’Volta para o seu país’: mesmo diante do preconceito, empreendedora de MT seguiu e virou referência nacional

Formada pela UFMT, empreendedora transformou vivências pessoais em negócio e hoje é referência nacional em beleza afro.

‘Volta para o seu país’. A frase, que Diela Tamba Nhaque ouvia enquanto tentava construir uma vida em Cuiabá, não a fez desistir. Nascida em Guiné-Bissau, ela chegou à capital de Mato Grosso aos 19 anos pelo Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), se formou na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e enfrentou falas que colocavam em dúvida o seu direito de permanecer no Brasil. Mesmo assim, seguiu.

A partir dessa experiência, estruturou um negócio próprio, criou um projeto de impacto social e se tornou referência nacional em beleza afro e empreendedorismo.

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Diela Tamba Nhaque, idealizadora do projeto social D’jombai e criadora da Diela Tranças Africanas. Foto: Primeira Página

Diela veio ao Brasil com um plano definido, estudar, se formar e retornar ao país de origem levando conhecimento. Filha de um ex-bolsista do mesmo programa, cresceu com essa lógica bem estabelecida. Em Cuiabá, cursou Serviço Social, concluiu a graduação e trabalhou por três anos como assistente social na prefeitura. Paralelamente, começava a se desenhar um outro caminho, ainda informal, mas profundamente conectado à sua história pessoal.

Desde a infância, Diela teve uma relação complexa com o próprio cabelo crespo. O desejo de ter cabelos longos a levou a aprender técnicas tradicionais de tranças ainda jovem, primeiro em si mesma, depois em amigas e conhecidas. Ao chegar ao Brasil, os penteados chamavam atenção. Colegas passaram a procurá-la com fotos e referências, pedindo que reproduzisse estilos semelhantes. No início, não havia cobrança. Era troca, cuidado e pertencimento, com materiais enviados pela família.

Com o aumento da procura, a prática ganhou outra dimensão. Ao mesmo tempo em que o trabalho com tranças crescia, Diela ouvia comentários de que estava ocupando vagas que não lhe pertenciam e que deveria voltar para o seu país após concluir os estudos. As falas não a interromperam. Ao contrário, passaram a conviver com a decisão de seguir adiante, mesmo diante do desconforto e das dúvidas que surgiam.

O dilema se intensificou quando passou a refletir sobre permanecer ou retornar definitivamente a Guiné-Bissau. A maternidade foi um ponto decisivo nesse processo. Ao avaliar possibilidades fora do Brasil, Diela percebeu que precisaria lutar muito mais para garantir ao filho o mínimo de estabilidade que já conseguia oferecer em Cuiabá, especialmente em educação e acesso a serviços básicos. Optou por ficar e seguir construindo o caminho que já havia começado.

Em 2018, de volta a Mato Grosso, ela abriu o próprio CNPJ e decidiu estruturar o negócio de forma intencional. A inspiração veio de práticas comunitárias que conhecia desde a infância, rodas de conversa, troca de saberes e apoio mútuo entre mulheres. A partir disso, criou o D’jombai, metodologia que une formação técnica em tranças, networking e fortalecimento coletivo. A proposta era clara, começar com o que se tem, gerar prova social e crescer de maneira consistente.

O crescimento do projeto ampliou o alcance e trouxe novos enfrentamentos. À medida que Diela ganhava visibilidade, surgiram disputas e tentativas de deslegitimação. Ainda assim, ela seguiu criando, inovando e formando outras mulheres. Para Diela, permanecer e ocupar espaço tornou-se também um posicionamento.

Hoje, os números mostram a dimensão do impacto. O projeto já formou 5 mil trancistas em todo o Brasil, e cerca de 3 mil vivem exclusivamente da renda obtida com a profissão, muitas delas mulheres negras, periféricas e chefes de família. A rede criada por ela se espalhou para além de Cuiabá e Mato Grosso, transformando uma prática ancestral em caminho concreto de autonomia financeira e fortalecimento da autoestima.

Em 2025, a trajetória ganhou projeção nacional. Diela ficou entre os dez melhores projetos da Expo Favela, selecionada entre cerca de 20 mil empreendedores, e participou do quadro O Grande Desafio, exibido no programa É de Casa, da TV Globo. A visibilidade ampliou o alcance do trabalho e abriu novas possibilidades, como a criação de uma plataforma online de formação de trancistas, voltada também a países da diáspora africana.

Veja episódio abaixo:

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