Dia da alfabetização: histórias mostram que nunca é tarde para reaprender
Em entrevista ao Primeira Página, Diva Dalva Ferreira, de 54 anos, e Maria Rosa Borges, de 77 anos, falam sobre sonho de concluir os estudos
Criado em 1967 pela ONU/Unesco para destacar a importância social da alfabetização, nesta sexta-feira (8) é celebrado o Dia Mundial da Alfabetização.
Porém, em um mundo onde nem todos têm as mesmas oportunidades de se dedicarem exclusivamente ao ensino quando jovens, algumas pessoas mostram que não importa a idade, nunca é tarde para recomeçar. O Primeira Página entrevistou duas mulheres que sonham em voltar a sala de aula.

Aos 77 anos, Maria Rosa Borges, conta que não vê a hora de voltar para uma sala de aula. Natural do estado do Maranhão, ela se mudou já moça para Várzea Grande, porém não conseguiu finalizar os estudos. (Veja vídeo abaixo)
Quando tinha 73 anos, voltou a estudar pelo EJA (Educação de Jovens e Adultos), mas teve que fazer uma pausa para ajudar no cuidado dos 8 netos. Para ela, finalizar o ensino vai significar mais confiança para as trocas do dia-a-dia.
“Eu quero ganhar conhecimento, para conversar com você, ter uma resposta exata e não ficar em dúvida do que eu vou falar. Quero ter certeza, por isso eu quero aprender mais. Pra mim vai ser gostoso porque no colégio eu encontro com outras amigas da minha idade, ai nós aprendemos a ler e escrever e conversamos umas com as outras”, destaca Maria Rosa, que ainda aguarda uma vaga pelo EJA.
O recomeço também é o desejo de Diva Dalva Ferreira, de 54 anos, que desde pequena precisou trabalhar na roça para ajudar no sustento da família.
“Desde muito pequena a gente já trabalhava na roça. A gente trabalhava nas fazendas dos outros e minha mãe sempre levava os filhos. Eu cresci assim, trabalhando, só que minha mãe com o sonho dela de ver os filhos estudados, nos levou para cidade pra estudar e nos matriculou”, relata Diva.
Mesmo exausta da rotina de sair às 4h de casa, nos carros de boias-frias, para trabalhar, ela conta que conseguiu com muito custo completar o 5º ano, em Cuiabá.
Anos depois, aos 50 anos de idade, incentivada por uma amiga do trabalho, ela se decidiu voltar a sala de aula.
“Eu não acreditava em mim mais, mas ela insistiu e me deu o endereço do C.E.J.A Licinio Monteiro Da Silva, em Várzea Grande. Vim, me matriculei, tomei essa atitude. Pensei que não iria conseguir mas quando cheguei lá, a diretora Cecilia com um lindo sorriso no rosto, me atendeu, assim como todas as pessoas da equipe, e eu já me senti ali mais capaz e comecei a estudar ali desde o 6º ano”, conta. (Veja vídeo abaixo)
No local, Diva desenvolveu ainda o amor pelo teatro e pela dança, escrevendo inclusive até peças para as atividades com os outros estudantes.
“Eu tinha muita vontade de ser pedagoga, terminar meus estudos pra fazer pedagogia, mas como eu trabalhava muito lá no Licinio com teatro e danças, até as professoras começaram a falar pra estudar o que eu gosto, então era esse o meu objetivo”, ressalta.
Porém após quatro anos estudando, faltando apenas quatro matérias para completar o 1º ano, o centro de educação foi fechado, e Diva e outros 1200 estudantes, tiveram que ser remanejados para outras instituições.
Mas nem sempre há vagas pra todos. Há dois anos parada, ela ainda aguarda para que um dia possa realizar esse sonho.
“O que me levou a voltar a estudar e o que me leva a querer terminar, é esse objetivo de crescer. As pessoas falam ‘mas você esta velha’, ‘burro velho não aprende nada’ aprende sim, aprende muito e eu acredito que eu vou terminar e conseguir vencer todas as minhas batalhas”, reforça.
Para a professora, Maria Aparecida Cortez, técnica administrativa, que atualmente faz parte da direção do Sintep (Sindicato dos Trabalhadores do Ensino Público) em Várzea Grande, região metropolitana, é necessário que existam políticas adequadas e especificas para a educação de jovens e adultos.
“Com metodologias específicas, professores qualificados para atender essa população. Este é um povo que tem o direito a estudar. Sem dúvida é muito melhor quando eles compartilham das mesmas experiências”, avalia a professora.
Maria defende ainda que o formato do ensino EJA contribui para que os estudantes se sintam mais à vontade para se desenvolver e aprender.
Analfabetismo
De acordo com a última PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua Anual de 2022, realizada pelo IBGE, a taxa de analfabetismo no Brasil, entre a população de 15 anos ou mais, recuou de 6,1% em 2019 para 5,6% em 2022, uma redução de pouco mais de 490 mil analfabetos no país, chegando a menor taxa da série, iniciada em 2016.
No entanto, a taxa continua mais alta entre idosos, pretos e pardos. Em 2022, entre as pessoas pretas ou pardas com 15 anos ou mais de idade, 7,4% eram analfabetas, mais que o dobro da taxa encontrada entre as pessoas brancas (3,4%).
No grupo etário de 60 anos ou mais, a taxa de analfabetismo dos brancos alcançou 9,3%, enquanto entre pretos ou pardos ela chegava a 23,3%.
As taxas ficaram em 16% entre as pessoas de 60 anos ou mais, 9,8% entre as pessoas com 40 anos ou mais, e 6,8% entre aquelas com 25 anos ou mais. Por outro lado, a taxa de analfabetismo das pessoas de 60 anos ou mais foi a que mais caiu, reduzindo-se em 2,1 p.p frente a 2019 e 4,5 p.p. ante 2016.
Em Mato Grosso a taxa de analfabetismo de 15 anos ou mais, é de 4,9%.
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