Justiça mantém fim de distrito após constatar que comunidade tem 21 moradores e não possui estrutura para funcionar

Decisão considerou o esvaziamento da comunidade, que não possui estrutura básica nem os requisitos mínimos previstos para a existência de um distrito.

O Órgão Especial do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) decidiu, por maioria, julgar improcedente, uma ação apresentada pelo prefeito de Rondonópolis (MT), Cláudio Ferreira (PL), contra lei que determinou a incorporação do Distrito de Anhumas à sede do município. Com isso, o distrito deverá ser extinto. A decisão é de quinta-feira (13).

primeira pagina 43
Tribunal rejeitou os argumentos do prefeito de Rondonópolis e manteve a lei que incorporou Anhumas à sede do município. – Foto: Reprodução

O processo teve início com Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) proposta pelo prefeito de Rondonópolis (MT), Claudio Ferreira (PL), contra a Lei Municipal n. 14.423/2025, promulgada em 22 de setembro de 2025, editada pela Câmara Municipal, que incorporou o distrito de Anhumas à sede do Município.

O Executivo municipal questionou a legislação sob a alegação de que a Câmara de Vereadores não teria competência para propor a medida. A prefeitura também sustentava que não houve consulta prévia à população e que o município teria invadido competência do Estado.

Diante disso, pediu a suspensão cautelar da lei e que fosse julgada procedente a ação, declarando o ato normativo inconstitucional.

Segundo o processo, o distrito de Anhumas fica localizado a 55 km do centro de Rondonópolis e mais 10,11 Km entrando no acesso da BR-163 seguindo na Rodovia MT-040. A comunidade conta com apenas 4 famílias e 21 pessoas, não preenchendo os requisitos mínimos legais para a existência de um distrito.

Conforme os autos, a comunidade não possui pavimentação asfáltica ou rede de esgoto, o abastecimento de água funciona por meio de poço rudimentar, não possui internet e rede de telefonia.

Além disso, a comunidade não possui comércio, as famílias realizam compras na cidade de Rondonópolis. Não há serviços bancários, correios, postos de saúde, creches e escolas.

De acordo com um dos moradores, Anhumas foi fundada há 30 anos para fins de moradia, produção de leite para consumo próprio e plantação agrícola de subsistência de 4 famílias. O nome se deu pela quantidade de aves da espécie Anhima cornuta que habitavam na fauna da região.

TJMT reconhece validade de lei que extinguiu distrito

Conforme a relatora do processo, a desembargadora Nilza Maria Pôssas de Carvalho, o distrito existe apenas no plano formal, sem qualquer correspondência com a realidade social e administrativa que justificaria sua manutenção como unidade distrital autônoma.

“Não há, em Anhumas, comunidade organizada no sentido jurídico e sociológico que justificaria a exigência de consulta popular. A localidade não preenche sequer os requisitos mínimos estabelecidos pelo art. 25 da própria Lei Complementar Estadual n. 23/1992 para a existência de um distrito, que exige “50 habitações, no mínimo, na sede da localidade” e “população superior a 1 mil habitantes no território”, diz trecho.

A magistrada ressaltou ainda que, a Constituição de Mato Grosso e a legislação estadual estabelecem que a criação, organização e supressão de distritos devem ocorrer por lei municipal e depender de consulta prévia às populações diretamente interessadas.

Porém, ela entendeu que a exigência não poderia ser aplicada de maneira literal ao caso de Anhumas, diante do esvaziamento demográfico e da inexistência de uma estrutura distrital efetiva.

primeira pagina 44
Anhumas foi criado como distrito em 1964, mas atualmente tem apenas 21 moradores e não possui estrutura administrativa própria. – Foto: Reprodução

Segundo o voto, a legislação estadual exige, para a criação de um distrito, pelo menos 50 habitações na sede da localidade e população superior a mil habitantes no território. Anhumas, conforme os documentos analisados pelo tribunal, possui apenas quatro famílias e 21 moradores.

Para a magistrada, exigir uma consulta popular nessas circunstâncias representaria formalismo excessivo, já que a localidade não apresentaria, na prática, as características de uma comunidade organizada que justificassem a manutenção da condição de distrito.

Câmara tinha competência para aprovar lei

Outro argumento apresentado pelo prefeito foi o de que a Câmara Municipal não poderia ter iniciado o projeto que resultou na incorporação de Anhumas.

A relatora afastou a alegação. Segundo ela, a medida não envolve criação de órgão público, alteração da estrutura administrativa do Executivo ou geração de impacto orçamentário que caracterizasse matéria de iniciativa exclusiva do prefeito.

O TJMT entendeu que a incorporação de um distrito territorialmente esvaziado à sede municipal está dentro da competência do município prevista no artigo 30, inciso IV, da Constituição Federal.

O fato de Anhumas ter sido criado originalmente por meio da Lei Estadual nº 2.130, de 1964, também não impediria o município de modificar sua organização administrativa interna.

Ao final, o Órgão Especial do TJMT reconheceu a constitucionalidade da Lei Municipal nº 14.423/2025 e rejeitou o pedido apresentado pelo prefeito de Rondonópolis. Com a decisão, fica mantida a incorporação de Anhumas à sede de Rondonópolis.

Leia mais

  1. TRE-MT aprova plebiscitos que podem mudar limites de 4 municípios; entenda como vai funcionar

  2. Plebiscitos que podem mudar limites de 4 municípios de MT poderão ter campanha; entenda como vai funcionar

FALE COM O PRIMEIRA PÁGINA

Para falar com a redação do Primeira Página em Mato Grosso, clique aqui. Curta o nosso Facebook e siga a gente no Instagram.

FALE COM O PRIMEIRA PÁGINA

Para falar com a redação do Primeira Página em Mato Grosso, clique aqui. Curta o nosso Facebook e siga a gente no Instagram.

Leia também em Justiça!

  1. primeira pagina 2026 08 15T054133.934

    Afastamento de secretário de governo de Várzea Grande é suspenso pela Justiça

    TJMT determinou a suspensão do afastamento do secretário de Governo Silvio Fidelis...

  2. Médico cardiologista João Jazbik Neto, na residência onde o feminicídio ocorreu (Foto: William Guedes)

    Justiça mantém prisão de médico suspeito de feminicídio de fisioterapeuta

    Após passar por audiência de custódia nesta sexta-feira (4), o médico cardiologista...

  3. creche

    Falta de vagas em creches na mira de investigação em cidade de MS

    Problema comum em cidades do Brasil, município em Mato Grosso do Sul...

  4. Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal. (Foto: Luiz Silveira/STF)

    Moraes pede investigação contra André Mendonça no STF; veja as suspeitas

    O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), utilizou o...

  5. primeira pagina 2026 09 03T175419.299

    Justiça manda MTU comprovar construção de 150 abrigos de ônibus em Cuiabá

    A Justiça de Mato Grosso determinou que a Associação Matogrossense dos Transportadores...