Língua que quase desapareceu volta a ser falada por crianças indígenas em MT

Projeto envolveu cerca de 400 indígenas e recuperou registros do idioma Apiaká para que a língua ancestral volte ao cotidiano das novas gerações.

Onça já não é apenas ‘onça’. Para algumas crianças do povo Apiaká, que vive em Juara (MT), ela agora também é ‘sawara’. Cachorro virou ‘awara’. Palavras que por décadas quase não foram ouvidas nas aldeias começam a ocupar novamente as conversas das novas gerações em Mato Grosso.

É um movimento que representa mais do que aprender um novo vocabulário. Depois de décadas sem falantes nativos, a língua Apiaká começa a ser recuperada por um povo que viu o próprio idioma chegar à beira do desaparecimento. “Tem crianças que já não falam mais ‘onça’, falam ‘sawara’; não falam mais ‘cachorro’, mas sim ‘awara’. Isso é muito gratificante”, conta Rafael Morimã, monitor do projeto de revitalização da língua.

Rafael Morimã, monitor do projeto de revitalização da língua Apiaká, celebra o retorno do idioma ao cotidiano das crianças indígenas em Juara (MT).
Rafael Morimã, monitor do projeto de revitalização da língua Apiaká, celebra o retorno do idioma ao cotidiano das crianças indígenas em Juara (MT). – Foto: TVCA

O resultado começa a devolver aos Apiaká algo que durante muito tempo foi silenciado: a possibilidade de se apresentar ao mundo usando as próprias palavras. “Eu sou Apiaká, eu falo minha língua”, resume Rafael.

Uma língua que quase deixou de ser ouvida

O desaparecimento gradual do idioma acompanha uma história marcada pela perda de referências e pela estigmatização da própria língua.

Segundo Rafael, durante gerações os Apiaká foram levados a apagar parte de suas memórias e práticas culturais. Com cada vez menos pessoas dominando o idioma, palavras, expressões e conhecimentos transmitidos oralmente também ficaram ameaçados. “Antigamente a gente não tinha gramática, não tinha nada, pouco material. Hoje a gente tem muito material para ensinar”, afirma.

Professora Suseile Sousa participou do trabalho de revitalização da língua Apiaká e destaca a importância do idioma para a identidade do povo.
Professora Suseile Sousa participou do trabalho de revitalização da língua Apiaká e destaca a importância do idioma para a identidade do povo. – Foto: TVCA

A professora Suseile Sousa conta que o impacto desse processo ainda podia ser percebido entre os próprios indígenas. Alguns tinham vergonha de falar palavras do idioma e chegaram a tratá-lo como uma “gíria”. “Eles foram acostumados a estigmatizar a própria língua, até para também não serem mortos”, explica.

Para ela, uma das principais transformações provocadas pelo trabalho de revitalização foi justamente a mudança na maneira como os próprios Apiaká enxergam o idioma. “Já entendem a importância dela, já entendem que é identidade Apiaká”, afirma.

O encontro com um dos últimos falantes

Parte do caminho para recuperar a língua começou longe das salas de aula das aldeias. Em 2008, pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) passaram a estudar o idioma e a registrar o conhecimento que ainda permanecia vivo entre integrantes mais velhos da comunidade.

A professora Ana Sueli Cabral, da UnB, teve a oportunidade de trabalhar com Pedrinho, apontado por ela como o último falante pleno da língua Apiaká. A partir desse contato, palavras, sons e outros elementos do idioma foram registrados e preservados.

Anos depois, esse acervo se tornaria uma das bases para fazer o caminho inverso: tirar o conhecimento dos arquivos acadêmicos e devolvê-lo ao povo ao qual pertence. “O objetivo desse projeto era resgatar o que ainda fosse possível encontrar e identificar nos materiais e nos arquivos, inclusive no Laboratório de Línguas Indígenas da Universidade de Brasília”, explica Ana Sueli.

Segundo ela, quando surgiu a oportunidade de usar esse conteúdo em um projeto com os Apiaká, a equipe aceitou imediatamente. “Para a gente é muito interessante devolver o que coletamos para os indígenas”, afirma.

Crianças do povo Apiaká, em Juara (MT), voltam a usar palavras da língua ancestral após décadas sem falantes nativos.
Crianças do povo Apiaká voltaram a usar palavras da língua ancestral após décadas sem falantes nativos. – Foto: TVCA

400 indígenas envolvidos na retomada

O material reunido ao longo dos anos passou a fazer parte de um ciclo de formação e revitalização cultural realizado em uma aldeia de Mato Grosso.

Durante dois anos, cerca de 400 indígenas participaram das atividades. O trabalho não ficou restrito à memorização de palavras. Foram incorporados elementos da cultura Apiaká e desenvolvidos materiais que poderão ser usados para que o ensino do idioma continue dentro da própria comunidade.

Diretor da Escola Indígena Apiaká Sawara, Edinaldo Silva Kamassuri Apiaká explica que um dos objetivos é produzir materiais didáticos e paradidáticos que permitam avançar no processo de alfabetização na língua ancestral.

A comunidade já mantinha manifestações como cantos e danças, mas ainda faltavam instrumentos para trabalhar de maneira estruturada a escrita e os sons do idioma. A intenção é que esse conhecimento permaneça na escola e possa alcançar sucessivamente novas gerações.

Mais que palavras, uma identidade recuperada

Para quem acompanhou a língua desaparecer do cotidiano, voltar a ouvi-la tem também um significado emocional.

Vice-presidente da Associação Indígena Apiaká Sawara, Ivenaldo Paleci Apiaká lembra que a comunidade perdeu os antepassados que ainda guardavam conhecimentos do idioma. “A gente estava ali já esquecido da língua. A gente perdeu os nossos antepassados que falavam”, conta.

Por isso, recuperar registros e ensinar novamente o idioma significa também reconstruir uma ligação interrompida entre diferentes gerações. “Para nós é muito importante. Traz o nosso registro, nossa tradição, traz a nossa identidade original de volta. Para nós, isso é tudo”, afirma Ivenaldo.

A recuperação da autoestima também é apontada pelos envolvidos como um dos principais resultados do projeto. Uma língua que chegou a ser motivo de constrangimento passa novamente a ser motivo de pertencimento.

O desafio agora é fazer a língua permanecer viva

Ensinar palavras e produzir material didático é apenas parte do processo. Para que uma língua sobreviva, ela precisa ultrapassar os limites das oficinas e das salas de aula.

O desafio dos Apiaká agora é fazer com que o idioma seja usado dentro de casa, nas conversas entre crianças e adultos e nas atividades cotidianas da comunidade. É justamente por isso que uma criança substituir espontaneamente ‘onça’ por ‘sawara’ carrega tanto significado.

Cada palavra recuperada ajuda a reconstruir uma ponte com gerações que já se foram e, ao mesmo tempo, cria condições para que aquelas que ainda virão não precisem conhecer a língua Apiaká apenas por meio de registros históricos.

O projeto contou com apoio da Axia Energia. Segundo o gerente de impacto social da empresa, Pedro Villela, a iniciativa está alinhada à Década Internacional das Línguas Indígenas, estabelecida pela Unesco para o período de 2022 a 2032.

Para os Apiaká, porém, o resultado mais concreto já pode ser ouvido na aldeia. Depois de décadas em que sua língua esteve perto do silêncio, novas vozes começam a pronunciá-la. E são justamente as crianças que ajudam a garantir que palavras como “sawara” e “awara” não voltem a desaparecer.

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