CNJ abre investigação contra desembargadores do TJMS suspeitos de corrupção

Ambos os desembargadores permanecerão afastados de suas funções até decisão final dos processos

O CNJ (Conselho Nacional de Justiça) decidiu, nesta terça-feira (11), instaurar PADs (Processos Administrativos Disciplinares) contra os desembargadores Marcos José de Brito Rodrigues e Sideni Soncini Pimentel, afastados por suposto envolvimento em esquema de venda de decisões judiciais no TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul).

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Da esquerda para direita, Marcos José de Brito Rodrigues (Foto: Wagner Guimarães) e Sideni Soncini Pimentel. (Foto: TRE-MS)

As decisões foram tomadas de forma unânime pelo plenário do CNJ durante a 15ª Sessão Ordinária de 2025. Na prática, um PAD é um procedimento formal instaurado pelo Conselho Nacional de Justiça para apurar possíveis infrações cometidas por magistrados (juízes e desembargadores) no exercício de suas funções.

Afastados

Os casos, relatados pelo corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell Marques, estão relacionados à operação Ultima Ratio, deflagrada pela Polícia Federal para investigar crimes de corrupção e comercialização de sentenças.

Segundo o relator, há indícios de um esquema sistemático envolvendo juízes de primeiro grau e desembargadores do TJMS, com base em interceptações telefônicas, documentos apreendidos e movimentações financeiras suspeitas.

No processo referente a Marcos José de Brito Rodrigues, o CNJ manteve o afastamento cautelar do magistrado até a conclusão do PAD. Campbell classificou a situação como “promiscuidade institucional”, citando casos em que decisões judiciais teriam beneficiado escritórios de advocacia ligados a filhos de desembargadores e lobistas. O Conselho também rejeitou o pedido de arquivamento da Reclamação Disciplinar, negando validade ao requerimento de aposentadoria apresentado pelo magistrado.

O que disse a defesa de Marcos Rodrigues

Em sua fala a advogada do desembargador, Talita Paim de Lima, afirmou que o magistrado já está sendo punido há mais de um ano e que sua carreira, de quase 40 anos, sempre foi irrepreensível. Ela classifica as acusações como uma “caça às bruxas” e critica o sensacionalismo da imprensa, que teria divulgado informações antes mesmo da tramitação formal dos processos.

Segundo a defesa, “não há indícios de corrupção nos julgamentos do desembargador”, uma vez que as decisões questionadas foram tomadas de forma colegiada e submetidas a tribunais superiores. O relatório da Polícia Federal, base das medidas cautelares, utilizaria termos imprecisos como “talvez” e “provável”, sem apresentar provas concretas de enriquecimento ilícito ou venda de decisões.

A advogada também questiona a relação de Marcos Brito com outros investigados, destacando que não há vínculo comprovado com eles e que algumas decisões atribuídas a ele foram, na verdade, proferidas por outros magistrados. Ela ressalta ainda que o desembargador atuou em cargos que exigiam interação com outros juízes, mas sem interferir indevidamente nas decisões.

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15ª Sessão Ordinária de 2025. (Foto: Luiz Silveira/CNJ)

Situação semelhante foi decidida no caso do desembargador Sideni Soncini Pimentel, também alvo da operação Ultima Ratio. A defesa de Pimentel havia solicitado o arquivamento do processo sob o argumento de que sua aposentadoria já havia sido homologada pelo TJMS, mas o plenário do CNJ rejeitou o pedido e determinou a continuidade da apuração.

Aposentadoria

Cabe citar que Sideni Soncini Pimentel, mesmo diante das suspeitas, conseguiu se aposentar com dois anos de antecedência da idade limite de trabalho no judiciário, que é de 75 anos. O TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) concedeu a aposentadoria voluntária ao desembargador no último dia 15 de outubro, mas ele já estava afastado do cargo desde outubro de 2024, após ser alvo da Operação Ultima Ratio, que investiga a venda de sentenças na cúpula do Judiciário de MS.

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Corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell. (Foto: Luiz Silveira/CNJ)

Durante as investigações, autorizadas pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), foram apreendidos mais de R$ 3 milhões em espécie e armas em endereços de magistrados investigados. Os filhos de Pimentel também são alvo das investigações.

O que disse a defesa de Sideni

A defesa do desembargador Sideni Soncini Pimentel, o advogado Otávio Ribeiro Lima Mazieiro, pediu ao CNJ o arquivamento da Reclamação Disciplinar instaurada contra ele, alegando que o magistrado pleiteou voluntariamente sua aposentadoria, concedida em outubro de 2025, quando estava prestes a completar 74 anos.

Segundo o advogado, o desembargador já havia permanecido afastado judicialmente por cerca de um ano, por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), e continuava afastado administrativamente desde agosto de 2025, no âmbito do CNJ. Por isso, sua aposentadoria teria sido uma medida natural e não uma “tentativa de evitar a investigação”.

A defesa sustentou que as apurações judiciais continuarão em curso, permitindo que Pimentel esclareça as acusações e demonstre a regularidade de sua conduta durante 44 anos de carreira. Assim, pede-se o arquivamento do procedimento administrativo disciplinar — ou, de forma alternativa, a suspensão do processo até a conclusão das investigações criminais conduzidas pela Polícia Federal.

Os pedidos, contudo, também foram negados.

Com a abertura dos dois PADs, o CNJ reforça o acompanhamento das investigações sobre possíveis irregularidades no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul. Ambos os desembargadores permanecerão afastados de suas funções até decisão final dos processos.

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