Em júri, delegado afirma que colete de atirador que matou advogado em Cuiabá levantou suspeita sobre policiais

Em depoimento, o delegado Bruno Abreu disse que o executor aparentava ter treinamento policial e usava um colete à prova de balas.

O advogado Renato Gomes Nery escapou de uma primeira tentativa de execução antes de ser assassinado em frente ao escritório onde trabalhava, em Cuiabá. A revelação foi feita nesta quarta-feira (15) pelo delegado Bruno Abreu, durante o júri do caseiro Alex Roberto de Queiroz Silva, apontado pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) como autor dos disparos que mataram o advogado em 5 de julho de 2024.

Responsável pela investigação, o delegado afirmou aos jurados que imagens de câmeras de segurança mostram que o crime estava inicialmente planejado para ocorrer no dia 4 de julho de 2024, mas acabou sendo adiado porque Renato não compareceu ao escritório naquele dia.

Segundo Bruno Abreu, o monitoramento da rotina da vítima permitiu que Alex retornasse na manhã seguinte. Assim que Renato chegou ao escritório, o atirador desceu da motocicleta, efetuou os disparos e fugiu logo em seguida.

Outro detalhe revelado pelo delegado é que o executor sabia que a câmera que registraria o momento dos tiros não estava funcionando.

“A câmera que pegaria ele atirando estava quebrada. Vimos nas investigações que o autor tinha ciência disso. O atirador executando não temos imagens, mas diante das imagens da rota de fuga vimos que foi ele”, afirmou.

Video mostra momento em que o advogado chega no escritório e é baleado na calçada. – Vídeo: Reprodução

Mesmo sem imagens do momento da execução, a Polícia Civil conseguiu reconstruir o trajeto percorrido pelo suspeito por meio de câmeras instaladas em diferentes pontos da cidade. As imagens mostram Alex seguindo até a Ponte Sérgio Motta, passando pela Avenida da FEB e seguindo para a região do Capão Grande, em Várzea Grande.

Roupas levantaram suspeitas

Durante o depoimento, Bruno Abreu descreveu que o suspeito utilizava roupas pretas, luvas, botas, motocicleta sem placa e um equipamento semelhante a um colete balístico, circunstâncias que despertaram a atenção dos investigadores.

“Ele estava camuflado com luvas, roupas pretas, bota preta, moto sem placa, todo de preto. Chamou atenção que ele estava com um tipo de colete à prova de balas. Por isso pensamos que poderia ter até participação de policiais”, declarou.

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Momento em que Alex Roberto deixa o local do crime após atirar contra Renato Nery. – Foto: Reprodução

O delegado também explicou que testemunhas relataram ter ouvido diversos disparos, semelhantes ao som de uma rajada de metralhadora. Posteriormente, a investigação constatou que a arma utilizada havia sido adaptada para realizar disparos em sequência.

Dias depois do crime, uma bala foi encontrada no estacionamento do supermercado Assaí, indicando que outras pessoas poderiam ter sido atingidas durante a execução.

Como a investigação chegou aos mandantes

Bruno Abreu contou que a investigação analisou diversas linhas até identificar a motivação do homicídio. Uma delas envolvia uma denúncia feita por Renato Nery à Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso (OAB-MT), na qual ele relatava a existência de um suposto “escritório do crime” formado por advogados e integrantes do Judiciário.

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Cesar Jorge Sechi e Julinere Goulart Bastos são apontados como mandantes da morte de Nery. – Foto: Primeira Página

Outra linha de investigação apontava para uma disputa judicial envolvendo uma propriedade rural em Novo São Joaquim, processo que tramitava havia cerca de 30 anos e tinha como parte o casal de empresários Julinere Goulart Bastos e César Jorge Sechi.

“O Renato citou a Julinere em uma petição. Perguntei ao Walmir (amigo de Renato) se ele tinha algum valor a receber dela e ele disse que sim. Havia uma briga jurídica e uma animosidade entre eles. Quando fizemos busca e apreensão na casa dela, ela estava muito nervosa. Descobrimos que ela formatou o celular dias antes da nossa busca. Ela estava com raiva dele”, afirmou.

Chácara, motocicleta e falso confronto

Durante as investigações, a Polícia Civil também chegou ao policial militar Heron Teixeira Pena Vieira, apontado pelo Ministério Público como um dos intermediadores da execução.

Na chácara de Heron, os investigadores encontraram uma chave compatível com a motocicleta vermelha utilizada pelo atirador. O delegado afirmou ainda que a propriedade não apresentava indícios de atividade rural e possuía uma placa do Comando Especializado da Polícia Militar.

“Ao chegar na chácara achamos uma chave que depois descobrimos que era compatível com a Honda vermelha. Além disso, a propriedade não tinha indícios de exercer qualquer atividade de criação de animais. Tinha uma placa escrito Comando Especializado da PM. Então tivemos certeza de que era usada por policiais”, relatou.

Segundo Bruno Abreu, as investigações também apontaram que Alex Roberto trocou diversas vezes de telefone após o homicídio e recebeu um iPhone de Heron no dia 11 de julho de 2024.

No dia seguinte ocorreu o suposto confronto policial no Contorno Leste, em Cuiabá, ocasião em que a arma utilizada no assassinato de Renato Nery foi localizada. De acordo com o delegado, a investigação comprovou que o confronto foi forjado para atribuir a arma a terceiros.

“O intuito era incriminar outras pessoas. As cápsulas recolhidas no homicídio foram periciadas em um banco nacional de balística e descobrimos que pertenciam a munições destinadas ao batalhão da Rotam. A arma que apareceu no falso confronto era a mesma usada para matar Renato. Depois que fizemos busca e apreensão nos celulares desses policiais ficou provado que o confronto nunca existiu”, concluiu.

Heron confessou valor prometido e detalhou cadeia de contratação, diz delegado

Outro ponto destacado por Bruno Abreu foi a forma como a Polícia Civil conseguiu reconstituir a sequência de contratações que, segundo a investigação, culminou na execução de Renato Nery.

O delegado afirmou que, ao localizar Alex Roberto, os investigadores ouviram a esposa dele, que constava como proprietária da motocicleta usada no crime. Durante a investigação, descobriram que o veículo havia sido levado para Barão de Melgaço na tentativa de escondê-lo após o homicídio.

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Policial militar Heron Teixeira Pena Vieira é acusado de intermediar a morte de Renato Nery. – Foto: Reprodução

A partir da análise dos celulares apreendidos, a investigação também encontrou, no telefone de Julinere Goulart Bastos, o contato do policial militar Jackson Pereira Barbosa.

Segundo Bruno Abreu, Heron confirmou em depoimento que recebeu de Jackson a proposta para participar do homicídio. Os dados extraídos dos aparelhos celulares também indicaram que Heron esteve em Primavera do Leste no período em que as tratativas para o crime teriam ocorrido.

O delegado afirmou ainda que Heron confessou que a execução foi acertada por R$ 200 mil. Conforme o relato, o pagamento demorou a ser efetuado, o que fez com que ele viajasse diversas vezes a Primavera do Leste para cobrar o valor prometido.

De acordo com Bruno Abreu, Jackson inicialmente disse a Heron que o alvo seria o sogro dele. Posteriormente, revelou que os interessados na execução eram o casal de empresários César Jorge Sechi e Julinere Goulart Bastos, moradores do mesmo condomínio em que Jackson morava.

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Casal de empresários, caseiro e policiais militares foram denunciados pela morte de Renato Nery. – Foto: Primeira Página

No depoimento ao júri, o delegado resumiu a estrutura apontada pela investigação. Segundo ele, Ícaro Nathan Santos Ferreira forneceu a arma utilizada no crime, Jackson Pereira Barbosa articulou a contratação, Heron Teixeira Pena Vieira recrutou Alex Roberto de Queiroz Silva, responsável pelos disparos.

“Ícaro contratou Jackson, Jackson contratou Heron e Heron contratou Alex. Ícaro deu a arma do crime. Munições do Estado. Arma fria”, afirmou.

‘Minha família não sabia se também seria morta’, relata filha de Renato Nery

Lívia Moreira Gomes Nery, filha da vítima, foi a primeira testemunha de acusação a depor no julgamento. Sentada a poucos metros de Alex Roberto de Queiroz Silva, apontado como executor do crime, ela afirmou que, além da dor pela perda do pai, a família viveu meses de medo sem saber se também seria alvo dos criminosos.

“Minha família, amigos, não sabíamos o que ia acontecer, se iam vir atrás de nós também nos matar. Às 5h15 meu pai faleceu”, relatou, ao lembrar as horas em que permaneceu no hospital acompanhando o estado de saúde do advogado.

Lívia contou que estava no trânsito quando recebeu a notícia de que o pai havia sido baleado. Ao chegar no escritório, o encontrou caído na calçada, com ferimentos na cabeça provocados pelos disparos. Ela entrou na ambulância com os socorristas e acompanhou o atendimento. “Eu vi meu pai chorando e gritando de dor”, disse.

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Local onde Renato Nery foi baleado em frente ao escritório na Avenida Fernando Correa. – Foto: Reprodução

No hospital, segundo a filha, a família enfrentou momentos de desespero e insegurança. Ela relatou que foi alertada de que pessoas poderiam se passar por policiais para tentar pegar o celular e outros pertences do advogado. Também ouviu comentários de profissionais que questionavam o que Renato teria feito para receber tantos tiros.

Quando conseguiu autorização para entrar na UTI, encontrou o pai após uma cirurgia de descompressão craniana. Muito emocionada, ela chorou e contou que não reconheceu o pai.

Lívia explicou ainda que a irmã, Renata Nery, inicialmente seria ouvida no júri, mas acabou substituída porque ainda enfrenta forte abalo emocional.

“Sabemos que serão vários júris, porque há vários envolvidos. Conversamos e entendemos que eu estava emocionalmente melhor para prestar esse depoimento”, afirmou.

Ao falar sobre as investigações, ela disse que as imagens das câmeras de segurança mostram que o escritório foi monitorado dias antes da execução e afirmou que o atirador demonstrava treinamento.

Segundo Lívia, ao acompanhar o processo, ela também teve acesso a depoimentos que indicam que Alex Roberto teria se vangloriado do assassinato. “Quando ele viu que os tiros espalharam, ele se vangloriou. Disse isso para amigos”, relatou.

No fim do depoimento, a filha lembrou que Renato vivia um momento feliz da vida, havia superado um câncer, tinha uma nova companheira e planejava diminuir o ritmo de trabalho.

“Nos últimos meses antes de morrer ele estava feliz. Os processos estavam avançando, estava tudo dando certo e a vida amorosa também”, contou.

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