Aluguel por temporada cresce em MT, movimenta bilhões e gera debate sobre regras em condomínios

Crescimento das locações por aplicativos impulsiona a economia, mas aumenta conflitos entre moradores e proprietários.

Alugar um apartamento por alguns dias, por meio de aplicativos, se tornou uma alternativa para quem busca hospedagem mais econômica e também uma fonte de renda para milhares de proprietários. O modelo de aluguel por curta temporada cresce em todo o país, movimenta bilhões de reais por ano e impulsiona o comércio e o setor de serviços. Ao mesmo tempo, a modalidade tem provocado discussões sobre segurança, convivência e os limites desse tipo de locação dentro de condomínios residenciais.

Em Cuiabá, um apartamento de um quarto, com sofá-cama na sala, localizado no bairro Morada do Ouro, é anunciado por R$ 250 a diária. O valor atrai viajantes que precisam de hospedagem por poucos dias e garante uma renda extra ao proprietário.

Em um dos condomínios onde esse tipo de locação é comum, cerca de 40% dos apartamentos estão disponíveis para aluguel por temporada. O gestor de locações Carlos Eduardo Galvão administra sozinho 29 imóveis e afirma que o mercado cresceu rapidamente.

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Aluguel temporário de apartamentos vira opção de renda em Cuiabá. – Foto: divulgação

Segundo ele, tudo começou quando decidiu alugar um quarto de hóspedes para complementar a renda.

“Eu comecei alugando o meu quarto de visitas, quando morava em um apartamento de dois quartos. Precisava fazer uma renda extra e, como já utilizava a plataforma para me hospedar, enxerguei essa oportunidade. Coloquei o quarto para locação e, daí para frente, foi só aumentando”, relata.

Mercado bilionário

Dados da Fundação Getulio Vargas (FGV), com base em informações de 2024, mostram a dimensão desse mercado. Em apenas um ano, a locação de imóveis por temporada movimentou quase R$ 100 bilhões no Brasil e sustentou aproximadamente 630 mil empregos.

O levantamento também aponta um forte efeito na economia. A cada R$ 10 gastos com hospedagem, outros R$ 52 são movimentados em segmentos como restaurantes, supermercados, transporte, comércio e serviços.

Crescimento traz novos desafios

Apesar do avanço da modalidade, o aumento da circulação de hóspedes em condomínios residenciais também trouxe conflitos.

Moradores relatam problemas como excesso de barulho, uso indevido de áreas comuns, ocupação irregular de vagas de garagem e preocupações relacionadas à segurança, já que pessoas diferentes entram e saem constantemente dos edifícios.

Esses conflitos passaram a chegar ao Judiciário.

Em maio deste ano, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que condomínios residenciais podem restringir ou até impedir o aluguel por curta temporada quando a atividade alterar a destinação do imóvel e tiver características de hospedagem comercial.

Segundo o advogado Vinícius Scalzitti, a decisão representa um avanço, mas ainda não cria uma regra válida para todos os condomínios do país.

“O Brasil não possui uma legislação específica para o aluguel de curta temporada por aplicativos. As leis existentes foram criadas antes desse mercado surgir. O STJ entendeu que, quando o proprietário explora o imóvel de forma repetida e profissional para hospedagens de curta duração, isso deixa de ser apenas uma moradia e passa a alterar o perfil do condomínio”, explica.

De acordo com ele, nesses casos, a alteração depende da aprovação de pelo menos dois terços dos condôminos, conforme entendimento firmado pelo tribunal.

plantas apartamento
Aluguel de apartamentos por temporada divide opiniões e gera discussão sobre regras condominiais. – Foto: reprodução

Regras internas

Enquanto não existe uma legislação específica, muitos condomínios têm criado normas próprias para tentar equilibrar o direito do proprietário de explorar economicamente o imóvel com a tranquilidade dos moradores.

O síndico Antônio França afirma que o condomínio onde atua já enfrentou situações envolvendo barulho fora do horário permitido e utilização irregular de vagas de garagem por hóspedes.

Para reduzir os problemas, foram adotados protocolos rígidos de identificação.

“Todo hóspede precisa informar nome completo, CPF, dados do veículo e outras informações antes da entrada. Quando chega à portaria, esses dados são conferidos e ele é direcionado apenas para a unidade e a vaga autorizadas”, explica.

A discussão sobre o aluguel por temporada ainda está longe de um consenso. Enquanto proprietários defendem a atividade como uma importante fonte de renda e um impulsionador da economia, moradores cobram regras que garantam segurança e preservem a característica residencial dos condomínios.

Reportagem de Eunice Ramos. – Vídeo: reprodução/TVCA

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