo imóvel antigo precisa virar ruína. Uma casa de 71 anos na rua Padre João Crippa, por exemplo, estava prestes a ser demolida quando o proprietário descobriu que ela fazia parte da Zeic. Em vez de destruir, ele contratou um projeto de restauro.
A arquiteta Tathyane Sangalli, especialista em patrimônio histórico, coordenou a reforma:
“O imóvel estava em um estado de quase ruína, ele praticamente não tinha cobertura, o forro já estava completamente danificado. O proprietário inclusive havia comprado esse imóvel para demolir e no decorrer do processo ele percebeu que era um imóvel em Zeik e que não poderia demolir esse imóvel, então ele nos contratou para fazer o projeto de restauro, readequação, requalificação, porque ele sempre funcionou como uma residência e a ideia dele era transformar no espaço para alocação.”
Tathyane Sangalli, arquiteta

Durante o processo, o projeto arquitetônico preservou alguns elementos da casa, como o piso, que não foi retirado e passou por uma restauração. As portas também foram recuperadas e revitalizadas.
Além disso, houve um cuidado maior com as paredes, já que a estrutura não é de concreto, e sim de cal e areia, o que exigiu tintas específicas e a instalação de tomadas sobre a superfície, por exemplo.
Apesar da preservação da estética antiga, a restauração também incorporou elementos contemporâneos na arquitetura da casa, um trabalho de conservação e de defesa do patrimônio histórico-cultural.
O catálogo com os 294 imóveis é mais do que um registro técnico. É um instrumento de proteção, fiscalização e educação patrimonial. Ao mapear e divulgar essas construções, o Ministério Público busca garantir que a história de Campo Grande continue visível nas ruas e presente no cotidiano da população.
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