Do entulho ao recomeço: o questionamento de uma pintora que revela os desafios da construção sustentável
Mãe de três filhos, Solange enfrentou a resistência de um mercado majoritariamente masculino até se tornar pintora e empresária. Uma dúvida surgida nos canteiros — para onde vai o que sobra das obras? — conecta sua trajetória ao desafio de transformar resíduos em novos recursos.
O que acontece com tudo aquilo que sobra quando uma obra termina?
Pedaços de concreto, argamassa endurecida, cerâmica quebrada. madeira, embalagens, sobras de tinta. Materiais que, depois de ajudar a levantar paredes e transformar espaços, muitas vezes deixam o canteiro com um destino pouco conhecido por quem acompanhou a construção nascer.
A pergunta parece simples. Para Solange, de 42 anos, mãe de três filhos, pintora profissional e hoje microempresária da construção civil, ela nasceu depois de anos entrando e saindo de obras, aprendendo técnicas, observando materiais e tentando conquistar espaço em um setor no qual, antes mesmo de mostrar o que sabia fazer, precisou convencer muita gente de que uma mulher podia estar ali.

Antes de questionar o destino dos restos de uma obra, Solange precisou construir o próprio lugar dentro dela.
Foi em 2012 que começou a aproximação com a pintura profissional. Naquele período, um dos filhos ainda era pequeno. A lembrança da formatura no curso de pintura permanece guardada em uma fotografia. O certificado, porém, não abriu automaticamente as portas do mercado.
“Foi muito difícil uma mulher resolver virar pintora, ter aceitação no mercado. Foi um caminho muito árduo, mas eu não desisti”, conta.
Enquanto tentava viver da profissão, passou por outros empregos. Foi vendedora, operadora de caixa e açougueira. A pintura continuava no horizonte.
A chance que ajudaria a confirmar que aquele poderia ser seu caminho surgiu quase sem estrutura. Solange recebeu a indicação para pintar uma casa. Não tinha máquinas ou equipamentos sofisticados. Tinha um rolo, uma desempenadeira antiga e disposição para fazer praticamente todo o lixamento à mão.

Quando terminou, olhou para o trabalho e chegou a uma conclusão que demorara anos para encontrar espaço fora dela: era boa no que fazia.
A partir dali, começou uma insistência quase diária. Procurava lojas de tinta, apresentava-se, dizia que tinha treinamento, pedia oportunidade. Nem sempre era ouvida. Em alguns trabalhos, recebeu R$ 50 pela diária para atuar ao lado de pintores mais experientes.
“Eu fui pegando cada experiência com esses pintores. Teve um dia em que falei para minha mãe: ‘ora aí, porque a partir de hoje eu não vou trabalhar mais em outra área. Vou trabalhar só com pintura’”, lembra.
E ficou.
Uma mulher entre tintas, paredes e preconceitos
Ao longo dos anos, Solange passou a integrar grupos de profissionais, tornou-se líder estadual de um movimento de pintores e foi escolhida como influenciadora de marcas do segmento. Também se especializou em efeitos decorativos, como cimento queimado e acabamentos que imitam mármore, e chegou a viajar para São Paulo para uma semana de capacitação com profissionais de diferentes lugares.
Recentemente, realizou outro sonho: atuar como instrutora do Senai.
Hoje, divide a empresa com o marido. O trabalho que começou praticamente com um rolo e uma desempenadeira passou a contar com equipamentos e processos mecanizados.
Mas a trajetória não apagou uma sensação que ela carrega dos canteiros: a de que o trabalhador da construção ainda é visto por muitos como alguém que chegou à profissão por falta de alternativa.
“Hoje nós somos pintores profissionais. Tem muitos pintores que se capacitam, que buscam, que investem”, afirma. Para as mulheres, acrescenta, o julgamento costuma ser ainda mais duro. “Você não pode errar porque você é mulher. Tem que ser perfeita. E não é verdade. Eu já errei […] assim como acontece com muitos pintores.”
Foi justamente quanto mais conhecia o setor que mais perguntas começaram a aparecer.
Uma delas escapava das paredes que pintava e alcançava algo maior: depois que uma construção usa aquilo de que precisa, o que é feito com o que sobra?

O outro lado da obra
Para a professora Albéria Cavalcanti de Albuquerque, engenheira de materiais, mestre em Engenharia Mecânica e doutora em Engenharia Civil, a resposta a essa pergunta ainda expõe uma contradição em Mato Grosso.
O estado cresce, constrói e verticaliza cidades, mas a estrutura para reaproveitar o que sai dessas construções não avança no mesmo ritmo.

Segundo ela, Mato Grosso tem legislação voltada à gestão e reciclagem de resíduos, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar as regras em uma cadeia amplamente estruturada. Entre os gargalos apontados estão a falta de usinas de reciclagem próximas aos grandes centros, a distância entre pesquisas acadêmicas e empresas e problemas de fiscalização.
A professora chama atenção especialmente para um paradoxo: enquanto novos recursos naturais são retirados do ambiente para alimentar a construção, materiais já utilizados e com possibilidade de reaproveitamento podem terminar descartados irregularmente.
Concreto, argamassa e cerâmica, por exemplo, estão entre os resíduos com potencial de voltar à cadeia produtiva.
Na visão de Albéria, uma construção verdadeiramente sustentável precisa olhar para o material antes mesmo de ele se transformar em sobra.
Isso significa planejar melhor a obra, avaliar tecnologias que diminuam perdas, incorporar materiais alternativos e garantir a rastreabilidade dos resíduos. Ela também chama atenção para o conceito de “mineração urbana”: demolições, reformas e canteiros podem ser vistos como fontes de matérias-primas de segunda geração, em vez de simplesmente como geradores de lixo.
A mudança de perspectiva é importante porque aquilo que vai para uma caçamba pode carregar duas histórias possíveis: a do descarte ou a de um novo uso.
Madeira vira lixeira; concreto vira meio-fio
Dentro dos próprios canteiros, algumas empresas já tentam ampliar essa segunda história.
Nas obras da MRV em Mato Grosso, os resíduos são separados, sempre que possível, no próprio ponto em que são gerados. Depois, são armazenados conforme as características e as possibilidades de reutilização ou reciclagem. O que não pode permanecer no empreendimento segue para cooperativas, empresas especializadas ou locais autorizados. As obras contam ainda com Plano de Gerenciamento de Resíduos da Construção Civil.
Madeira que seria descartada pode ganhar forma de coletor, lixeira, bicicletário ou bancada. Sobras de concreto podem virar meio-fio.
A lógica é tentar fazer com que o material permaneça útil antes de tratá-lo como descarte. Segundo Marciano Silva, gestor de obras da empresa, o objetivo é reduzir a geração e ampliar o reaproveitamento e a reciclagem dentro dos canteiros.

Na Plaenge e Vanguard Empreendimentos, materiais secos, como papel, plástico, madeira e sobras de aço, também passam por triagem e são encaminhados para reciclagem. Resíduos úmidos seguem para empresa credenciada, e materiais que ainda podem ser utilizados são redirecionados para novos canteiros ou áreas de vivência.
Há ainda medidas tomadas antes que a sobra exista: estudo da paginação de revestimentos cerâmicos, reaproveitamento de argamassa, adoção de sistemas modulares e soluções para diminuir retrabalho e desperdícios de concreto, aço e argamassa.

Ou seja: a resposta à pergunta de Solange começa antes da caçamba.
Quando sustentabilidade e empreendedorismo se encontram
A inquietação da pintora também aparece em um movimento observado entre outras mulheres que empreendem em Mato Grosso.
Pesquisa do Sebrae/MT, realizada em 2026 com 1.304 donas ou sócias de pequenos negócios formais e informais, mostra que o estado já reúne mais de 224 mil mulheres empreendedoras, equivalentes a 41% dos donos de negócios de Mato Grosso. O número representa crescimento de cerca de 20% em relação ao ano anterior.
São trajetórias diferentes, mas que guardam pontos de contato com a de Solange.
Quase metade das participantes da pesquisa se declarou preta ou parda: 18,6% são pretas e 27,3%, pardas. Além disso, 68,2% das entrevistadas têm filhos.
O segmento de casa e construção representa apenas 4% dos negócios das entrevistadas, bem atrás de áreas tradicionalmente ocupadas pelas mulheres, como higiene e cosméticos, moda, alimentos e bebidas e saúde e bem-estar.
É nesse espaço ainda pequeno que Solange construiu sua carreira.
E a sustentabilidade começa a aparecer com mais força também entre as empreendedoras. O percentual das entrevistadas que disseram adotar alguma prática sustentável passou de 30% em 2025 para 40,2% em 2026. Entre quem já adota essas ações, 47,9% mencionaram economia de água e energia e 44,8% citaram a reciclagem de resíduos.
São números que aproximam duas pontas desta história: de um lado, mulheres procurando maneiras de sustentar e expandir seus negócios; de outro, um setor que precisa aprender a construir consumindo menos e reaproveitando mais.
‘Sou figurinha carimbada no Sebrae’
Se a formação profissional abriu para Solange as portas da pintura, aprender a empreender virou outra etapa da caminhada.
“Eu faço curso do Sebrae. Eu falo que sou figurinha carimbada lá. Todo curso que eu posso ir, eu vou”, conta.
A declaração encontra eco nos dados da própria pesquisa da instituição. Entre mães que vivem em casamento ou união estável, 38% apontaram a capacitação como uma das principais formas de apoio desejadas para os negócios. Para mães solo, além de crédito e capacitação, o networking aparece como principal demanda.
Para Solange, a rede de outras empreendedoras teve um efeito que ultrapassou planilhas e estratégias de negócio.
Ela participa do grupo Mulher Potência e passou a frequentar outros espaços de empreendedorismo feminino. Ao observar mulheres falando sobre carreira, negócios e crescimento, começou também a rever a forma como enxergava a si mesma.
Durante muito tempo, brinca, seu guarda-roupa praticamente se dividia entre camisetas de marcas de tinta, calças marcadas pelo trabalho e pijamas.
Talvez seja justamente aí que as histórias da construção, dos resíduos e do empreendedorismo se encontrem.

Construir nunca foi apenas empilhar materiais novos.
Às vezes, construir é olhar para o que parecia não ter mais utilidade e perceber que ainda existe valor ali. É transformar madeira em outra estrutura, concreto em um novo elemento, conhecimento em oportunidade e uma trabalhadora desacreditada em empresária.
A professora Albéria defende que a mudança ambiental depende de uma ação compartilhada entre empresas, poder público e população: fiscalização contra descarte clandestino, incentivos à reciclagem, compras públicas que priorizem produtos reciclados e consumidores atentos ao destino do entulho gerado pelas próprias reformas.
Solange chegou a esse debate fazendo uma pergunta. Mas sua própria trajetória talvez carregue parte da resposta.
Empreender se parece menos com uma estrada reta e mais com um jardim. Há raízes que nascem longe umas das outras — capacitação, oportunidade, sustentabilidade, trabalho, redes de apoio — e que, debaixo da terra, acabam se encontrando. Algumas sustentam empresas. Outras sustentam famílias. Outras ajudam a construir cidades de um jeito diferente.
No caso de Solange, tudo começou com tinta, um rolo, uma desempenadeira antiga e a decisão de não desistir.
Mulheres buscam novas oportunidades na construção civil
Desde 2020, cerca de 3.455 mulheres foram qualificadas pelo Senai Mato Grosso em diferentes áreas da construção civil, incluindo edificações, construção pesada e instalações.
Entre as formações estão cursos para construtor de estruturas em drywall, assentador de revestimentos cerâmicos, construtor de alvenaria, pintor de obras imobiliárias, além de capacitações para operação de pá carregadeira, retroescavadeira, máquinas de perfuração em subsolo e eletricista de instalações prediais.
Assim como Solange, essas mulheres encontram na qualificação profissional uma alternativa para ampliar as possibilidades de renda e ocupar espaços em setores que, durante muito tempo, foram majoritariamente masculinos.
O Senai Mato Grosso também ampliou a oferta de cursos voltados a diferentes níveis de formação, desde iniciação e aprendizagem profissional até qualificações, cursos técnicos e aperfeiçoamentos. As capacitações podem durar de dois meses a dois anos e são oferecidas em diferentes municípios do estado.
A participação feminina também vem crescendo em outras áreas ligadas à indústria, como engenharia e tecnologia. Por meio do UniSenai MT, a instituição afirma observar aumento no número de mulheres em cursos de graduação e pós-graduação voltados ao setor tecnológico.
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