O que falta para morar com dignidade em MT? Água e transporte são as principais cobranças de eleitores
Na série da TV Centro América, moradores de Várzea Grande e Tangará da Serra contam como a falta d’água e as dificuldades no transporte afetam a rotina.
Ter uma casa, mas não ter água. Ter um endereço, mas perder horas no ônibus. Para milhares de mato-grossenses, morar bem ainda está longe de ser uma realidade, como mostra o 3º episódio da série “Me escute, porque eu decido”, da TV Centro América, que ouviu moradores sobre os problemas enfrentados no dia a dia para ter acesso a uma moradia e vivência dignas.
A série percorreu diferentes regiões de Mato Grosso e encontrou histórias que mostram como a falta de serviços básicos interfere diretamente na rotina das famílias. Em Várzea Grande, por exemplo, moradores convivem há anos com a falta d’água, enquanto em Tangará da Serra o problema chegou a deixar famílias até 15 dias sem abastecimento.
Para dona Valdemiris, moradora de Várzea Grande, a falta de água vai muito além do incômodo de não conseguir tomar banho ou lavar roupas. Ela conta que precisa gastar com a compra de água e até recorrer a uma lavanderia para conseguir manter as atividades básicas da casa.
A situação também pesa na limpeza do imóvel, principalmente durante o período de seca, quando a poeira aumenta. Para ela, a rotina acaba afetando até a disposição e a saúde.
“Você compra água, você vai para a lavanderia para lavar roupa”, afirmou a moradora em entrevista ao repórter José Pereira.

Até 15 dias sem água
Em Tangará da Serra, a dificuldade é semelhante. Uma moradora contou à reportagem que a família chegou a passar 15 dias sem água em casa.
Para conseguir manter o abastecimento, o marido buscava água em uma empresa que tinha poço artesiano. Quando os caminhões-pipa apareciam, a família aproveitava para encher a caixa d’água e criar uma reserva.
A família, formada por quatro pessoas, ainda precisou lidar com o excesso de poeira dentro de casa e a preocupação era maior porque um dos filhos nasceu com uma má-formação e precisava permanecer em um ambiente mais limpo e organizado.

Com a falta de água, moradores também criaram uma espécie de rede de solidariedade para ajudar quem não conseguia buscar o recurso por conta própria.
Um dos moradores passou a buscar água para os vizinhos e inquilinos. O trabalho voluntário começava cedo e não tinha hora para terminar. Ele conta que viu de perto a dificuldade de pessoas carregando tambores de até 200 litros para conseguir água.
O problema não termina na torneira
O episódio da série ‘Me escute, porque eu decido’ também mostra que os desafios para ter uma vida digna dentro de casa não estão apenas relacionados ao abastecimento de água.
Novamente em Várzea Grande, a reportagem acompanhou a rotina de dona Nilva Lemes, que sai de casa por volta das 6h para trabalhar. Para chegar ao destino, ela precisa pegar dois ônibus e, em alguns dias, o trajeto pode levar cerca de duas horas.
O atraso de um ônibus acaba comprometendo o restante do percurso. Em uma das situações mostradas pela reportagem, a moradora precisou recorrer a uma corrida de moto para não esperar ainda mais pelo transporte coletivo.
“Não tem condições de ficar horas esperando o ônibus”, desabafa.
Segundo ela, quando um ônibus quebra, os passageiros ficam sem saber quando outro vai passar. A falta de fiscalização também é apontada como um dos problemas enfrentados por quem depende do transporte público.

A reportagem mostra, ainda, obras relacionadas ao Bus Rapid Transport (BRT) em Cuiabá e Várzea Grande. O modal foi escolhido anos depois de o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) ter sido projetado para a Copa do Mundo de 2014.
A proposta é melhorar a mobilidade e reduzir o tempo de deslocamento de quem utiliza o transporte coletivo. Mas, enquanto as obras não terminam, moradores continuam enfrentando dificuldades no trajeto diário.
Planejamento para além de uma obra
Para especialistas ouvidos no episódio da série, os problemas enfrentados pelos moradores não podem ser resolvidos apenas com ações pontuais.
As crises hídricas registradas em entre 2013 e 2021, por exemplo, mostram que o crescimento das cidades aumenta a demanda por água. Por isso, com mais moradores e atividades industriais, também é necessário ampliar a capacidade de captação e tratamento.
A avaliação é de que Mato Grosso precisa de um planejamento integrado e de longo prazo para enfrentar os problemas de infraestrutura. Segundo o especialista, pensar apenas em soluções para o curto e médio prazo não será suficiente diante do crescimento das cidades.

Além das ações do poder público, o episódio também destaca a necessidade de conscientização da população, principalmente durante os períodos de estiagem, com o uso responsável da água.
No fim, fica o relato de quem convive diariamente com essas dificuldades. “As nossas famílias não estão vivendo, nós estamos sobrevivendo”, resume uma das moradoras ouvidas pela reportagem.
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