Historiador que escreveu livro sobre Totó Paes defende preservação da Usina Itaicy: 'conta a história de MT'
Em nova visita à Usina Itaicy, Alfredo da Mota Menezes defende a preservação do patrimônio histórico e levanta uma hipótese inédita sobre a queda do ex-governador.
Historiador e autor de um dos principais livros sobre Totó Paes, Alfredo da Mota Menezes voltou à antiga Usina Itaicy, em Santo Antônio do Leverger (MT), e fez um apelo pela preservação do complexo histórico. Para ele, o patrimônio reúne elementos que ajudam a explicar a industrialização e um dos períodos mais conturbados da política de Mato Grosso.
Autor do livro “A Morte de Totó Paes: Política no Interior do Brasil“, lançado originalmente em 2007 e reeditado em 2022, Menezes esteve na usina fundado por Totó Paes pela terceira vez. Além de registrar o estado de conservação do complexo, o historiador aproveitou a visita para reforçar um apelo antigo: transformar a antiga usina em um patrimônio preservado e acessível ao público.

Segundo ele, o conjunto formado pela usina, pela antiga residência de Totó Paes e pelas construções onde viviam trabalhadores representa um importante capítulo da industrialização e da política mato-grossense.
Um personagem que ainda desperta interesse
Professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e doutor em História da América Latina e dos Estados Unidos, Alfredo da Mota contou que sua trajetória acadêmica sempre esteve voltada à história continental. O livro sobre Totó Paes, segundo ele, surgiu da vontade de pesquisar um tema genuinamente mato-grossense.
“Eu não tinha nenhum livro sobre Mato Grosso. O assunto do Totó Paes sempre era muito comentado em Cuiabá, nas conversas, nas mesas de bar. Resolvi escolher justamente um tema que mobilizava a memória local”, explicou em entrevista ao Portal Primeira Página.
Para o historiador, a trajetória de Totó Paes ajuda a compreender as disputas pelo poder durante os primeiros anos da República. Ele lembra que o empresário chegou ao governo do Estado com o apoio das principais lideranças políticas da época, como Generoso Ponce e Joaquim Murtinho, mas rompeu com o grupo que o levou ao cargo ao construir uma base política própria.

“Foi a primeira vez que um governador economicamente independente não aceitou se submeter aos caciques políticos que o elegeram. Isso provocou uma reação que culminou na revolução de 1906 e na morte de Totó Paes”, afirmou.
Uma nova hipótese de pesquisa
Durante a visita à usina, Menezes também voltou a comentar uma hipótese que considera promissora para futuras pesquisas históricas, embora faça questão de ressaltar que ela não possui comprovação documental.
Segundo ele, um dos aspectos pouco explorados da história envolve a origem do maquinário da Usina Itaicy.
No início do século XX, Totó Paes obteve financiamento britânico para estruturar o empreendimento, mas optou por adquirir equipamentos industriais da Alemanha. Técnicos alemães vieram a Mato Grosso para montar as máquinas e permaneceram na usina auxiliando sua operação.
Na avaliação do historiador, esse episódio pode ter desagradado interesses ingleses em um período de forte disputa econômica entre as duas potências europeias pela influência na América do Sul.
“Não existe nenhum documento encontrado até hoje que comprove isso, mas se algum dia aparecer um registro em arquivos ingleses mostrando algum interesse da Inglaterra na deposição de Totó Paes, essa história deixaria de ser apenas regional e passaria a ter também uma dimensão internacional”, reivindicou o historiador.
Menezes destaca, entretanto, que essa possibilidade permanece apenas no campo das hipóteses e dependeria de novas pesquisas em acervos estrangeiros para ser confirmada.

Patrimônio e memória
Construída às margens do Rio Cuiabá, a Usina Itaicy foi considerada uma das mais modernas de Mato Grosso no início do século XX e simbolizava o poder econômico de Antônio Paes de Barros. O empreendimento sobreviveu ao tempo e ainda preserva parte do maquinário original, além de edificações históricas que permanecem de pé.
Para o historiador, preservar esse patrimônio significa manter viva uma parte importante da história política, econômica e industrial de Mato Grosso.
“A usina continua lá. O maquinário continua lá. Aquilo ajuda a contar uma parte importante da história do Estado e não deveria desaparecer com o passar do tempo”, concluiu.
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Comentários (3)
Fiquei encantado quando conheci. Possivelmente na Academia Mato-grossense de Letras tenha algum registro do empreendimento, já que Totó Pães era ligado ao Professor José Magno da Silva Pereira, membro daquela academia.
O professor Alfredo está certíssimo. O patrimônio que ainda resta da Usina deveria ser preservado, recuperado em suas formas originais, e sua história registrada e contada para o público. As escolas, de todos os níveis, deveriam levar lá seus alunos e também liberar a visitação pública, para conheceram um dos patrimônios mais significativos da história de MT.
Há muitos anos isso já deveria ter sido feito.
Ao professor: escreva um livro, com todos os detalhes possíveis, sobre a usina em si pois sobre Totó Paes o sr. já escreveu.
Aquilo lá é uma joia que permanece escondida no MT.
Agora é a ora de todos os candidatos colocaram nas plataforma de governo a recuperação, restauração, revitalização da usina pra ser explorada cientificamente, turisticamente. Pois pra roubarem eles são bons, agora para aplicar são rui s demais e só fazem isso na eminência do retorno, não político, mais sim, financeiro. Essa é que é a grande realidade gurizada.