Cuiabá ainda tem ouro? Descoberta levanta dúvida e lembra ‘era dourada’
Fragmentos encontrados em área urbana levantam questionamentos sobre a presença de ouro no subsolo da capital mato-grossense.
Se poucos têm a sorte de dizer que nasceram em berço de ouro, a capital mato-grossense é detentora desse privilégio. Fundada sob a exploração de um dos minerais mais cobiçados, Cuiabá tem suas raízes históricas fixadas na extração do ouro há 307 anos. Mas há quem se pergunte: depois de tantos séculos, ainda tem ouro no solo da capital?

Foi esse questionamento que fez com que o morador de Sapezal (MT), Eliston Guarda, de 36 anos, viajasse até a capital tirar a dúvida na prática. Analista de sistemas e vereador no município do interior, ele viaja frequentemente a Cuiabá para ver parentes e amigos. Em uma das visitas, ao passar pela Avenida Miguel Sutil, viu veios de quartzo em um dos paredões próximos à via, o que despertou curiosidade.
“Na primeira oportunidade, parei fazer um vídeo e coletar amostras. Sempre gostei de história e li muitos artigos sobre as minas antigas do CPA e a quantidade de pepitas encontradas na Prainha. Diziam que era comum as crianças saírem em busca das pepitas depois das chuvas para comprar materiais para fazer pipa e brinquedos da época”, explica.
Eliston resolveu se desafiar e conseguiu provar que Cuiabá ainda tem muito ouro. Em um vídeo gravado e publicado recentemente, o vereador mostra pequenos fragmentos de ouro encontrados nos pequenos pedregulhos que coletou e moeu manualmente em casa, utilizando água e uma bateia simples para separar os minerais.
Com vídeos que somam mais de 200 mil visualizações em sua rede social, o vereador faz pequenas escavações manuais em rochas na região do viaduto da Miguel Sutil sobre a Avenida do CPA com o objetivo de encontrar fragmentos do mineral precioso.
“A população cuiabana trafega todos os dias em cima de uma riqueza enorme. Com certeza vou continuar criando esse tipo de conteúdo, ainda mais depois dessa repercussão, em que recebi inúmeros relatos e convites para conhecer locais próximos com geologia semelhante”, conta.
Mas se engana quem pensa que Eliston “caiu de paraquedas” no assunto. Praticante do detectorismo há 5 anos, ou seja, quem utiliza um detector de metais para procurar objetos metálicos escondidos no solo, fez da curiosidade um hobby que mistura aventura e caça ao tesouro.
Tudo começou quando morou por 2 anos em Aracaju (SE) e buscava objetos de valor na praia. Também fazia resgates de joias, celulares e relógios em rios, na praia ou quadras de areia. Fez em torno de 40 resgates em 5 anos. Já na mineração as pesquisas começaram em 2024, quando voltou a morar em Mato Grosso.
“Acompanho alguns mineradores e entusiastas de garimpo, esse conteúdo é muito bom de assistir. Eu não imaginei que tivesse tanto engajamento, porém eu sabia que, principalmente a comunidade que gosta de história cuiabana, ia lembrar histórias que os avós contavam e interagir nos comentários”, cita.

Diante da repercussão dos vídeos, seguidores do perfil chegaram a apontar vários locais e bairros de Cuiabá onde acreditam ter presença de ouro, até mesmo no Bosque da Saúde, Centro Político e outros.
Com auxílio de uma bateia, tradicionalmente usada para separar minerais como ouro e diamantes de sedimentos mais leves, como areia e cascalho, agora Eliston busca encontrar fragmentos de ouro nas amostras que coletou em Cuiabá.
Resquícios do período colonial
Se hoje a extração de ouro parece ser uma atividade quase esquecida na capital, séculos atrás foi a principal motivação para a fundação da cidade. No entanto, o memorialista Francisco das Chagas explica que a vinda dos colonizadores portugueses à região, inicialmente, foi motivada pela captura de indígenas para escravizá-los em outras atividades econômicas no sudeste do país.
Ao se deparar com aquela quantidade do mineral, os bandeirantes permaneceram em Cuiabá, inclusive utilizando a mão de obra indígena e negra para a extração do ouro. Uma das primeiras minas descobertas foi no rio Coxipó, por Pascoal Moreira Cabral, tendo feito o registro a Coroa Portuguesa em 8 de abril, data tida como de fundação da cidade.
Posteriormente, a “corrida do ouro” fez com Miguel Sutil descobrisse outra lavra nas proximidades da Prainha, o que fez com que Cuiabá fosse elevada à Vila Real do Senhor Bom Jesus, motivando também a vinda de Dom Rodrigo César à localidade para fazer o controle dos ganhos sobre o ouro, encaminhando impostos à Coroa Portuguesa.

Segundo o memorialista, uma das principais marcas deixadas pelo período foi inclusive a instalação de um pelourinho na Praça da Mandioca. “O pelourinho era um lugar onde eram lidas as leis, decretos, mas também era onde as pessoas tidas como ‘criminosos’ eram castigadas, os negros que fugiam, não necessariamente que ele era criminosos, mas só o fato de fugir fazia com que fosse castigado em via pública”, narra.
De acordo com Francisco, a maior parte do ouro foi enviada para a realeza portuguesa, sendo que a riqueza não ficou em Cuiabá ou se refletiu de forma prática na cidade. Contudo, ainda se vê parte da herança histórica demonstrada na cultura e na arquitetura do tempo colonial da capital.
“O que vejo como herança disso tudo são as ruas, casarões, ainda temos alguns casarões que datam de 1750, pequenos resquícios dessa riqueza explorada no passado que permanece nessa história de 307 anos de Cuiabá. Hoje as pessoas vêm para cá em busca de outros ouros, diferentes do passado, mas permanecem aqui nesta capital acolhedora que é”, cita.
Geologia propícia para a mineração
No ano de 1720, logo nas primeiras explorações auríferas em Cuiabá, os registros históricos apontam para uma extração acelerada e lucrativa. Em 1721, os impostos arrecadados pela coroa portuguesa em Mato Grosso foram de 537,9 gramas. Já em 1727, esse valor foi para 126.263 gramas, ou seja, mais de 26 quilos de ouro.
O presidente da Federação Brasileira de Geólogos (Febrageo), o geólogo Caiubi Emanuel Souza Kuhn, explica que a motivação para que a capital possua grandes quantidades desse mineral está relacionada a sua formação geológica.
“O ouro é um elemento químico que surge dentro de estrelas, assim como todos os elementos químicos, com exceção do hidrogênio e o hélio, que podem ter origem no Big Bang em si. Esse ouro ficou dividido em vários planetas, no Sol e por fim chega à Terra em meio às rochas. Aqui na baixada cuiabana as rochas já foram uma grande cordilheira de montanhas que enquanto se desenvolvia havia muitos fluidos extremamente quentes que carregavam elementos químicos”, conta.

Ele explica que as reservas minerais mais abundantes foram as primeiras a serem exploradas pelas grandes quantidades de ouro, o que acarretou uma “decadência” na exploração após um período. Contudo, o ouro ainda existe e tem uso permanente na sociedade, em especial, nas tecnologias.
“O ouro é utilizado desde para fazer joias até circuitos eletrônicos. Todos nós temos um pouco de ouro, em celulares e computadores. Os aparelhos de alto desempenho tem circuitos feitos de ouro e são excelentes em sua transmissão. Tudo isso faz com que ele seja um ativo importante. Se existe demanda o preço aumenta, e se os depósitos vão se exaurindo há uma busca por tecnologias que consigam fazer um processo de extração mineral mais eficiente em locais de teores mais baixos”, complementa.
Impacto econômico do ouro na atualidade
De acordo com a Agência Nacional de Mineração (ANM), atualmente a mineração responde por entre 1% e 2% do Produto Interno Bruto (PIB) de Cuiabá. Contudo, com a conclusão de pesquisas minerais em andamento e manutenção dos níveis de preço do ouro, é possível que a porcentagem cresça.
Existem 448 áreas oneradas pela mineração na capital, nos mais diversos regimes e fases requeridas para diversas substâncias. Os empreendimentos titulares das áreas em questão possuem diversos portes, desde pequenas áreas exploradas por pessoas físicas até empresas de grande porte.
Atualmente uma grama de ouro custa R$ 798,39. Com o aumento do preço, muitas áreas que antes eram economicamente inviáveis para exploração voltaram a ser exploradas nos últimos anos. Segundo a ANM, nas áreas localizadas na capital, foi extraída cerca de uma tonelada de ouro no ano de 2024. As informações de venda do material chegaram a cerca de R$ 163 milhões.
“O preço do ouro começou a recuperar em 1980, na baixada cuiabana, Poconé, e foram descobertos novos depósitos. Hoje com a tecnologia de forma e concentração de ouro com utilização de moinhos, martelo e cianetação, foi possível a lavra de depósitos com teores mais baixos e também o preço do ouro mais que dobrou nos últimos anos, o que está viabilizando minas que antes não eram viáveis”, explica o gerente regional da ANM em Mato Grosso, Jocy Gonçalo de Miranda.
Além disso, Miranda também complementa que a sustentabilidade tem sido cada vez mais exigida na mineração. O uso inadequado de mercúrio e substâncias que representam riscos à saúde tanto humana quanto ao equilíbrio ecológico, têm sido banidos da atividade.
“Isso está sendo estudado no Ministério de Minas e Energia, a restrição e a importação é proibida. Quem tem estoque vai acabar com ele e após o Brasil tende a adotar essa restrição do uso completamente”, cita.
O chefe da Divisão de Fiscalização da ANM-MT, Marcio Correia de Amorim, exemplifica que os efeitos do uso inadequado do mercúrio na mineração afetam até mesmo quem nunca teve contato com esse tipo de atividade.
“O mercúrio no corpo humano gera até câncer. Se tem mercúrio descontrolado no meio ambiente isso vai para o lençol freático, para os rios, as pessoas às vezes nem moram perto de mineração mas comem peixe ou bebem água de poço que foi contaminado por mercúrio mal utilizado”, alerta.

Conforme os dois representantes, dentre os principais desafios que a ANM enfrenta hoje para fiscalizar a mineração ilegal são riscos à segurança dos próprios técnicos, diante da atuação de facções criminosas em garimpos; recursos com orçamento limitado; e a própria questão territorial do Estado, que possui áreas muito extensas.
Apesar disso, a entidade conta com apoio da Polícia Federal, do Ibama e outros órgãos que atuam de forma integrada e complementar durante as fiscalizações.
Regulamentação da mineração e fiscalização ambiental
Embora lucrativa, se realizada sem as devidas licenças ambientais, a mineração pode ser caracterizada como atividade ilegal. Em Mato Grosso, a Secretária de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT) realiza o licenciamento ambiental dos empreendimentos minerários, para garantir que as atividades cumpram a legislação ambiental.
A analista ambiental da Sema, Sheila Klener, pontua que, além da contaminação por mercúrio, um dos principais riscos atrelados a mineração ilegal está no assoreamento dos rios. “Empreendimentos que desmatam, principalmente em Área de Preservação Permanente (APP’s), algo não autorizado pelo órgão ambiental, terminam com multas, embargos e infração”, destaca.

Conforme Sheila, para explorar ouro é preciso ter o processo de direito minerário requerido na Agência Nacional de Mineração (ANM), em seguida solicitar o licenciamento na Sema. A extração só ocorre a partir do recebimento do título minerário e da Licença de Operação (LO) expedida pela Sema.
“É importante esclarecer que o garimpo é uma atividade que está descrita na Constituição Federal, e no Decreto Lei 227/1967 (código de mineração) inclusive com a expedição de um título minerário pelo Ministério de Minas e Energia. As atividades ilegais, não devem ser chamadas de garimpo, e sim de extração ilegal, onde ocorre degradação ambiental, usurpação do bem da união, dentre outros”, explica.
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