Poder de compra: R$ 100 em MT rendem menos do que na maioria dos estados

Levantamento mostra diferença no poder de compra entre os estados; em Mato Grosso, R$ 100 equivalem a R$ 106.

Em Mato Grosso, R$ 100 rendem R$ 106 em valor real de alimentos, segundo levantamento nacional, valor inferior ao registrado na maioria dos estados do Nordeste e abaixo da média do Centro-Oeste. O dado coloca o estado entre aqueles onde o poder de compra é menor no país, apesar de liderar a produção de alimentos.

O retrato faz parte de um estudo divulgado pelo Brasil em Mapas, que analisou a evolução do poder de compra da nota de R$ 100 ao longo de três décadas, desde a implantação do Plano Real, e comparou o valor real do dinheiro entre os estados brasileiros.

brasil em mapas

O estudo tem como base dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo Alimentação, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IPCA Alimentação/IBGE), principal indicador oficial da inflação dos alimentos no país.

De acordo com a análise, quanto maior o valor atribuído aos R$ 100, maior o poder de compra. Mato Grosso aparece com R$ 106, ficando abaixo da média do Centro-Oeste, que é de R$ 112, e entre os estados onde o dinheiro rende menos no país.

A diferença regional é expressiva. Em Sergipe, estado com maior poder de compra, R$ 100 equivalem a R$ 154. Já em São Paulo, onde o custo de vida é mais alto, o valor cai para R$ 99. Mato Grosso se aproxima mais desse grupo de menor rendimento do dinheiro do que das regiões onde a mesma quantia garante mais alimentos na mesa.

Poder de compra

Quanto R$ 100 rendem em alimentos em cada estado

Valor real de R$ 100 • quanto maior, maior o poder de compra

Norte
AC R$ 134
AM R$ 127
AP R$ 125
PA R$ 132
RO R$ 137
RR R$ 125
TO R$ 122
Nordeste
AL R$ 143
BA R$ 140
CE R$ 125
MA R$ 131
PB R$ 139
PE R$ 139
PI R$ 131
RN R$ 138
SE R$ 154
Centro-Oeste
DF R$ 118
GO R$ 117
MT R$ 106
MS R$ 109
Sudeste
ES R$ 113
MG R$ 118
RJ R$ 105
SP R$ 99
Sul
PR R$ 111
SC R$ 105
RS R$ 103
Fonte: Brasil em Mapas • Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos e do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo Alimentação, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

O levantamento também mostra um padrão nacional. Estados do Nordeste concentram os maiores valores, enquanto Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste aparecem com os menores. O resultado reforça como o custo de vida é mais elevado nas regiões mais urbanizadas e industrializadas do país.

A situação chama atenção pelo contraste. Mato Grosso lidera a produção nacional de soja, milho, algodão e carnes, mas essa abundância não se reflete automaticamente em preços mais baixos para o consumidor. Custos logísticos elevados, longas distâncias, dependência do transporte rodoviário, preço dos combustíveis e gargalos de infraestrutura encarecem o caminho entre o campo e a mesa.

Além disso, a perda do poder de compra tem raízes históricas. Desde o Plano Real, o valor real de R$ 100 em alimentos caiu de forma quase contínua. Em 1994, a quantia comprava o equivalente a R$ 225 em alimentos. Em 2025, o valor médio nacional gira em torno de R$ 32, uma perda de cerca de 85% ao longo de três décadas.

Essa corrosão aparece no dia a dia. Entre 2010 e 2025, a inflação dos alimentos acumulou alta superior a 200%, enquanto o salário mínimo nominal cresceu menos no mesmo período. Para famílias de baixa renda, que destinam uma parcela maior do orçamento à alimentação, o impacto é ainda mais severo.

Em Mato Grosso, o reflexo está no comportamento do consumidor. Há troca de marcas, redução da variedade de produtos, substituição de itens mais caros por opções mais baratas e, em muitos casos, diminuição da quantidade comprada. A alimentação passa a disputar espaço com despesas fixas como aluguel, energia e transporte.

No fim das contas, R$ 100 continuam sendo apenas uma nota, mas o que ela compra hoje em Mato Grosso ajuda a contar a história recente do Brasil. Um país que produz muito, mas ainda enfrenta dificuldades para fazer a renda acompanhar o custo de viver.

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