Justiça Federal manda suspender emissão de novas licenças para construção de ferrovia

Ação movida pelo MPF, após requerimento do DPU, aponta para o descumprimento à Convenção OIT nº 169

A Justiça Federal acatou parcialmente o pedido do MPF (Ministério Público Federal) e da DPU (Defensoria Pública da União) e mandou suspender a emissão de novas novas licenças ambientais para construção da ferrovia estadual do trecho de Rondonópolis a Lucas do Rio Verde. Determinou também que povos indígenas sejam consultados sobre a obra.

Ferrovia Rumo

Cabe recurso da decisão, que é liminar (temporária) e foi dada na sexta-feira (12), pelo juiz federal Pedro Maradei Neto, da 1ª Vara Federal Cível e Criminal de Rondonópolis.

A ação movida pelo MPF, após requerimento do DPU (Defensoria Pública da União), aponta para o descumprimento à Convenção OIT nº 169, que define a consulta dos povos indígenas, no licenciamento do trecho da ferrovia de Rondonópolis a Lucas do Rio Verde.

Decisão

Além da suspensão das novas licenças por parte da Sema (Secretaria de Estado de Meio Ambiente), a liminar obriga a Funai (Fundação Nacional do Índio) a intervir no processo de licenciamento ambiental do empreendimento, com objetivo de promover e concretizar a consulta aos povos, no prazo de 90 dias. A multa é de R$ 5 mil por dia, em caso de descumprimento da determinação.

Na decisão, o magistrado frisou que não se faz necessário suspender a licença já emitida porque a mesma não atinge o trecho de terras indígenas.

“Tenho que com razão os requeridos quanto à alegação de que a anulação das licenças já concedidas e a paralisação total do licenciamento ambiental seria desproporcional e mesmo desnecessária”, diz na decisão.

Conforme a liminar, a empresa Rumo Malha Norte S/A, responsável pelas obras, deve adotar as medidas para proceder com os estudos do componente indígena e ajudar a viabilizar a audiência junto às comunidades envolvidas, também sob pena de multa, em caso de descumprimento.

Outro lado

A Sema (Secretaria Estadual de Meio Ambiente) informou que o estado ainda não foi notificado, mas irá cumprir a decisão judicial.

Por nota, a Rumo disse que a LP (Licença Prévia) e a LI (Licença de Instalação) para construção do primeiro trecho da Ferrovia de Integração Estadual de Mato Grosso foram emitidas obedecendo todos os trâmites legais.

A empresa afirma que, com relação à necessidade de consulta a comunidades indígenas no entorno do empreendimento antes da emissão das próximas licenças, está avaliando o teor da decisão, bem como eventuais desdobramentos.

A Rumo informou ainda que está seguindo todos os parâmetros normativos exigidos pela Sema, Funai, Iphan e demais órgãos competentes.

Leia mais

  1. MPF entra com ação na Justiça e pede suspensão de licenciamento de ferrovia em MT

  2. Polícia faz operação contra furto e adulteração de cargas no principal terminal ferroviário de MT

  3. Ferrovia: obra entre Rondonópolis e Cuiabá deve começar no 2º semestre

O projeto

A ferrovia é um projeto de iniciativa do Governo do Estado, do qual a Rumo S.A foi a vencedora da licitação em 2021. Esta é a primeira ferrovia estadual de Mato Grosso.

O projeto prevê a implantação de 730 quilômetros de linha férrea, conectando o Terminal de Cargas de Rondonópolis com Cuiabá, Nova Mutum e Lucas do Rio Verde.

O total do investimento é de R$ 12 bilhões, entre 2021 e 2028. A obra deve impactar 93 municípios.

O trecho de Cuiabá-Rondonópolis estava previsto para início da operação em 2025, enquanto o de Lucas do Rio Verde–Rondonópolis, para 2028.

O caso

De acordo com o MPF, a ação foi proposta na Justiça após perícias elaboradas pela instituição, informações repassadas pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e a percepção do povo indígena Boe-Bororo sobre o empreendimento. A comunidade não teria sido consultada sobre a construção em seu território.

O povo Boe-Bororo, conforme o MPF, é caracterizado por ser uma ‘complexa organização social’ e pela riqueza da vida cerimonial. No passado, membros da etnia habitavam boa parte da região Centro-Oeste do Brasil, mas hoje estão concentrados, principalmente, em terras indígenas em Mato Grosso.

FALE COM O PP

Para falar com a redação do Primeira Página em Mato Grosso, clique aqui. Curta o nosso Facebook e siga a gente no Instagram.

Leia também em Justiça!

  1. JUSTIÇA - TRIBUNAL DO JÚRI E REGRAS DE CHAMAMENTO DOS JURADOS

    Professora agredida por aluno recebe indenização de R$ 20 mil

    Uma professora da rede municipal de ensino de Campo Grande será indenizada...

  2. Sede do TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul). (Foto: Divulgação/TJMS)

    Com 33 dias de folga, TJMS divulga calendário de recesso e feriados de 2026

    O TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) divulgou o...

  3. STF vê inconstitucionalidade e suspende decreto sobre consignados em MT. - Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil.

    STF derruba decreto da Assembleia de MT que suspendia cobrança de consignados

    Decreto de MT sobre consignados é suspenso por invadir competência da União...

  4. Fiscalização encontra pescado clandestino e MP dá prazo para regularização. - Foto: MPMT

    MPMT cobra ação do poder público contra venda irregular de pescado em Cuiabá

    Comércio de pescado sem controle sanitário vira alvo do Ministério Público em...

  5. STF anula votação da Câmara e decreta perda de mandato de Carla Zambelli

    O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), anulou, nessa...