Em júri, pais acusados de matarem bebê e simularem acidente dão versões diferentes; veja
O pai da criança, Francinaldo José de Araújo Silva, afirmou que a esposa Talita Canavarros Soares deixou a criança cair, contudo disse não ter visto. Já a mãe do bebê alegou que deixou o filho cair, mas que não se lembrava aonde.
Acusada da morte do próprio filho de um mês de vida, Talita Canavarros Soares afirmou que deixou a criança cair no chão, porém, negou ter agido com violência. A alegação foi feita durante depoimento ao Tribunal do Júri nesta terça-feira (24). O crime ocorreu em Barra do Bugres (MT) no dia 2 de janeiro de 2021.
Já o pai da criança, Francinaldo José de Araújo Silva, que também é julgado, negou ter agredido a vítima e afirmou que, no dia 1º de janeiro de 2021, estava com Talita em uma festa na casa da mãe dela e de lá, saíram e foram para casa. Já na residência do casal, o bebê teria caído das mãos de Talita na varanda, mas cita que não buscaram ajuda médica naquele momento.

Apesar de afirmar que a criança caiu, diz não ter visto o momento. “Eu sei que tenho culpa. Eu deveria ter chamado o Samu, mas não passou pela minha cabeça”, disse Francinaldo.
Ele relatou ainda que Talita teria colocado a criança na cama, em seguida pegado no sono e não visto mais nada durante a noite. Já na manhã do dia 2 de janeiro de 2021 disse que achou estranho o fato de a criança não chorar e chamou Talita para verificar o que estava acontecendo. Ao perceber que o bebê estava morto, afirmado ter ficado desesperado.
Durante o interrogatório, o Ministério Público questionou Francinaldo se Talita teria coragem de matar o próprio filho. Ele respondeu: “ela, na bebida, talvez”. Contudo, questionado diretamente se havia visto Talita arremessar o bebê, respondeu: “Não vi”.

Depoimento da mãe
Talita afirmou que estava embriagada no dia 1º de janeiro de 2021 e que, após derrubar o bebê, foi dormir com ele. Porém, ao acordar, disse ter percebido que o bebê já estava morto ao seu lado. Ela ainda negou que tanto ela quanto o marido usariam ou vendiam drogas.
Questionada sobre a versão de que a morte da criança teria ocorrido por asfixia, Talita respondeu: “Estávamos sob efeito do álcool e não estava pensando direito, estava em choque”.

Contradição de versões e conduta “fria”
Durante o julgamento, a policial civil Adriana Oennibg, que atuou na investigação do caso, narrou que a postura dos pais chamou a atenção da equipe que atendeu a ocorrência. Segundo ela, o comportamento da mãe foi considerado incomum e cita que Talita aparentava frieza e comportamento debochado.
De acordo com a policial, em um primeiro momento os pais disseram que haviam dormido e que, durante a noite, teriam rolado sobre o bebê na cama. Depois, afirmaram que a criança teria caído no chão durante o sono. Em outra versão, disseram que o bebê teria sido asfixiado enquanto dormiam.
A policial destacou que essas contradições surgiram ainda na cena do crime. Já na delegacia, em depoimento formal, ambos passaram a afirmar que não sabiam o que havia acontecido com a criança e negaram qualquer prática criminosa.
O delegado responsável pela investigação do caso, Rodolpho Bandeira, narrou que após ser levada à delegacia, Talita teria apresentado comportamento “frio”, como se nada tivesse ocorrido e sem demonstrar sentimento de perda.
Ele explicou que, conforme apontado pelos peritos, havia indícios de lesões mais antigas pelo corpo, mas que a causa da morte foi a lesão na cabeça. Segundo o delegado, chamou a atenção da polícia o fato de o casal não demonstrar sentimento de perda ou abalo emocional diante da morte da criança.
Outra testemunha que reforçou essa afirmação é o policial Anderson Antônio da Silva, que atendeu a ocorrência no dia dos fatos. Em depoimento, ele relatou que, durante o atendimento, Talita aparentava frieza e chegou a sorrir em alguns momentos.
Ainda durante a oitiva, o policial relatou que tanto Talita quanto Francinaldo estavam em visível estado de embriaguez. Segundo ele, o casal relatou que ingeriu bebida alcoólica durante todo o dia 1º de janeiro de 2021 e também no dia seguinte, 2 de janeiro de 2021, data em que ocorreu a morte do bebê.
Ele cita ainda que havia resquícios de entorpecentes na casa dos réus. O material foi encaminhado para perícia, que confirmou se tratar de entorpecente.
Dia do crime
De acordo com a denúncia do Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT), o crime ocorreu na manhã do dia 2 de janeiro de 2021, em uma residência em Barra do Bugres. Conforme apurado no inquérito policial, a criança foi encontrada já sem vida, apresentando sinais de sangramento no nariz e na boca.
A denúncia aponta que os pais da vítima teriam causado lesões na criança, que foram confirmadas por laudo de necrópsia como causa da morte. O documento também indica que a vítima sofreu traumatismo craniano, seguido de hemorragia e convulsão.
Ainda segundo a denúncia, os réus teriam ingerido bebida alcoólica por várias horas no dia dos fatos e, posteriormente, deixado de prestar os cuidados necessários à criança. Há indícios de que, após a lesão, o bebê foi deixado sobre a cama enquanto os acusados dormiam, o que teria contribuído para o agravamento do quadro clínico e, consequentemente, para a morte.
Laudo de necropsia trouxe elementos ainda mais graves. O médico legista apontou a presença de hematomas recentes e antigos no corpo da criança, o que sugere episódios anteriores de agressão.
Além disso, a gravidade das lesões levou à conclusão de que o bebê pode ter sido arremessado contra uma superfície, como parede ou chão, o que reforça a hipótese de violência intencional.
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