Juíza é afastada por suspeita de beneficiar marido em processo de feminicídio

A decisão é da desembargadora Nilza Maria Pôssas de Carvalho e integra um Procedimento Administrativo Disciplinar (PAD) instaurado para apurar a conduta da magistrada. O afastamento foi confirmado pelo Órgão Especial do TJMT no início deste ano.

O Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) determinou o afastamento cautelar por 90 dias da juíza Maria das Graças Gomes da Costa, titular da Vara Especializada da Infância e Juventude de Rondonópolis. A medida foi adotada após o Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPE) apresentar reclamação disciplinar no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), apontando suspeitas de irregularidades graves relacionadas a um caso de feminicídio e à disputa judicial pela guarda de uma criança.

Design sem nome 2026 01 21T084316.292
Juíza é afastada após denúncias ligadas a crime atribuído ao marido. – Foto: reprodução.

A decisão é da desembargadora Nilza Maria Pôssas de Carvalho e integra um Procedimento Administrativo Disciplinar (PAD) instaurado para apurar a conduta da magistrada. O afastamento foi confirmado pelo Órgão Especial do TJMT no início deste ano.

A reclamação do MPE sustenta que há indícios de possível ciência prévia ou posterior da juíza sobre o assassinato da bancária Leidiane Souza Lima, de 34 anos, morta a tiros em janeiro de 2023. O principal acusado é o empresário Antenor Alberto de Matos Salomão, marido da magistrada.

Segundo o Ministério Público, registros telefônicos indicam contatos do réu com a juíza imediatamente após o crime. O órgão também apontou que, durante o período em que Antenor esteve em liberdade cautelar, ele teria utilizado documento de porte de arma funcional pertencente à magistrada.

Leia também – Dois juízes são afastados do cargo em MT

Após ser preso em fevereiro de 2023, o empresário obteve habeas corpus e passou a responder ao processo com medidas cautelares, incluindo tornozeleira eletrônica. Em agosto de 2025, a prisão preventiva foi novamente decretada, e ele permanece custodiado na Penitenciária Regional Major Eldo de Sá Corrêa.

Design sem nome 2026 01 21T084406.545
A bancária Leidiane Sousa Lima, 34, foi morta em janeiro de 2023, em Rondonópolis. – Foto: reprodução.

Disputa pela guarda e acusações de interferência

Além das suspeitas ligadas ao feminicídio, o MPE aponta possível interferência indevida da juíza em processos de guarda envolvendo a filha de Leidiane com Antenor, hoje com cinco anos. Conforme a reclamação, havia uma disputa judicial desde 2022, na qual teriam sido identificados indícios de atuação institucional da magistrada em favor do então companheiro.

O Ministério Público sustenta que a juíza teria exercido influência sobre conselheiros tutelares e equipes técnicas, resultando em laudos desfavoráveis à mãe da criança. Pouco depois de Leidiane contratar advogado particular para tentar reverter decisões no processo de guarda, ela foi assassinada.

Leia também – 50 juízes de MT são alvos de investigação nos últimos 5 anos

Após a prisão de Antenor, a criança permaneceu sob os cuidados da magistrada até decisão de urgência proferida no fim de 2025, que concedeu a guarda unilateral à avó materna. Mesmo assim, conforme os autos, a juíza teria deixado a cidade com a criança e se esquivado de intimações judiciais, situação que motivou questionamentos do MPE ao CNJ.

A reclamação foi protocolada pelo Ministério Público em 19 de dezembro passado e analisada pelo corregedor nacional de Justiça, Mauro Campbell Marques, que solicitou informações ao judiciário de Mato Grosso sobre o cumprimento da ordem de busca e apreensão da criança e as providências adotadas no PAD.

Leia também – Suspeito de matar bancária é companheiro de juíza de Rondonópolis

Em resposta, o tribunal informou que a criança já havia sido entregue à avó materna em 20 de dezembro e confirmou o afastamento cautelar da magistrada.

O MPE também relatou que mais de uma dezena de magistrados da comarca de Rondonópolis se declarou suspeita ou impedida para atuar nos processos relacionados à guarda. Defensores públicos locais igualmente se recusaram a atuar em favor da avó, sem designação de defensor dativo, o que levou à intervenção da comarca de Cuiabá para ajuizar a ação de guarda.

O afastamento da juíza permanecerá válido enquanto o PAD tramita no âmbito do TJMT e do CNJ, podendo resultar em novas sanções disciplinares, a depender das conclusões das investigações.

Confira o posicionamento da magistrada na íntegra:

O afastamento cautelar da Dra Maria das Graças, Magistrada da Comarca de Rondonópolis, determinado pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso e não pelo CNJ, não tem relação com investigação criminal e não envolve fatos em investigação atribuídos a terceiros.

Não recai sobre a Magistrada qualquer modalidade de investigação criminal, em qualquer instância. Causa estranheza absurda a deturpação do procedimento administrativo e da real verdade dos fatos.

O afastamento decorre de um PAD, de natureza estritamente administrativa, previsto nas normas do Conselho Nacional de Justiça. A medida tem caráter cautelar, preventivo e temporário, sem qualquer juízo definitivo de responsabilidade.

O entendimento adotado pelo Tribunal refere-se a uma avaliação cautelar relacionada ao não cumprimento imediato de uma decisão, DECISÃO DA QUAL A MAGISTRADA NÃO HAVIA SIDO INTIMADA, inexistindo obrigação resistida.

Não há imputação de crime, nem afirmação de conduta ilícita.

Ressalta-se ainda que o procedimento que fundamenta o afastamento tramita sob segredo de justiça, e causa enorme desinformação sua divulgação de forma completamente ilegal e sobretudo MENTIROSA. O único objetivo desse tipo de vazamento é enfraquecer a imagem pessoal e profissional da Magistrada, que nunca teve uma mancha em seu currículo, nesses 40 anos de servir ao Poder Judiciário.

Cumpre esclarecer que o afastamento foi fixado pelo prazo inicial de 90 dias, com manutenção integral da remuneração, podendo ser revisto a qualquer tempo.

A medida não representa punição, mas apenas um entendimento cautelar administrativo, adotado até a completa apuração dos fatos.

Leia mais

  1. Vereador de Várzea Grande pede afastamento da Comissão de Ética após escândalo com esposa

  2. Preso em operação, prefeito de Terenos pede afastamento de cargo

  3. Barbudo participa de sessões online e nega afastamento da Câmara

  4. STJ mantém afastados diretores de presídio investigados por tortura em Sinop

  5. Ex-vereador e servidor do TJMT é afastado por suspeita de fraude de R$ 21 milhões

  6. Chega ao fim o prazo de afastamento de desembargadores e conselheiro no TJMS

FALE COM O PP

Para falar com a redação do Primeira Página em Mato Grosso, clique aqui. Curta o nosso Facebook e siga a gente no Instagram.

Leia também em Justiça!

  1. primeira pagina 2026 06 14T122345.496

    Indígenas Cinta Larga expõem preocupações sobre mineração em reunião com órgãos federais em Cuiabá

    Representantes de aldeias do povo da Terra Indígena (TI) Cinta Larga expuseram...

  2. Obras do BRT revelam falhas na drenagem e fecham trecho da Avenida Prainha. - Foto: Secom-MT.

    Falhas em autuações levam Junta Administrativa a anular multas em Cuiabá

    Diversos motoristas conseguiram anular multas de trânsito, em Cuiabá após recorrerem das...

  3. primeira pagina 2026 06 12T184222.876

    Desvio na ALMT: Justiça cobra R$ 9,7 milhões de ex-deputado em caso envolvendo rádio de Arcanjo

    O ex-presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), Humberto Melo Bosaipo,...