Caso Erlon Bernal: a farsa, o crime e o desfecho
Meu primeiro caso policial revelou a face de um crime bárbaro que mobilizou Campo Grande, deixou feridas abertas e teve seu ponto final agora, mais se dez anos depois.
Em abril de 2014, Campo Grande se uniu nas buscas pelo empresário Erlon Peterson Pereira Bernal.

No primeiro dia daquele mês, Erlon anunciou a venda do carro dele, um Golf, em um classificado na internet. Não demorou para receber a ligação de uma pessoa interessada. Os dois marcaram de se encontrar e, poucas horas depois, o empresário saiu rumo ao endereço combinado: a avenida Interlagos.
Depois disso, Erlon não foi mais visto.
O empresário era casado, pai de dois filhos, e o sumiço imediatamente acendeu sinal de alerta para a família.
A polícia entrou no caso e a notícia ganhou destaque na imprensa. Não era um simples desaparecimento.
Erlon fazia parte da Congregação Cristã no Brasil e, enquanto a igreja se mobilizava para encontrar o empresário, a imprensa fazia plantão em frente à Delegacia Especializada de Repressão a Furtos e Roubos de Veículos (Defurv) para conseguir qualquer pista sobre a investigação.
Eu era uma das repórteres que se revezava em frente à delegacia. Recém-formada na época, o desaparecimento de Erlon foi o primeiro caso policial que cobri.
Foram cinco dias de busca. Cinco dias de angústia.
No dia 6 de abril, um domingo, o corpo de Erlon Bernal foi encontrado dentro da fossa de uma residência localizada no bairro São Jorge da Lagoa.

Na tentativa de esconder o crime, os acusados jogaram entulhos, lixo e até um sofá na fossa. Para resgatar o corpo, a polícia precisou de uma retroescavadeira. Na noite do mesmo dia, as equipes localizaram o carro de Erlon em uma funilaria, com placas trocadas e cor diferente; o prata virou branco.
Quatro suspeitos foram presos e uma adolescente apreendida por envolvimento com o crime.
Começou a tentativa de entender o que havia acontecido.
Durante as investigações, a polícia descobriu que o crime começou a ser planejado dias antes. Desde o início, a ideia era roubar um Golf, e a placa falsa para o carro estava “encomendada” desde o dia 28 de março. Os bandidos só esperavam pela vítima e, no dia 1°de abril, Erlon se tornou o alvo assim que publicou o anúncio de venda do veículo na internet.
Quem marcou com o empresário e foi até o local combinado por telefone foi Thiago Henrique Ribeiro. Ele convenceu Erlon a ir até a casa do bairro São Jorge da Lagoa e lá se juntou a outros dois suspeitos, a adolescente e Rafael Diogo.

Erlon foi coagido a entrar na casa, sentou em uma cadeira de plástico na varanda e, enquanto conversava com Rafael, foi baleado por Thiago. Na época, a delegada responsável pelo caso, Maria de Lourdes Souza Cano, afirmou que ele sequer viu o perigo. “Ela [vítima] foi pega de surpresa e não viu, realmente, a morte acontecer”.
Com um ferimento na cabeça, Erlon foi arrastado pelos pés até a fossa e jogado ali.
Mais tarde foram presos Jefferson dos Santos, o dono da arma usada no crime, e Luiz Valençoela, o proprietário da funerária em que o carro do empresário foi encontrado.

O julgamento dos envolvidos aconteceu no ano seguinte. Em 2015, Thiago foi o único condenado pelo crime, acabou sentenciado a 31 anos de prisão por roubo seguido de morte, associação criminosa e ocultação de cadáver.
Em 2017, um recurso do Ministério Público e da assistência de acusação, feito pelo advogado Otton Nasser, reverteu a situação. Rafael foi condenado a 26 anos, Jefferson a 23 anos e Luiz a 2 anos.
“Foram momentos de angústia. Nós participávamos da Congregação Cristã do Brasil, houve uma mobilização, né. Na cidade. As pessoas estavam mobilizadas para buscar o paradeiro do Erlon. Enfim, foi um momento muito triste, muito triste mesmo”, Otton Nasser.
Com o tempo, os suspeitos foram liberados. Mas Thiago permaneceu preso até o início desse ano.
A última movimentação do processo é a comunicação da morte de Thiago; o documento é de maio deste ano.
Com a morte do homem que atirou em Erlon, morreu também a Justiça dos Homens. Mas o crime vai ficar para sempre lembrado exatamente da maneira que a delegada responsável pela investigação definiu na época: muito bárbaro, muito cruel.
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