Estrutura da Alems era usada na guerra pelo controle do jogo do bicho
Deputado estadual Neno Razuk (PL) e outros 11 foram condenados por organização criminosa para tomar o controle do jogo do bicho
A condenação do deputado estadual Roberto Razuk Filho, o Neno Razuk (PL), confirmou o uso da estrutura pública da Alems (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul) pelos homens que brigavam na rua pelo controle do jogo do bicho em Campo Grande. O Primeira Página teve acesso aos detalhes da investigação, que revelam que dois dos capangas mais importantes da organização criminosa recebiam como assessores e até as impressoras do Legislativo sul-mato-grossense eram usadas para o crime.

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As investigações contra Neno Razuk começaram ainda em 2024, com a denúncia de roubos a motociclistas que recolhiam malotes de bancas do jogo do bicho em Campo Grande. Foi assim que policiais do Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Banco, Assaltos e Sequestros) chegaram a uma casa, onde apreenderam 705 máquinas usadas nos jogos.
Aos poucos, a investigação revelou que os homens presos naquele dia, dentro da casa, eram liderados pelo deputado estadual e travavam uma “guerra” pelo controle do jogo do bicho, que um dia foi de Jamil Name, peça central da operação Omertá, deflagrada em setembro de 2019, quando a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul e o Gaeco prenderam empresários, policiais e, na época, guardas municipais, investigados por execuções no estado.
Clique aqui e assista documentário da TV Morena, no Globoplay, que detalha a operação.
Outra característica presente e típica das organizações criminosas é a infiltração nas esferas de poder. Um dos réus era deputado estadual. Empregava os comparsas no próprio gabinete. Três dos principais operadores da organização (Gilberto Luis dos Santos, Manoel José Ribeiro e Diego de Souza Nunes) estavam nomeados como assessores parlamentares no gabinete do deputado. Imprimia material do jogo do bicho nas impressoras da Assembleia Legislativa.
Trecho da decisão
Segundo investigação, Gilberto Luis dos Santos e Manoel José Ribeiro, major e sargento reformados, foram os responsáveis pelos roubos aos rivais e Diego foi quem usou a impressora da Alems.
Gilberto e Manoel se “vestiam” de policiais para ameaçar os motociclistas e convencê-los a mudar de lado e trabalharem para o deputado. Toda a estratégia era pensada por Neno e tinha uma única finalidade: controlar o “bicho” da cidade.
Em conversas interceptadas pelo Gaeco, o deputado assumiu para o irmão ser ele o cabeça da guerra entre grupos na capital. “Quem tá em briga sou eu”.
Grande parte da estratégia era planejada entre ele e José Eduardo Abdulahad, o Zeizo, apontado como o gerente do grupo.
Zeizo pagava os “funcionários” do bicho e colocava em prática o plano de derrubar os rivais, que eram monitorados de perto, o responsável por isso era Diogo Francisco.
Diogo atuava no “setor de inteligência” para municiar a liderança de informação, era ainda o homem de confiança de Zeizo. Ele mapeava endereços e veículos dos rivais e repassava tudo ao gerente.
Zeizo, mesmo sem estar dentro da Alems, tinha livre acesso, ao ponto de mandar que Diego de Souza, assessor de Neno, imprimisse fotos dos endereços dos rivais e outras informações nas impressoras do Legislativo estadual. O controle era tanto que a ordem era bem específica: usar as máquinas que imprimiam colorido.
Todo o material, de acordo com a investigação, seria usado em um plano que foi frustrado pela operação Successione.
Na segunda-feira, dia 15 de dezembro, Neno Razuk, Gilberto Luis dos Santos, Manoel José Ribeiro, José Eduardo Abdulahad e Diogo Francisco, foram condenados.
- Roberto Razuk Filho – 15 anos, 7 meses e 15 dias de reclusão, em regime fechado; terá o direito de recorrer em liberdade
- Gilberto Luis dos Santos – 16 anos, 4 meses e 29 dias de reclusão, em regime fechado; permanecerá preso;
- Manoel José Ribeiro – 13 anos, 7 meses e 1 dia de reclusão, em regime fechado; permanecerá preso;
- José Eduardo Abduladah – 4 anos e 1 mês de reclusão, em regime fechado; permanecerá em prisão domiciliar;
Diego de Souza foi absolvido porque, segundo o juiz José Henrique Kaster Franco, apesar de ter ajudado a organização criminosa, não foram encontradas provas de sua participação ativa. Ele foi exonerado do cargo, já Neno Razuk continuou o mandato sem intercorrências.
Agora, além da condenação criminal, Neno Razuk foi sentenciado a perda do mandato eletivo e a interdição para exercício de cargo público pelo prazo de 8 anos.
A defesa do deputado afirmou que recorrerá da decisão. O presidente da Alems, Gerson Claro (PP), afirmou que a Casa ainda não foi oficialmente notificada pelo Judiciário sobre a condenação do deputado. Segundo ele, sem comunicação formal, não haverá nenhuma manifestação institucional.
Outras defesas
Procurada pela reportagem, a defesa do réu Diogo Francisco retornou. Por mensagem, afirmou que vai “analisar a sentença na íntegra” e que a condenação “foi devida”. “Dentro do prazo recursal, vamos ver a viabilidade se é plausível ou não”.
A defesa dos demais réus não retornou até o momento ou não foram localizadas. O espaço segue aberto.
Nesta quarta-feira (17), o presidente da Alems (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul), Gerson Claro (PP), afirmou que a Casa ainda não recebeu nenhuma notificação oficial do Judiciário, até o fim da manhã.
À reportagem, Claro destacou que, sem comunicação formal, a Alems não fará qualquer manifestação sobre o caso. “A gente não pode falar nada sem ter [notificação] oficialmente. Se não, vira especulação”, disse.
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