Após batalha judicial, macaco Guerreiro voltará para família que o salvou em MT
Decisão unânime do TRF1 reconheceu que o animal, que teve uma pata amputada, não pode voltar à natureza e determinou seu retorno à família que o resgatou.
A Justiça Federal determinou a devolução do macaco-prego conhecido como Guerreiro à família que o resgatou e cuidou dele desde os primeiros dias de vida, em Barra do Garças (MT). A decisão unânime da 6ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) foi tomada na quarta-feira (3) e encerra uma disputa judicial que se arrasta desde 2024.

Durante o julgamento, os desembargadores federais Katia Balbino de Carvalho Ferreira, Flávio Jardim e João Carlos Mayer entenderam que o animal, que teve uma das patas amputadas, não possui condições de ser reintroduzido na natureza.
Ao votar, a relatora do caso, desembargadora Katia Balbino, destacou que mantê-lo afastado da família que garantiu sua sobrevivência representaria uma espécie de “prisão perpétua”.
Agora, a decisão será encaminhada à juíza federal Dalila de Castro Riedel, responsável por determinar oficialmente o cumprimento da devolução.
História de cuidado
O médico cirurgião Luiz Morato, responsável pelo resgate, relembrou que encontrou o filhote em situação crítica, próximo à propriedade da família.
“Eu encontrei ele próximo à nossa propriedade, na chácara, caído numa poça, com a boca perto de uma poça de água, sem uma perna, cheia de bichos, e eu não achei que ele sobreviveria”, contou em entrevista ao Primeira Página.
Segundo ele, os primeiros socorros foram realizados ainda no local. “Sou cirurgião, então eu fiz a limpeza da perna, dos bichos, consegui pegar uma veia dele e, através de uma colega neonatologista, consegui ver a dosagem das medicações para ele”, contou.
No dia seguinte, Guerreiro foi levado para atendimento veterinário especializado. De acordo com Morato, os profissionais foram categóricos ao afirmar que o macaco não conseguiria voltar ao habitat natural.
“Os veterinários foram unânimes em dizer que ele não conseguiria se reabilitar, que ele não volta para a natureza por ele não ter uma perna”, relembrou.

Diante desse cenário, a família buscou regularizar a guarda do animal junto aos órgãos ambientais estaduais. O médico afirma que recebeu autorização provisória e, posteriormente, a guarda definitiva, além de providenciar a identificação por microchip, conforme exigência do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Apreensão do Ibama
Apesar disso, dois dias após a emissão da guarda definitiva, agentes do órgão ambiental recolheram o animal. Desde então, segundo Morato, a família deixou de receber informações sobre o paradeiro de Guerreiro, sabendo apenas que ele poderia estar no Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (Cetas), em Brasília.
“Até hoje ele não foi reabilitado. Ele está preso em uma gaiola durante esse período todo que ele ficou no Cetas. A última notícia que eu tive dele faz mais de sete meses. Eles nunca mais deixaram eu ter notícia, nunca mais me deram nenhum tipo de vídeo, de foto, de nada”, contou.
O médico também relatou que a retirada do animal ocorreu durante uma operação com forte aparato policial.
“Eles entraram na minha casa todos armados de fuzil e pistola, como se estivessem invadindo uma boca de tráfico. Mais de 10 homens armados, sabendo onde ele estava, sabendo que ele era chipado, sabendo da história dele”, revelou.
Para Morato, a decisão do TRF1 representa o reconhecimento de que Guerreiro não é um animal oriundo de tráfico ou comércio ilegal, mas um filhote que sobreviveu graças ao resgate.
“O Guerreiro nunca foi comprado, nunca foi tráfico, nunca foi nada. O Guerreiro sempre foi parte da família e hoje ele estaria morto se nós não tivéssemos achado ele”, completou.
Carta da filha emocionou desembargadores
Além dos laudos veterinários e documentos apresentados pela defesa, uma carta escrita por Isabella, filha de Luiz Morato, também marcou o processo. A menina, que acompanhou de perto a recuperação do macaco, pediu que o animal pudesse voltar para casa.
Segundo o médico, a filha jamais deixou de acreditar no retorno do companheiro.
“Ela falou para mim: ‘Não, pai, não precisa, porque o Guerreiro vai voltar. Nenhum animal vai substituir o Guerreiro. Eu vou fazer uma carta para os desembargadores, fazer uma carta para o Guerreiro e você vai mandar essa carta para eles'”, disse em entrevista.
A mensagem chegou aos magistrados por meio do advogado da família, Fernando Tomaz, especialista em Direito Animal, durante a sustentação oral no julgamento.

Ao comentar a decisão, Morato afirmou que a vitória encerra mais de um ano de disputas judiciais e representa o reencontro de Guerreiro com a família que o acolheu.
“Hoje, graças a Deus, a gente conquistou a vitória. Eu sei que ele vai ficar com a gente agora, vai ficar com a família dele.”
A decisão proferida pelo TRF garantiu a devolução imediata do animal. Até o momento não há uma data exata para o retorno de Guerreiro para a família em Mato Grosso. A expectativa do tutor é buscar o animal o quanto antes.
O Primeira Página buscou o Ibama para comentar o caso. A instituição afirmou que ainda não foi comunicado sobre a decisão judicial e que o animal permanece na unidade da Rede Cetas.
Leia a nota completa:
“Até o momento, não foi recepcionado o parecer de força executória mencionado nos sistemas de protocolo da Procuradoria Especializada Federal junto ao Ibama. Assim que o documento for recebido, a decisão judicial será avaliada e cumprida. O animal encontra-se em boas condições de saúde e em processo de reabilitação em uma das unidades da Rede Cetas, do Ibama.”
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