Empreendedorismo feminino cresce 20% e já reúne 224 mil mulheres em MT

Dados do Sebrae mostram avanço do empreendedorismo feminino no estado; maioria das empresárias é mãe e concilia negócios com a rotina familiar.

O empreendedorismo feminino segue em expansão em Mato Grosso. Dados de uma pesquisa quantitativa realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-MT) apontam que o número de mulheres à frente de negócios no estado cresceu cerca de 20% em fevereiro de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior.

empreendedorismo femininoMulheres empreendedoras em loja de alimentos
Mulheres empreendendo em loja de alimentos (Foto: Divulgação)

Hoje, mais de 224 mil mulheres empreendem em Mato Grosso, representando 41% do total de donos de negócios no estado. O avanço acompanha um movimento nacional: no Brasil, já são mais de 11 milhões de mulheres empreendedoras, o equivalente a 44% dos empresários do país.

Por trás desse crescimento estão histórias de autonomia financeira, reinvenção profissional e também desafios que muitas vezes passam despercebidos, especialmente quando o empreendedorismo surge junto com a maternidade, a necessidade de sustentar a família ou a busca por maior flexibilidade de trabalho.

Maternidade influencia decisões de carreira

Os dados da pesquisa revelam que o empreendedorismo feminino em Mato Grosso está fortemente ligado à vida familiar.

Estado Civil das Mulheres Empreendedoras

Casada
47,4%
Solteira
36,5%
Divorciada
12,6%
Viúva
3,5%

Estado Civil das Mães Empreendedoras

Casada
61,6%
Divorciada
16,6%
Solteira
16,6%
Viúva
5,1%

Entre as mulheres que comandam negócios no estado, 68,2% são mães. A maior parte delas também vive em relacionamentos estáveis: 61,6% são casadas, enquanto 16,6% são solteiras, 16,6% divorciadas e 5,1% viúvas.

A rotina familiar aparece diretamente no perfil dessas empreendedoras. Entre as que têm filhos, 30,8% possuem dois, 26,8% têm apenas um, enquanto 10,6% cuidam de três ou mais filhos.

Outro dado que chama atenção é que 36,6% dessas mães se identificam como mães atípicas, ou seja, responsáveis por filhos que demandam cuidados especiais ou adicionais.

Esses números indicam que uma parcela significativa das empreendedoras divide o tempo entre o negócio, os cuidados domésticos e a criação dos filhos, muitas vezes sem rede de apoio estruturada.

Número de Filhos

Nenhum
31,8%
2
30,8%
1
26,8%
3 ou mais
10,6%

Quem são as mulheres que empreendem

A pesquisa do Sebrae também traça um retrato social das empreendedoras mato-grossenses. A maioria está na faixa etária considerada economicamente mais ativa. Quase 60% têm entre 25 e 44 anos, sendo 29,4% entre 25 e 34 anos e 29,8% entre 35 e 44 anos.

Faixa Etária

0,4%
14,6%
29,4%
29,8%
19,8%
6%

Até 18 anos

18 a 24 anos

25 a 34 anos

35 a 44 anos

45 a 54 anos

55 anos ou mais

Em relação à escolaridade, os dados mostram um perfil relativamente qualificado: 43,7% das empreendedoras possuem ensino médio completo, enquanto 32,5% têm ensino superior completo ou incompleto.

Outros 15,4% concluíram apenas o ensino fundamental e cerca de 8,4% possuem pós-graduação. O levantamento indica que, embora a formação acadêmica esteja presente na trajetória de muitas mulheres que empreendem, grande parte delas inicia os negócios a partir de experiências práticas e da necessidade de geração de renda.

Ensino médio
47,7%
Ensino superior
38,1%
Fundamental
11,4%
Pós/Especialização
1,8%
Sem instrução
1,0%

O recorte racial também revela diversidade. Entre as empreendedoras entrevistadas, 47,9% se autodeclaram brancas, 27,3% pardas e 18,6% pretas. O levantamento mostra que mulheres negras (pardas e pretas) representam quase metade das empreendedoras analisadas, reforçando a importância de políticas e iniciativas que considerem a diversidade racial no apoio ao empreendedorismo feminino.

Perfil Étnico-Racial

Branca
47,9%
Parda
27,3%
Preta
18,6%
Indígena
4,0%
Amarela
2,2%

Tipo de Deficiência

42,5%
35,6%
21,8%

Auditiva

Motora

Visual

Outro ponto relevante é a inclusão. 6,7% das mulheres empreendedoras declararam possuir algum tipo de deficiência, sendo a auditiva (42,5%), motora (35,6%) e visual (21,8%) as mais citadas.

Negócios ainda têm baixo faturamento

Apesar do crescimento no número de empreendedoras, os dados mostram que muitas empresas ainda operam com faturamento limitado.

Quase metade das empreendedoras (45,6%) possui negócios que faturam entre um e três salários mínimos por mês.

1 a 3 salários
45,6%
Acima de 6 salários
27,2%
4 a 6 salários
21,6%
Até 1 salário
2,2%
Não informou
3,4%

Já 27,2% conseguem faturamento acima desse valor, o que demonstra que a maior parte dos negócios ainda está em estágio inicial ou em pequena escala.

Esse cenário revela que, embora o empreendedorismo represente uma alternativa de renda, muitas mulheres ainda enfrentam dificuldades para expandir seus negócios e alcançar maior estabilidade financeira.

Falta de capital e burocracia são principais barreiras

Entre os obstáculos enfrentados pelas mulheres que empreendem em Mato Grosso, alguns desafios aparecem com frequência na pesquisa do Sebrae.

A principal dificuldade relatada é a falta de capital inicial para investir no negócio, apontada por 40,1% das entrevistadas pelo Sebrae durante a pesquisa.

Outros desafios citados incluem:

Dificuldades Enfrentadas

Falta de capital inicial
34,9%
Burocracia excessiva
34,0%
Falta de conhecimento sobre gestão
31,3%
Concorrência acirrada
28,0%
Dificuldade de acesso a crédito
23,9%
Equilibrar trabalho e vida pessoal
19,2%
Taxas de juros elevadas
18,3%
Falta de acesso a treinamentos
13,9%
Falta de experiência no setor
12,1%
Dificuldades com a maternidade
11,3%
Falta de networking
10,9%
Falta de apoio emocional/familiar
5,8%
Falta de apoio local/comunitário
4,1%
Discriminação de gênero
3,0%
Discriminação racial ou étnica
2,5%
Barreiras para pessoas com deficiência
1,5%
Preconceito/Falta de oportunidades (idade)
1,4%

Para algumas mulheres, fatores sociais também aparecem como obstáculos. Segundo a pesquisa, 8% das empreendedoras afirmaram já ter enfrentado situações de racismo ao longo da trajetória empresarial, revelando que desigualdades estruturais ainda impactam o ambiente de negócios.

Crédito ainda é pouco acessado

Mesmo sendo um dos principais desafios para expandir negócios, o crédito ainda é pouco utilizado pelas empreendedoras.

Segundo a pesquisa:

  • 31,7% das mulheres nunca tentaram acessar crédito
  • 26,1% já conseguiram financiamento
  • 22,4% tentaram, mas tiveram o pedido negado

Acesso a Crédito

Não, mas tenho interesse em buscar 20,2%
Não, nunca busquei 31,3%
Sim, consegui o crédito solicitado 26,3%
Sim, mas não consegui aprovação 22,2%

Entre aquelas que buscaram financiamento, as principais dificuldades foram:

  • exigência de garantias ou avalistas (29,5%)
  • falta de informações sobre linhas de crédito disponíveis (25,3%)

Barreiras de Crédito

Taxas de juros elevadas
47,6%
Excesso de burocracia
43,8%
Falta de garantias
28,1%
Falta de informações
25,3%
Restrição no CPF ou CNPJ
16,8%
Falta de histórico
9,9%
Discriminação (Geral)
4,8%

Esse cenário indica que muitas empreendedoras ainda enfrentam obstáculos para acessar recursos financeiros capazes de impulsionar seus negócios.

Tecnologia avança, mas ainda de forma desigual

O uso de ferramentas digitais já faz parte da rotina de muitas empreendedoras, principalmente nas redes sociais.

No entanto, tecnologias mais avançadas ainda têm menor adesão. Por exemplo:

  • 24,4% utilizam marketing digital estruturado
  • o uso de e-commerce e softwares de gestão ainda é limitado

Tecnologia e Inovação

Redes sociais
80,5%
Softwares de gestão
27,7%
Marketing digital
24,4%
E-commerce
23,2%

Especialistas apontam que ampliar o acesso à tecnologia e à capacitação digital pode ser um fator importante para aumentar a competitividade desses negócios.

Uma mudança de vida na prática

Entre os milhares de casos que refletem essa realidade está a história da jornalista Solange Andrade, que decidiu mudar completamente de carreira após a maternidade.

Depois de mais de uma década trabalhando como apresentadora de televisão e produtora de documentários, viajando por diversas cidades de Mato Grosso, ela decidiu interromper a carreira para acompanhar de perto o crescimento do filho. “Eu viajava muito e percebi que não queria deixar meu filho para continuar na estrada. Eu queria levar e buscar na escola, acompanhar o crescimento dele”, lembra a jornalista.

Foi então que decidiu transformar a cozinha de casa em um pequeno negócio.

Do improviso ao empreendimento

A produção começou de forma simples, na cozinha dos fundos da casa, sem equipamentos profissionais. No início, a família era parte fundamental do processo. O filho mais velho ajudava sovando as massas manualmente, enquanto a mãe de Solange foi quem comprou os primeiros equipamentos para a produção.

Solange
Solange Andrade, que decidiu mudar completamente de carreira após a maternidade.- Foto: Arquivo Pessoal

Com os pães, bolos e salgados prontos, ela criou sua própria estratégia de vendas. Em vez de esperar os clientes aparecerem, saía pela cidade oferecendo os produtos. “Eu saía com a bandeja, visitava empresas, órgãos públicos e levava para as pessoas experimentarem”, conta.

Foi assim que conquistou as primeiras encomendas.

Persistência para fazer o negócio crescer

Ao longo de quase 13 anos, Solange viu o negócio crescer lentamente, enfrentando desafios comuns a pequenos empreendedores, inclusive durante a pandemia.

Mesmo em meio às restrições, continuou produzindo e entregando os pedidos. “Todos os dias eu levantava e fazia a produção. Disciplina e persistência são fundamentais para quem empreende”, afirma a empreendedora.

Com o passar do tempo, a clientela aumentou e o sonho de ter um espaço próprio começou a ganhar forma.

O sonho da loja própria

Depois de anos trabalhando em casa, Solange finalmente conseguiu abrir o próprio espaço comercial. Em novembro do ano passado, inaugurou sua loja de pães e bolos, concretizando um projeto construído ao longo de mais de uma década.

Panificadora
Solange Andrade decidiu abrir sua própria loja de pães e bolos.-Foto: Reprodução

Hoje, o negócio representa não apenas uma fonte de renda, mas também a realização de um projeto de vida. “É um sonho realizado. Mas também é o começo de uma nova etapa”, diz Solange.

Crescimento que ainda precisa de apoio

A história de Solange ilustra um fenômeno cada vez mais presente em Mato Grosso: mulheres que transformam habilidades pessoais e necessidades familiares em oportunidades de negócio.

Ao mesmo tempo, os dados da pesquisa mostram que o crescimento do empreendedorismo feminino ainda exige políticas de apoio, acesso a crédito, capacitação e redes de suporte para que esses negócios consigam se consolidar e crescer.

Panificadora 1
Solange Andrade decidiu abrir sua própria loja de pães e bolos.-Foto: Reprodução

Porque, para muitas mulheres, empreender não é apenas uma escolha profissional. É também uma estratégia para conciliar trabalho, família e autonomia financeira.

Acesso ao crédito e dupla jornada entre os principais desafios

A trajetória de Solange Andrade também reflete um cenário apontado pelas pesquisas sobre empreendedorismo feminino em Mato Grosso: muitas mulheres começam seus negócios enfrentando obstáculos como acesso limitado ao crédito e a necessidade de conciliar trabalho e responsabilidades familiares.

Segundo a gerente de Competitividade do Sebrae em Mato Grosso, Erika Santos, a dificuldade para obter financiamento ainda aparece como uma das principais barreiras para empreendedoras.

Gerente do Sebrae-MT, Erika Santos, explica desafios enfrentados por mulheres empreendedoras. – Vídeo Sebrae-MT

“Muitas vezes a mulher precisa apresentar um bem como garantia para conseguir crédito, como um imóvel em seu nome, e nem sempre ela tem”, explica Erika.

Para reduzir essa desigualdade, iniciativas como o FAMPE Mulher 100%, fundo de aval que pode garantir até 100% de operações de crédito, buscam ampliar o acesso ao financiamento para negócios liderados por mulheres.

Além disso, a pesquisa aponta que conciliar trabalho, maternidade e cuidados domésticos está entre as dificuldades mais citadas pelas empreendedoras. “Quando somamos as barreiras relacionadas à jornada de trabalho e aos cuidados com a casa e a família, esse fator aparece entre os mais relatados”, afirma Erika Santos.

Apesar dos desafios, o apoio com capacitação, gestão financeira e acesso a mercado tem contribuído para fortalecer os negócios femininos no estado.

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